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eu te Digo · Mar 5, 2026

🔵 186: Espelho, espelho meu

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Digo Lemos · eu te Digo

Há algumas semanas, eu assisti esse Reel aqui no Instagram e ele me deu uma coceira gigante. Veio tanta coisa na cabeça pra falar… E aí decidi escrever esse post.

(Pra ser super transparente, troquei uma boa ideia pelo DM do Insta com o Gui, autor desse post, e deixei um trecho no final dessa edição falando sobre nossa conversa.)

Vou traduzir aqui o Reel pra facilitar sua vida (e pra você entender minha coceira e o texto de hoje). Ah, e “detalhe” importante: o autor tem mais de 1 milhão de seguidores. Nas palavras dele:

“Invista tudo que você puder em roupas legais, uma boa academia, uma boa alimentação, tomando bastante água, dormindo direito, faça procedimentos estéticos, se você tiver condições financeiras para isso, vá cuidar da sua estética, vá cuidar do seu corpo, da sua saúde mental.

Autoestima pra mim é a mãe do sucesso. Todos os bons comportamentos são baseados na nossa autoestima. Todos. Se você se falar para as pessoas na rua, conseguir um novo emprego, se você for da internet, tudo que você faz está totalmente associado à sua autoestima. Se a sua autoestima é baixa, você não tem coragem de arriscar, inventar algo novo e original. Se a sua autoestima é alta, você arrisca coisas diferentes. Quanto mais você arrisca coisas diferentes, mais resultados você gera. Tudo o que você faz na sua vida para você ter sucesso financeiro, para você ter sucesso profissional, para você ter sucesso no amor, na sua família, está totalmente associado à sua autoestima. E a sua autoestima é uma soma de como a sociedade te vê mais como você se vê.

Se você não tem controle geral ainda de como a sociedade te vê, o único conforto que você tem é sobre como você se vê. Invista tudo o que você puder em roupas legais, boa academia, uma boa alimentação, tomando bastante água, dormindo direito, faça procedimentos estéticos se você tiver condições financeiras para isso, vá cuidar da sua estética, vá cuidar do seu corpo e da sua saúde mental. A hora que você chega nesse flow que a sociedade valoriza e eu valorizo tudo para você, é fácil.”

Minha primeira reação a esse texto foi pensar algo como “na hora que o perrengue bater, eu prefiro ‘ter as manhas’ e ter investido em conhecimento e habilidades do que harmonização facial ou lentes de contato nos dentes”. Risos.

Eu pesquisei um pouco mais e, no dia em que vi o post, vi que o autor também compartilhou nos Stories do Instagram um livro chamado “Capital Erótico”, que foi de onde ele tirou esse insight.

Minha principal crítica vai de encontro ao “invista tudo que você puder” e “vá fazer procedimentos estéticos” repetido 2x. Achei esses conselhos, sinceramente, um absurdo.

Só que eu entendo a intenção. Autoestima importa mesmo e eu sei que ela pode contribuir, mas nossa competência também influencia (e muito) nossa autoestima e isso nunca deveria ser ignorado, porque a crença que temos na nossa capacidade de executar algo se sustenta muito mais nas nossas habilidades do que na nossa aparência.

Tem um conceito legal da psicologia relacionado a isso que se chama autoeficácia, sugiro os mais curiosos pesquisarem por Albert Bandura. Pra resumir, a autoeficácia é a crença na sua própria capacidade de executar e produzir resultados. Essa crença é construída principalmente por experiências de domínio, ou seja: fazer coisas difíceis e conseguir, não por procedimento estético ou aparência.

Competência tende a gerar um sinal interno mais robusto e mais estável do que aparência ou qualquer investimento externo.

Um outro jeito de defender essa ideia é com uma analogia simples de que investir na estética esperando conseguir mais coisas na vida é a mesma coisa que comprar seguidores pra se sentir mais relevante numa rede social: talvez ajude até uma pessoa ou outra, mas não se sustenta.

E aí, pra reforçar meu ponto e tirar tudo que passou pela minha cabeça, quero expor outros problemas óbvios dessa ideia de “investir na sua imagem pra ter autoestima”:

  • O 1º problema é que a aparência, sim, influencia a autoestima, mas ela também vai reforçar e muito todos os seus comportamentos de validação e comparação com outras pessoas.

  • O 2º problema é que o tombo vai ser muito maior quando a pessoa investir tudo que ela pode em aparência e estética e depois não consegue alcançar certas coisas (o que acontece com todo mundo) por ter deixado competência, virtudes e habilidades de lado.

  • O 3º problema é provavelmente o mais óbvio: nossa aparência é perecível. Ela tem data de validade. Já as nossas habilidades, nós as levamos pro resto da vida.

  • O 4º problema é que quando você ancora sua autoestima na estética, você se torna mais dependente da opinião dos outros, e aí cada elogio, cada olhar, cada curtida passa a ter peso, a comparação vira hábito e a validação vira vício.

  • O 5º problema é que ao fazer do seu corpo e imagem o projeto central da sua identidade, você cria uma relação transacional com o seu próprio valor: meu corpo vale X, meus procedimentos valem Y, portanto eu valho Z… Só que o valor que depende de manutenção constante não é valor, é custo.

Olhei no relógio, reli esse texto até aqui e acredito que já escrevi muito mais do que eu deveria pra defender que qualquer construção depende de uma boa fundação, de uma base robusta, e que o mundo não cansou de nos trazer exemplos de que deveríamos construir as coisas de dentro pra fora, não de fora pra dentro.

O conselho desse vídeo do Gui promete uma autoestima que te liberta, mas entrega uma autoestima que não sai do espelho e que dificilmente vai resistir à realidade nua e crua.

Talvez eu resumiria esse texto de hoje nessa frase: se eu fosse dar um conselho pro meu filho (que eu ainda não tenho), entre investir na competência e investir na aparência, eu falaria “filhão, vai mil vezes na competência”.

Muito obrigado por ler até aqui.

Vamos juntos,

Digo

PS: tive uma ótima conversa com o Gui, autor do post. Ele entendeu a crítica que eu trouxe (porque eu gravei um vídeo reagindo ao vídeo dele) e reforçou que o principal ponto que ele quis trazer foi uma crítica às pessoas sem nenhum conteúdo robusto e que acabam crescendo por terem investido em estética e aparência.

Inclusive, acredito que uma boa maneira de resumir essa conversa é que não é “um ou outro” e sim “um e outro”. Eu só continuo batendo o pé que existe uma ordem: primeiro competência, sempre.

Read the original on eutedigo.substack.com

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