Olá!
Nesta quinzena, abrimos a newsletter da Eu Decido com uma homenagem ao Tiago Pitthan. Advogado e paciente com câncer, ele partiu no domingo passado. Tiago foi inspirador em muitos sentidos. Para nós, aqui da Eu Decido, chama a atenção a clareza que ele teve ao apoiar a causa da morte assistida, mesmo sem o desejo da prática para si mesmo: um senso de civilidade ao defender que todos tenham acesso ao direito, mesmo sem querer usá-lo. Um exemplo claro de quem entende que a autonomia do ser humano é um bem de grande valor.
Tiago Pitthan, um aliado
por Luciana Dadalto*
“Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito.”
Essas foram as últimas palavras públicas de Tiago Martins Pitthan, cujo apelido era “Bom Sujeito”, que morreu no último dia 5, em decorrência de um câncer no estômago.
Se você acompanha nossa newsletter e nosso Instagram, certamente já leu ou já ouviu alguma fala dele. Também é provável que você tenha visto Tiago no Fantástico ou lido uma das dezenas reportagens que saíram sobre ele em sites e jornais daqui e de fora do país.
A história de Tiago viralizou porque ele, ciente de que o fim de sua vida se aproximava, decidiu que queria participar de seu próprio velório. No dia 30 de maio aconteceu uma despedida em vida, regada à cerveja, sorrisos, abraços e de muita, muita, muita alegria. Nesta celebração, ele disse: “As pessoas me perguntam todos os dias como é estar morrendo. Eu não sei. Tenho câncer terminal, não tem cura, faço tratamento paliativo. Mas não sei como é estar morrendo.” E explicou: “Estou vivendo. Eu vou morrer uma vez só. Todos os outros dias eu estou vivendo. Isso aqui é um velório, porque fiz questão de chamar de velório. Porque quando damos nomes para as coisas, conseguimos enfrentar. Quando não damos nomes, elas assombram a gente.”
Algumas semanas antes desse velório-festa, Tiago procurou a Eu Decido dizendo que queria usar sua voz para ampliar o alcance da temática da morte assistida para a sociedade brasileira. No dia 19 de maio, eu e ele nos encontramos virtualmente. Ele deu uma gargalhada gostosa quando eu falei: “Tiago, você sabia que o velório em vida é uma prática comum entre pessoas que optam pela morte assistida?”. E então me disse: “Eu nunca tinha pensado nisso. Mas mesmo que a morte assistida fosse permitida no Brasil eu não faria essa escolha, pois seria muito dolorosa para minha mãe. Mesmo assim, quero lutar para que todos os brasileiros tenham o direito de decidir.”
Ele gravou um vídeo de apoio à causa. Clique na imagem para assistir:
Naquela mesma conversa, combinamos que ele abriria o 1º Simpósio Internacional da Eu Decido, um evento online, com palestrantes estrangeiros, que acontecerá dia 12 de agosto.
Não deu tempo.
Mas me recuso a falar que “infelizmente” não deu tempo. Porque este não é uma palavra que combina com este homem alegre, que ousou viver todos os dias - até o do seu velório.
*Luciana Dadalto é presidente da Eu Decido. Advogada especialista em direito médico e da saúde, bioeticista, professora e pesquisadora.
Por aqui, a gente volta daqui a 15 dias. Nossa conversa continua pelo Instagram @eudecido.org, combinado? Até lá!
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