“Quero ir em paz.” Assim falou Noelia Castillo, cidadã espanhola de 25 anos, antes de conseguir acesso à própria eutanásia.
Um desejo dela, da vida dela, por razões dela, mas que foi questionado e julgado por um sem-número de pessoas e instituições, incluindo pelas religiosas e mesmo pelo governo Donald Trump, que agora cobra explicações da Espanha sobre o procedimento, chegando a alegar a possibilidade de “falhas nos direitos humanos”. No país europeu, o procedimento é realizado de maneira legal, mediante processos e burocracias determinados internamente.
Na newsletter desta quinzena, o artigo da professora Maria de Fátima Freire de Sá, uma análise do caso feita em vídeo pela presidente da Eu Decido, Luciana Dadalto, e muito mais conteúdo importante pra você! Boa leitura!
“Não quero ser um exemplo para ninguém. É simplesmente a minha vida, só isso.”, disse Noelia Castillo
por Maria de Fátima Freire de Sá
Uma vez lhe tendo sido garantido o direito de morrer, Noelia tinha claro como seriam seus últimos momentos: com a mãe, no hospital, em sua última noite; com seu vestido preferido e uma maquiagem simples, feita por ela mesma; com fotos escolhidas de dias felizes na infância; sozinha, apenas na companhia do médico que administraria a dose letal. Sem medo e com o desejo de deixar de sofrer.
Enquanto isso, do lado de fora das janelas e portas da “vida” de Noelia, as disputas públicas sobre o seu eu: batalhas cheias de carga moral e de verdades inalcançáveis - afinal, palavras são lançadas ao sabor de intenções furtivas, sem, verdadeiramente, conhecer o que se passa no interior de uma jovem de 25 anos que vivenciou tantos episódios de violência em sua curta existência.
São fatos: histórico de abandono parental, destituição de guarda, transferência para abrigos, violência sexual, estupro coletivo, tentativas de autoextermínio (e a consequente paraplegia); dores físicas e psicológicas.
Uma vida exposta ao conhecimento de todos: era preciso explicar à mesma sociedade que a violentou, e aos juízes que julgariam o pedido de seu pai de mantê-la viva, as razões pelas quais queria partir. Nada mais triste e desumano do que ver o sofrimento de alguém se transformar em guerra ideológica.
O Estado, a sociedade e a família falharam em protegê-la.
Mas o reconhecimento de todo o mal causado a Noelia seria justificativa suficiente para negar-lhe um direito garantido por lei? Impedi-la de morrer não seria o mesmo que obrigá-la a continuar no sofrimento que ela não deu causa? Seria possível reparar esse mal impingindo-lhe tratamentos não mais desejados?
“No quiero ser ejemplo de nadie. Simplemente es mi vida y ya está”.
Outra questão importante: a manifestação pelo desejo de por fim à vida, necessariamente, significaria falta de discernimento ou competência para a tomada de decisão? Há muito que essa questão foi enfrentada por Ramon Sampedro, também na Espanha, em um tempo em que não havia legislação sobre o tema.
Em um de seus textos em Cartas do Inferno, Ramón escreveu: “Parece que todos podem dispor de minha consciência, menos eu!” A história deste marinheiro que ficou paraplégico aos 25 anos foi retratada no filme Mar Adentro, em que é interpretado por Javier Bardem.
Enquanto os embates seguiam, às 18 horas de uma quinta-feira, no momento em que se desligava daqui, quem sabe Noelia pudesse estar pensando nos instantes vividos quando criança, congelados nas quatro fotografias escolhidas para acompanhá-la em sua travessia, no pouco tempo em que se sentiu feliz.
*Maria de Fátima Freire de Sá é mestre e doutora em Direito.
Mais sobre o caso Noelia Castillo
A presidente da Eu Decido, Luciana Dadalto, troca o caso Noelia Castillo em miúdos pra você. Clique na imagem para assistir:
Outro país, outra mulher, e a mesma luta
Na Colômbia, a cerca de 8 mil quilômetros da Espanha, outra mulher trava a mesma luta por autonomia que Noelia Castillo travou.
Catalina Giraldo tem 30 anos, psicóloga, que há anos vive um sofrimento psíquico profundo, persistente e resistente a todas as formas de tratamento que lhe foram oferecidas.
Foram muitas tentativas de viver, de melhorar, de suportar a condição.
Também foram muitas tentativas de morrer — nove, ao todo.
Em 2025, Catalina tomou uma decisão e pediu, na Colômbia, onde vive, acesso ao suicídio medicamente assistido. Hoje, seu caso está nas mãos da Justiça. Veja detalhes:
A Eu Decido acompanha esse caso de perto.
“Quem deve decidir sobre o fim da própria vida?”
Em 2018, a história de David Goodall percorreu o mundo e levantou esse questionamento.
Cientista respeitado, botânico e ecologista, ele tinha 104 anos quando decidiu viajar da Austrália para a Suíça para realizar um procedimento de morte assistida.
David não tinha uma doença terminal. O que o angustiava era ver sua autonomia desaparecer aos poucos — a perda da visão, a dificuldade de locomoção, a possibilidade de depender permanentemente de outras pessoas.
“Desejo morrer. Não estou triste”, disse ele pouco antes de morrer. “Estaria triste se quisesse encerrar minha existência e não pudesse fazê-lo.”
Seu caso reacendeu um debate importante: até que ponto a autonomia de uma pessoa deve ser considerada nas decisões sobre o fim da vida?
Para assistir
Algumas histórias nos fazem parar e refletir. Do Outro Lado do Jardim é um desses filmes.
Uma narrativa que atravessa o amor, o cuidado e o limite entre o que é decisão íntima e o que passa a ser julgamento público.
O que acontece quando alguém que amamos pede para morrer?
Sem romantizar a eutanásia, o filme nos coloca diante de perguntas que não cabem em certezas rápidas.
Falar sobre morte digna é falar sobre autonomia, sobre sofrimento e sobre o direito de ser ouvido até o último momento.
🎬 Disponível na HBO Max
Por aqui, a gente volta em 15 dias! Até lá, seguimos a nossa conversa pelo Instagram, combinado?
Bom fim de semana!
Equipe Eu Decido
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