Durante os sete anos da Escrevedeira, passaram por nossas oficinas e cursos inúmeros escritores e escritoras — alguns começando agora, outros já com livros publicados — em busca de um espaço dedicado à escrita ficcional.
Na edição de hoje de “Quem escreve na Escrevedeira”, trazemos o resultado de um exercício de escrita da escritora e dramaturga Bruna Pligher. A proposta da Oficina de Escrita com Noemi Jaffe era imitar/copiar o estilo de alguma autora. E a escolhida de Bruna foi a Gertrude Stein.
Hoje no grupo a Noemi disse que influência é a emissão de fluxos que os seres na Terra recebem dos astros e todo mundo gostou da palavra influência porque influência é uma palavra que já nasce extraordinária e ninguém se incomoda de ser dominado por uma coisa extraordinária e a Noemi disse que assim deve ser a influência que recebemos dos escritores, o que é uma ideia muito agradável, pensei qual a minha chance contra um astro, naturalmente nenhuma, então quando você diz que foi influenciado por um escritor você transforma o escritor num astro e a si mesmo numa pessoa submetida pela gravidade desse astro, a Gertrude Stein, por exemplo, a Gertrude Stein certamente se iguala a um astro, claro que se iguala, ela se comparava ao Einstein, então que chance tenho eu contra a Gertrude Stein, nenhuma naturalmente, eu só posso aceitar o fluxo que ela exerce sobre mim, mas quando a Noemi falou em roubo a conversa mudou porque roubo é uma palavra policial e influência não é policial, influência é astronômica, influência deixa as pessoas conectadas com a natureza enquanto roubo faz parecer uma outra coisa, uma coisa mais sorrateira e menos literária, porque escritores não pensam policialmente quando falam dessas coisas embora imediatamente comecem a pensar em todos os delitos que já cometeram, o que me fez pensar que o problema de alguém roubar um trecho seu depende muito menos do trecho do que da pessoa que roubou, porque se alguém admirável pega uma coisa boa que você escreveu e faz uma coisa melhor ainda você sente que participou daquele aumento de beleza embora involuntariamente, e isto pode até ser agradável se você gostar da pessoa, mas se uma pessoa desagradável ou medíocre pega uma frase sua a frase começa a ficar desagradável retrospectivamente porque agora aquela frase passa a sobreviver em ambientes insalubres, o que é particularmente ofensivo, embora às vezes um bom trecho sobreviva tão bem ao ladrão que a mediocridade dele fique ainda mais evidente, o que também é agradável, mas a coisa pode ficar pior, ah se pode, porque se alguém admirável pega uma coisa apenas mediana que você escreveu e transforma numa coisa realmente boa talvez a parte boa nunca estivesse exatamente na sua escrita mas estivesse circulando ao redor dela, como os gatos que resolvem mudar de casa sem avisar, e isso confunde bastante as coisas mesmo se você gostar do ladrão porque você fica contente de ter tido uma intuição mas humilhada porque outra pessoa soube cuidar dela melhor, então talvez influência seja o nome que usamos quando ficamos satisfeitos e roubo é o nome que usamos quando ficamos revoltados.
Bruna Pligher é escritora e dramaturga. Publicou Terra do Nunca e outros desencaixes (Urutau, 2023) e a peça Passageiros (SESI-SP Editora, 2023). Vive em São Paulo e trabalha com projetos digitais.
Em junho, a Escrevedeira reúne cursos, oficinas e encontros para quem quer mergulhar na literatura, pensar a escrita e atravessar grandes obras ao lado de escritores e pesquisadores.
Logo no começo do mês, temos um curso sobre a poesia de Orides Fontela com o professor Ivan Marques e uma leitura guiada de Grande Sertão: Veredas com o professor Italo Moriconi.
Também teremos uma oficina de escrita com a escritora Marcela Dantés sobre a loucura como potência estética, além de um panorama da literatura de horror e fantasia latino-americana com o escritor Bruno Ribeiro. A programação inclui ainda uma discussão sobre O Polonês, de J. M. Coetzee, com a professora Sandra Vasconcelos.
Não perca também o encontro gratuito — presencial e online — com o escritor João Anzanello Carrascoza sobre literatura e afeto, além da leitura guiada de O Morro dos Ventos Uivantes com o professor Fernando Brito. Fechamos o mês com um curso sobre o espaço na ficção, ministrado pela escritora Paulliny Tort.
E aproveite a pré-venda do curso sobre o ensaio literário com a escritora e editora Laura Erber, que acontece em julho.
Inscrições em: https://escrevedeira.com.br/
Se você tem um original de não ficção, este é um bom momento para tirá-lo da gaveta!
São os últimas semanas para se inscrever no Prêmio Latinoamérica Independiente de Não Ficção 2026, uma iniciativa de editoras de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Porto Rico, Uruguai e Venezuela.
A cada dois anos, o prêmio seleciona uma obra inédita para publicação simultânea nesses países, ampliando a circulação do livro na região. Aqui no Brasil, a obra vencedora é publicada pela editora Fósforo, que faz parte da organização do prêmio desde a sua criação.
Podem ser inscritos textos em português ou espanhol, tendo entre 28.000 e 75.000 palavras, em diferentes formatos, como ensaio, reportagem, biografia, diário ou propostas híbridas.
As inscrições vão até 31 de maio de 2026 pelo site premiodenoficcion.com.
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