RSS Amplifier

ERVAS DE ESTIO · May 4, 2026

Comunismo Ácido: introdução inacabada*

0
Sign in to vote or save

Manuel A. Domingos · ERVAS DE ESTIO

© Georg Gatsas

Quanto mais próxima se torna a possibilidade real de libertar o indivíduo das limitações outrora justificadas pela escassez e pela imaturidade, maior é a necessidade de manter e aperfeiçoar essas limitações, para que a ordem estabelecida de dominação não se dissolva. A civilização tem de se proteger do espectro de um mundo que poderia ser livre. […] Em troca das mercadorias que enriquecem as suas vidas […], os indivíduos vendem, não só, o seu trabalho, mas também o seu tempo livre. […] As pessoas vivem em blocos de apartamentos — e têm automóveis com os quais já não conseguem escapar para um mundo diferente. Têm enormes frigoríficos cheios de alimentos congelados. Têm dezenas de jornais e revistas que defendem os mesmos ideais. Têm inúmeras escolhas, inúmeros aparelhos que são todos do mesmo tipo e que os mantêm ocupados e desviam a sua atenção da verdadeira questão — que é a consciência de que tanto poderiam trabalhar menos como determinar as suas próprias necessidades e satisfações.

Herbert Marcuse, Eros e Civilização


A tese do livro é que os últimos quarenta anos têm sido dedicados ao exorcismo do “espectro de um mundo que poderia ser livre”. Adoptar a perspectiva de um tal mundo, permite-nos inverter a abordagem de grande parte da recente luta da esquerda. Em vez de procurarmos superar o capital, deveríamos estar concentrados naquilo que o capital é obrigado a bloquear: a nossa capacidade colectiva de produzir, cuidar e fruir. Nós, a esquerda, andámos enganados durante algum tempo: não por sermos anticapitalistas; mas porque o capitalismo, com toda as suas polícias-de-choque, todo o seu gás lacrimogéneo e todas as subtilezas teológicas da sua economia, está construído para impedir o surgimento desta Abundância Vermelha. A superação do capital, fundamentalmente, tem de ser baseada na simples constatação de que, longe de se tratar apenas de “criação de riqueza”, o capital bloqueia sempre, e necessariamente, a produção de riqueza comum.

O principal agente envolvido, mas não o único, no exorcismo do espectro de um mundo que poderia ser livre, é o projecto a que se deu o nome de neoliberalismo. Mas os verdadeiros alvos do neoliberalismo não eram os seus inimigos oficiais — o monólito decadente do bloco soviético e os pactos em desagregação da social-democracia e do New Deal, que colapsavam sob o peso das suas próprias contradições. Pelo contrário, o neoliberalismo poderá ser melhor entendido como um projecto destinado a destruir — ao ponto de as tornar impensáveis — as experiências de socialismo democrático e de comunismo libertário que floresciam no final dos anos sessenta e no início dos anos setenta.

A principal e última consequência da eliminação dessas possibilidades, foi a condição a que chamei realismo capitalista — a aceitação fatalista da ideia de que não há alternativa ao capitalismo. Se houve um acontecimento fundador do realismo capitalista, esse terá sido a destruição violenta do governo de Allende no Chile pelo golpe de estado de Pinochet, apoiado pelos Estados Unidos da América. Allende estava a experimentar uma forma de socialismo democrático que oferecia uma alternativa real, tanto ao capitalismo como ao estalinismo. A destruição militar do regime de Allende, e as subsequentes prisões em massa e torturas, são apenas o exemplo mais violento, e dramático, de até onde o capital teve de ir para fazer crer que é o único modo “realista” de organizar a sociedade. Não foi apenas uma nova forma de socialismo que foi eliminada no Chile; o país tornou-se um laboratório onde foram testadas medidas que mais tarde seriam implementadas noutros centros do neoliberalismo (desregulação financeira, abertura da economia ao capital estrangeiro, privatização). Em países como os EUA e o Reino Unido, a implementação do realismo capitalista foi um processo muito mais gradual, envolvendo tanto incentivos, e seduções, como repressão. O efeito final foi o mesmo — a erradicação da própria ideia de socialismo democrático ou de comunismo libertário.

O exorcismo do “espectro de um mundo que poderia ser livre” foi uma questão cultural e, ligeiramente, uma questão política. Pois este espectro, e a possibilidade de um mundo para além do trabalho, foi levantado com maior força na cultura — até, ou talvez especialmente, na cultura que não se considerava necessariamente orientada do ponto de vista político.

Marcuse explica por que razão isto acontece, e o declínio da influência da sua obra nos últimos anos conta a sua própria história. O Homem Unidimensional, livro que enfatiza o lado mais sombrio do seu pensamento, manteve-se como referência, mas Eros e Civilização, tal como muitas das suas outras obras, está há muito esgotado. A sua crítica à total gestão da vida e da subjetividade por parte do capitalismo, continuou a ter eco; ao passo que a sua convicção de que a arte constituía uma «Grande Recusa, o protesto contra aquilo que é», passou a ser vista como uma espécie de romantismo ultrapassado, ingenuamente irrelevante na era do realismo capitalista. No entanto, Marcuse já tinha antecipado tais críticas, e a análise presente em O Homem Unidimensional ganha força, porque parte de um segundo espaço, de uma “dimensão estética” radicalmente incompatível com a vida quotidiana sob o capitalismo. Marcuse defendia que, na verdade, as «imagens tradicionais de alienação artística», associadas ao romantismo, não pertencem ao passado. Pelo contrário, afirmava que, numa formulação, elas «recordam e preservam na memória aquilo que pertence ao futuro: imagens de uma gratificação que destruiria a sociedade que a reprime.».

em k-punk - The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher (2004-2016), Repeater Books, 2018, pp. 673-675.

* Traduzem-se aqui os cinco primeiros parágrafos da introdução incompleta de Acid Communism. Apesar de incompleto, o texto desta introdução deixa antever as bases do projecto que o autor procurava desenvolver mais amplamente.

Nenhuma publicação

Read the original on ervasdeestio.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.