Olá!
Na newsletter desta quinzena, um artigo da nossa presidente, Luciana Dadalto, que acaba de participar do VI Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio, promovido pela Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS).
O convite para a Eu Decido é um fato socialmente importante, porque demonstra um amadurecimento sobre o tema da morte assistida no país. Afinal, a ABEPS reconhece que não há contradição entre defender a morte assistida e defender a prevenção do suicídio. E aí, partindo desse princípio, precisamos sustentar um diálogo e um debate informativos e saudáveis em sociedade.
Na sequência, você vai ter a sua última oportunidade de se inscrever no I Simpósio Internacional da Eu Decido, marcado pra quarta-feira, dia 12 de agosto. Venha fazer parte de mais esse passo histórico no avanço da conversa sobre a morte assistida no Brasil! As vagas são limitadas.
Boa leitura!
Como proteger vulneráveis e preservar a autonomia dos indivíduos?
por Luciana Dadalto*
Termina hoje, em Petrópolis (RJ), o VI Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio, promovido pela Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS).
Na qualidade de presidente da Eu Decido, fui convidada para a conferência “Autonomia x prevenção: como proteger vulneráveis e preservar a autonomia dos indivíduos”.
Penso que esse seja um dos pontos mais importantes no debate ao acesso à morte assistida: primeiro, retirando um falso antagonismo entre os dois aspectos. Depois, sem essa barreira, podendo aprofundar os contornos que buscam garantir a dignidade em todos os cenários.
Durante a minha exposição apresentei informações e evidências científicas, que agora divido aqui, para que a gente possa refletir junto:
As taxas de suicídio são impulsionadas por determinantes socioeconômicos, qualidade dos serviços de psiquiatria e cobertura de cuidados paliativos, mantendo-se estatisticamente independentes da aprovação das leis de morte assistida¹. Esse perfil é o que estamos qualificando aqui como “vulneráveis”;
Não existe evidência científica de que leis de morte assistida mais restritivas impulsionem mudanças legislativas que levem a leis que permitam a morte assistida de vulneráveis²;
A legalização da morte assistida não aumentou o suicídio entre populações vulneráveis ou com transtornos psiquiátricos não terminais³;
Na Holanda, país que permite morte assistida para pessoas com transtornos psiquiátricos, os principais motivos dos pedidos foram: “sentimentos depressivos” e “situações desesperadoras em diversas áreas da vida”. Mais de 60% dos pedidos foram negados por não se enquadrarem nos critérios legais;
A Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio demonstra preocupação com o fato de que, devido à incapacidade — documentada nas pesquisas atuais — de prever quais pessoas com transtornos mentais têm um prognóstico desfavorável ou sem esperança e quais apresentarão melhoria substancial (com ou sem tratamento). Por isso, não devemos permitir o acesso à morte assistida para pessoas cujo sofrimento esteja associado exclusivamente a um transtorno mental.
Diante disso, apresentei fatos que demonstram o que acontece globalmente quando interditamos o debate sobre morte assistida:
Pessoas com condições financeiras que moram em países em que a morte assistida é proibida buscam o procedimento em organizações na Suíça (o único país que aceita estrangeiros não residentes para a prática);
Com frequência surgem livros (ou outros meios) que ensinam pessoas à realizarem autoextermínio, algo que é contrário às recomendações mundiais de prevenção ao suicídio;
Nos últimos anos, tem havido o surgimento de protótipos de máquinas que pretendem dar a possibilidade da morte indolor de qualquer pessoa - independente do diagnóstico de uma condição clínica incurável. Ou seja, sem critérios, protocolos ou qualquer condição segura.
Quando conseguimos debater sobre morte assistida e legislar sobre o tema, conseguimos, também, proteger as pessoas vulneráveis. A lei deve criar procedimentos, critérios e salvaguardas. Logo, ao não debater o tema, abrimos espaço para a informalidade e para o acesso de pessoas que precisam de cuidados médicos e buscam a abreviação da vida por desespero. E, ainda, interditamos o exercício da autonomia de pessoas que já estão morrendo, e em sofrimento por uma condição de saúde incurável e irreversível.
Finalizei minha fala com uma frase que a associação inglesa Dignity in Dying (Dignidade ao Morrer) usou em uma manifestação feita em 2024 no Parlamento: “A prevenção do suicídio protege as pessoas que querem viver, mas perderam a esperança; a morte assistida respeita as pessoas que vão morrer, mas exigem o direito de não sofrer.”
O público do congresso da ABEPS é majoritariamente composto por profissionais da psicologia e foi emocionante ver como estes profissionais conseguem entender de forma muito clara a possibilidade de co-existência entre políticas de prevenção ao suicídio e a defesa da morte assistida.
Como presidente da Eu Decido, saio de Petrópolis na certeza de que a nossa associação tem conseguido fazer exatamente o que se propõe:
Promover e desenvolver debate na sociedade brasileira sobre direito à morte assistida de pessoas com mais de 18 anos, capazes para os atos da vida civil, em sofrimento que considerem insuportável, por conta de doença terminal e/ou incurável, incapacitação grave e/ou irreversível, ou padecimento decorrente de envelhecimento avançado, com salvaguardas para a proteção de populações vulneráveis;
Promover a aproximação e intercâmbio entre especialistas e entidades que tenham pertinência temática, em especial, as voltadas aos direitos do paciente;
Produzir e divulgar informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito às suas atividades e finalidades.
Faço votos de que a ABEPS continue convidando a Eu Decido para debates e que participe dos eventos feitos por nós. Faço votos, ainda, que outras entidades de saúde abram espaço para o debate. Só assim conseguiremos realmente preservar a autonomia das pessoas e, ao mesmo tempo, proteger pessoas vulneráveis. O caminho não é a interdição da conversa.
¹ Emanuel, E. J., Onwuteaka-Philipsen, B. D., Urwin, J. W., & Cohen, J. (2016), Jones, D. A., & Paton, D. (2015), Mishara, B. L., & Weisstub, D. N. (2016), Gerson, S. M., et al. (2020).
² Emanuel, E. J., Onwuteaka-Philipsen, B. D., Urwin, J. W., & Cohen, J. (2016)
³ Emanuel, E. J., Onwuteaka-Philipsen, B. D., Urwin, J. W., & Cohen, J. (2016)
*Luciana Dadalto é presidente da Eu Decido. Advogada especialista em direito médico e da saúde, bioeticista, professora e pesquisadora.
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“Diferentes países, diferentes formas de reconhecimento do direito à morte assistida: as experiências da Suíça, do Canadá e da Colômbia”. Sob esta temática, pela primeira vez na História, o Brasil vai promover um evento internacional sobre morte assistida. A Eu Decido vai proporcionar ao público brasileiro o contato direto com informações sobre a prática da morte assistida em três diferentes países, com três diferentes realidades. Vamos ouvir as experiências de profissionais gabaritados, que atuam diretamente com a temática. Será uma oportunidade única para escutar relatos, dados e tirar dúvidas. Para bebermos de três diferentes fontes e refletirmos melhor sobre o modelo que mais pode se adaptar ao Brasil e à cultura da nossa sociedade.
QUANDO
Data: 12.08.2026
Horário: 18h às 22h
ONDE
Online, em link a ser enviado mais perto da data do evento.
Inscreva-se clicando aqui - as vagas são limitadas!
IMPRENSA
Se você é da imprensa e quer participar, ou quer recomendar para algum profissional da mídia, veja as instruções de credenciamento abaixo:
Eu Decido no Insta:
Por aqui, a gente volta daqui a 15 dias. Nossa conversa continua pelo Instagram @eudecido.org, combinado? Até lá!
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