RSS Amplifier

Urdume · Apr 6, 2026

#09 Por que o artesanato brasileiro não é valorizado?

0
Sign in to vote or save

Estefânia Torres · Urdume

Por que o artesanato brasileiro não é valorizado? Simples: porque queremos avaliá-lo, e muitas vezes ainda produzi-lo, a partir de uma lógica que não é a dele. Ponto. Se isto fosse um vídeo de Instagram, agora subiriam os créditos ao som de Diff'rent Strokes.

Trago essa referência porque sou fã de memes (rs), mas também porque o que me motivou a escrever a News Urdume de hoje foram vídeos postados no Instagram que giram em torno de questões que volta e meia também aparecem nos cursos ou palestras que eu dou: por que o trabalho artesanal não é valorizado no Brasil? No caso desses vídeos: por que não podemos, mas ainda assim sentimos a necessidade de rotular a artesania brasileira como Alta-Costura?

Em especial, o que me deu vontade de escrever este texto foi uma fala específica do estilista Antonio Castro (@castronio) em um vídeo postado no último dia 02 de abril: “dizer que não existe Alta-Costura no Brasil [que é uma denominação de origem protegida por lei na França] não quer dizer que não exista excelência técnica no Brasil”

Quem me acompanha sabe que sou adepta do conceito de tecnodiversidade do filósofo chinês Yuk Hui. Portanto, para mim é quase impossível não questionar: qual excelência técnica seria esta? Porque se pensarmos na excelência técnica francesa, de Alta-Costura, estaremos falando de técnica como um tipo preciso de engenharia têxtil. Falaríamos aqui de soluções complexas e minuciosas para a produção de vestuário, nas quais importam a habilidade manual, mas cujas raízes e aplicação advêm de um pensamento racional, matemático e lógico sobre a matéria.

Agora, se eu for pensar em excelência técnica levando em conta as características do território brasileiro, aí eu precisaria adotar outros padrões de avaliação, que considerassem uma relação produtiva nascida do encontro entre artesãos e matéria. Porque se na França a excelência está na precisão matemática, aqui no Brasil essa sofisticação vem justamente daquilo que seria malvisto lá fora: a improvisação e o “erro” que se estrutura a partir da repetição. Diferente da Europa, o encontro com a matéria no nosso território não acontece de cima para baixo, da razão para a matéria, mas da "conversa" que se estabelece entre mão e material para a criação de um terceiro elemento.

No entanto, é claro que somos capazes de repetir o padrão lógico europeu, e nos esforçamos muito para isso, diga-se de passagem. Nossos olhos foram treinados para ver beleza na “perfeição geométrica”. O problema é que é justamente isso que nos faz correr atrás de aproximações com o que é produzido fora, ou tentar submeter as nossas produções locais aos “padrões internacionais” de exportação.

A questão é que, se quisermos mesmo a valorização do artesanato brasileiro, precisamos não apenas adotar materiais locais e técnicas que remetam a raízes bucólicas, reproduzindo uma estética oca e saudosista, mas nos disponibilizarmos a aprender com a lógica vigente nos territórios que ainda conservam essa diversidade técnica. E, a partir daí, avaliá-las e, se preciso, classificá-las. Afinal, como afirma Yuk Hui, recuperar a diversidade técnica do mundo é a nossa chance de não seguirmos um futuro tecnológico único.

Para quem quiser saber mais, na segunda parte do meu livro, Quem Tece o Mundo?, no capítulo “Lina Bo Bardi e o pré-artesanato”, eu mostro como o olhar da arquiteta sobre o nosso artesanato revela que, mesmo quando tentamos valorizá-lo, ainda o submetemos ao olhar do colonizador, aprovando-o a partir de sua lógica. Só que, se pensarmos bem, (com o perdão da honestidade) esta é uma lógica burra. Porque em um mundo saturado de dados e métricas, com o "fim do mundo" apontado para nossas cabeças, viver em um país onde ainda sobram brechas para o incalculável é viver sobre uma mina de ouro, que teimamos em ignorar. Passar a pensar a técnica como lógica e não como instrumento e execução é a nossa chance de não só ganhar mais dinheiro, mas mas principalmente de criar alternativas para existência das nossas próprias vidas.

  • Para saber mais sobre a minha pesquisa, meu livro “Quem Tece o Mundo?” está disponível para compra no site da Ophicina 202 e na Amazon.

Nenhuma publicação

Read the original on estefaniatorres.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.