Eu tinha cinco anos quando o meu avô morreu. Durante anos, guardei uma imagem dele com a sua boina, à entrada de casa, observando o pátio de terra batida onde andavam as galinhas. A casa foi demolida para dar lugar a um prédio sem alma, e as galinhas desapareceram (para onde terão ido?).
Um dia, encontrei uma fotografia antiga do meu avô em pé no topo da escada e percebi o meu erro: aquela «memória» era um copy-paste da fotografia.
A memória é um tanto dramática. No nosso cérebro, os neurónios disparam em sequência e criam um padrão de atividade elétrica; depois libertam neurotransmissores, como dopamina ou serotonina, que se ligam a outros neurónios, criando sinapses e reforçando esse padrão.
Os nossos cérebros são fisicamente alterados pelas memórias, criando caminhos que podem ser ativados por qualquer coisa, desde um pensamento até ao cheiro de papel de embrulho.
Mas as coisas podem correr mal quando tentamos aceder a uma memória.
Se isto fosse uma história-de-amor-com-um-final-feliz, a amnésia seria provocada por uma lesão: um acidente de carro numa tempestade de neve nos arredores de uma pequena cidade. Mas, na vida real, normalmente esquecemo-nos porque o padrão criado se desvanece por falta de uso, porque a memória não foi devidamente registada (talvez não estivéssemos a prestar atenção) ou porque algo interfere na recordação.
Eu costumava ajudar a minha mãe com o orçamento mensal da nossa casa. Analisávamos as despesas e as receitas e tentávamos esticar o dinheiro. Lembro-me de me sentir orgulhosa por ela contar comigo, mesmo sendo apenas uma criança. Também me lembro da sensação de inquietação, de medo, ao perceber que vivíamos de salário em salário, num limite que a minha mãe desafiava todos os meses.
Há uns anos, em terapia, aprendi o conceito de parentificação e foi como atravessar uma tempestade. Muitas memórias com a minha mãe, como fazer o orçamento mensal, ganharam um novo significado, uma nova camada de interpretação: eu não era madura para a minha idade, pediram-me para desempenhar um papel.
Essa constatação transformou as minhas memórias. Foi como no filme Divertida Mente, quando as memórias felizes amarelas são tingidas com a tristeza azul.
A memória, o padrão que é criado no cérebro, é reconstruída cada vez que é acedida e, às vezes, algo interfere nessa reconstrução. Acrescentamos ou subtraímos detalhes, ou misturamos novas informações, como a fotografia do meu avô ou o conceito de parentificação.
A memória imperfeita tem vantagens evolutivas. Esquecer permite ao cérebro criar novas ligações e não se perder em detalhes, ou no passado.
Tomamos decisões sem termos de ponderar todos os dados de cada momento das nossas vidas. Atualizamos informação obsoleta e adaptamo-nos. Cruzamos informações de formas criativas. Conseguimos (por vezes) recuperar de traumas. As mulheres (por vezes) querem dar à luz mais do que um filho.
Esquecemos, perdemos as ligações que não usamos e de que já não precisamos.
Somos moldados por aquilo de que nos lembramos (e por aquilo que esquecemos)
Já tive conversas suficientes com o meu irmão para perceber que, embora tenhamos crescido na mesma casa com os mesmos pais, as nossas memórias de infância incluem situações e bandas sonoras emocionais muito diferentes. Para cada um de nós, as histórias que recordamos são reais e moldam as pessoas que somos.
Aquilo de que nos lembramos tem impacto nas escolhas que fazemos, na forma como nos sentimos em relação às coisas, na forma como agimos quando alguém passa à nossa frente na fila quando já estamos atrasados.
Mas aquilo que esquecemos também pode, inconscientemente, influenciar as nossas ações e emoções: mesmo quando os caminhos para as memórias desaparecem ou enfraquecem, as nossas estruturas cerebrais podem guardar registos de respostas emocionais em torno de certos gatilhos (também conhecida como memória implícita).
(E, por mero acaso, estava a ler Notes of a Native Son, de James Baldwin, e deparei-me com esta frase: «O homem não se lembra da mão que o atingiu, da escuridão que o assustou, em criança; no entanto, a mão e a escuridão permanecem com ele, indivisíveis de si mesmo para sempre, parte da paixão que o move para onde quer que ele pense fugir.»)
As nossas experiências esquecidas tornam-se parte do subtexto das nossas vidas, guiando-nos enquanto procuramos fugir ou expressar-nos. Se a história que molda a nossa identidade é esta mistura arbitrária de texto e subtexto, isso suscita a questão: somos nós que a estamos a escrever?
Não há nenhuma fórmula mágica que nos ajuda a lembrar (quem me dera), mas existem técnicas que nos ajudam a fortalecer os padrões de memória. Não há nenhuma fórmula mágica que nos permita escolher o que esquecemos (o filme O Despertar da Mente explora isto lindamente), mas existem técnicas que nos ajudam a enfraquecer padrões de memória, a dar-lhes novos significados e a gerir o seu impacto.
Por isso, nós «escolhemos», até certo ponto.
Listas, registos e lembretes no calendário são os meus melhores amigos no trabalho. Tomo Ómega-3 e faço sudokus.
Olhar para fotografias ajuda-me a lembrar e a reforçar padrões associados a pessoas e memórias partilhadas.
Já fiz várias formas de terapia e escrevo sobre as minhas experiências, tentando criar distanciamento.
Ao ser apresentada a alguém, tento ferozmente prestar atenção e repito o nome, na esperança de criar um registo forte antes que este se evapore dois segundos depois. Falho muitas, muitas vezes. Desculpa, «João».
Na semana passada li (não me lembro onde...) sobre uma criança que olhava para a paisagem a passar pela janela de um comboio e tentava captar tudo o que via para poder formar uma memória perfeita, e reconheci-me nela. Sou frequentemente atingida por uma espécie de luto, a sensação de que o momento presente se vai perder para sempre nas minhas sinapses imperfeitas.
Escolhi as palavras «prestar atenção à vida» como o lema para esta publicação, em parte porque quero viver mais, sentir mais (mesmo que seja paz de espírito) e em parte porque essa atenção é o alicerce das memórias.
As nossas memórias não são estáticas, nem a história que construímos à volta delas. Talvez o que torna este mecanismo imperfeito seja também o que o torna tão poderoso, ao permitir-nos criar, e aceder, a uma versão do nosso passado que é mais útil para o nosso presente.
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