Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que acham que tudo é culpa delas e as que acreditam que nada é culpa delas.
Esta é uma falsa dicotomia. Como em todas as coisas humanas, existe um espectro entre estes dois opostos.
Num extremo, as pessoas carregam a responsabilidade por tudo e todos. Soa assim: «(A descer as escadas) Devia oferecer-me para acabar aquele relatório para a Maria, ela está ocupada a preparar-se para as férias. Preciso de arranjar tempo para ajudar o João com a apresentação dele; ele estava tão nervoso ontem. (Ao entrar na sala, começa a apanhar os brinquedos espalhados pelo chão) Tenho de arrumar tudo, outra vez. (A abrir a porta da rua) O frigorífico antigo da Sra. Silva continua no passeio; o sobrinho dela não ligou para a recolha do lixo. Será que ele sabe que tem de ligar? Será que vai ligar? É mais fácil se eu tratar disso. (Marca o número)»
No outro extremo, as pessoas mantêm uma clara separação entre as suas responsabilidades pessoais e as dos outros, e acreditam que os outros fazem o mesmo. Soa assim: «(A descer as escadas) Aposto que a Maria não vai conseguir terminar o relatório antes das férias. Ela precisa de aprender a gerir os prazos e eu preciso de poupar a minha energia. O João está stressado com a apresentação de amanhã, mas vai ficar bem, como sempre. Ele precisa de confiar mais em si. (A olhar à volta) Estes brinquedos estão por todo o lado. (A abrir a porta da rua) O frigorífico antigo da Sra. Silva continua no passeio. O sobrinho dela não ligou para a recolha do lixo.»
Tomei consciência desta dicotomia após ler o livro Obrigado pelo feedback, que discutia como as pessoas nestes dois extremos sentem e agem de forma muito diferente ao receber feedback negativo: vão desde «O que é que eu fiz de errado?» a «Quem és tu para dizer que eu fiz algo errado?», desde a sobre-responsabilidade impulsionada pela culpa ao desprendimento descomprometido.
Imagino este espectro como uma curva em sino (distribuição de Gauss), e uso-o como uma forma de caracterização humana, principalmente por curiosidade, por vezes ainda por julgamento. Vejo-me, em criança, muito perto do extremo da culpa, a tremer quando a minha mãe gritava: «Quem fez isto?».
«Responsabilidade» é a capacidade de responder, de corresponder, de oferecer em troca — molda a forma como interagimos com os outros e com o planeta (como interagimos connosco próprios é toda uma outra conversa). As nações e as religiões são preservadas pelo sentido de dever para com elas. As famílias dependem do apoio mútuo. Confiamos nas fábricas para não poluírem as nossas águas subterrâneas. A responsabilidade é o que faz as comunidades funcionarem.
Ignorar uma tarefa, como o relatório da Maria, pode aliviar o nosso fardo, mas também nos pode custar a oportunidade de fortalecer uma relação, de melhorar a vida de alguém ou de construir uma cultura colaborativa no trabalho. Se o relatório da Maria for crucial, optar por ignorá-lo torna-se negligência. Se, numa equipa ou numa família, temos sempre as mesmas pessoas a evitar a responsabilidade pelas tarefas «partilhadas», isso coloca um fardo injusto sobre os outros.
Não tinha dúvidas de que ser responsável era o lado certo. Foi o que me fez estudar, licenciar-me, arranjar um emprego em que me sentia realizada e tornar-me independente. «Responsável» era quem eu quero(ia) ser, mesmo que nem sempre fosse quem eu era.
Se não fazemos as coisas que devíamos fazer, estamos errados, certo? Nem por isso.
Lembro-me de, durante um período de exames na faculdade, estar dividida porque aceitei viajar para Cuba para um curso de formação sobre educação não formal e ambiente. Tive um exame no dia seguinte à chegada e mal consegui passar. Foi certamente a decisão errada, devia ter ficado a estudar, mas nunca me arrependi dessa decisão porque aquele curso de formação foi um marco na minha vida.
Como assim?
O véu começou a levantar-se. Talvez houvesse algo de positivo na «irresponsabilidade» e algo de negativo na «responsabilidade».
Voltando à definição: somos irresponsáveis quando não podemos, ou não queremos, responder a algo ou a alguém. E se estivermos a responder a outra coisa, a outra pessoa?
E se a pessoa que está a olhar para os brinquedos espalhados pela sala de estar estiver a pensar: «Ontem foi uma noite tão criativa; ter filhos realmente desperta a minha criança interior». E se alguém decidir que ter um lugar para a imaginação é mais importante do que ter uma sala de estar arrumada?
E se a pessoa que não se oferece para ajudar estiver simplesmente a confiar nos outros para fazerem o seu trabalho ao seu próprio ritmo, permitindo-lhes crescer e aprender com os erros e, talvez, a apresentarem soluções diferentes das suas?
Como é que alguém pode dizer que um valor é mais importante do que outro? Quem decide a quem, ou a quê, respondemos? A sociedade? O nosso chefe? Nós próprios?
O véu continuou a levantar-se quando li Obrigado pelo feedback. Com uma frase, outra parte da minha certeza desmoronou-se. Não me lembro das palavras exatas, mas a ideia era: quando assumimos a responsabilidade por uma situação pela qual não somos responsáveis, tornamo-la mais difícil de resolver. A ideia surpreendeu-me: estar demasiado perto do extremo «responsável» podia fazer tanto mal quanto o seu oposto.
Anos mais tarde, quando me tornei líder de equipa, esta ideia foi crucial. Estava assoberbado por todas as coisas que estavam sob a minha alçada, uma lista de tarefas gigante que assombrava o meu sono, e conseguia perceber como a culpa estava a impedir conversas construtivas sobre os problemas reais.
No trabalho, comecei a notar como as outras pessoas lidavam com a «responsabilidade» e como podiam reconhecer um problema sem o transformar imediatamente noutra coisa que tinham de resolver sozinhas.
Aprendi a respirar, a dar um passo atrás e a transformar a minha conversa interior sobre culpa em soluções. Aprendi a ser curiosa sobre os problemas e sobre o que nós, como equipa, podíamos fazer. Isto ajudou-me a criar espaço para olhar para as coisas objetivamente e parar de sentir que era pessoal, mantendo a culpa à distância.
Mas só quando deixei aquele emprego é que fui capaz de perceber a arrogância do meu sentimento de «se eu não fizer, ninguém fará». Não parecia arrogância na altura; parecia estar a dar o meu tempo e energia a uma causa — eu estava a ser «responsável». Foi inspirador (e um enorme alívio) perceber com que facilidade fui substituída.
«Irresponsabilidade» nem sempre é negligência; é escolher ao que responder. É escolher os nossos valores. É criar limites. É escolher confiar nos outros. É ter a humildade de saber que as coisas vão continuar sem nós. Talvez precisemos de um novo nome, como «envolvimento seletivo».
Imagina que temos uma agulha a apontar para um ponto neste espectro, para o que sentimos ser o ponto «certo». A minha configuração padrão ainda está no lado da «responsabilidade», mas afastou-se do extremo. E nem sempre está nesse sítio; por vezes, movo-a intencionalmente para o outro lado.
A nossa tendência individual pode mudar ao longo do tempo e variar em diferentes áreas da nossa vida (como ser responsável no trabalho, mas não na saúde). Estar consciente deste espectro e desta tendência permite-nos ajustar a agulha quando necessário, embora ainda seja possível que ela fique presa sem que nos apercebamos.
Existem sinais que nos permitem saber que estamos em desequilíbrio e a precisar de mudar. Se te sentes sempre culpado, se sentes ressentimento ou se estás esgotado, talvez precises de largar a vontade de querer fazer tudo. Se sentes que estás a perder oportunidades, se te sentes apático, bloqueado ou desligado, talvez seja hora de te pores a mexer.
Nem sempre é fácil dizer qual é o movimento certo. Nalguns casos, sinto que desviei a minha agulha demasiado para a «irresponsabilidade», mas depois pergunto-me se estou apenas a sentir-me culpada por pôr as minhas necessidades em primeiro lugar.
Mover a agulha é procurar um alinhamento entre nós, os outros e o mundo. Cuidar é um ato de amor; não cuidar é um ato de liberdade. O que é mais necessário? Depende - precisamos de calibrar a agulha com os nossos valores, desde a vontade de deixar o mundo um lugar melhor até à necessidade de paz de espírito.
Para onde aponta a tua agulha hoje? Devias movê-la?
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