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Énois Laboratório de Comunicação · Jun 8, 2026

Escuta local como infraestrutura do território

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Énois · Énois Laboratório de Comunicação

Quando a gente fala em escuta, existem muitas metodologias já conhecidas: escuta comunitária, escuta ativa, escuta transformadora. O jornalismo e a comunicação feita nos territórios precisam disso. Mas talvez o desafio esteja justamente em entender que escutar, sozinho, não basta. A escuta territorial talvez seja menos um objetivo em si e mais uma condição para que organizações de comunicação consigam construir presença contínua, vínculo comunitário e participação local. Porque, em muitos casos, a comunicação local não atua apenas na circulação de informação. Ela passa a funcionar como infraestrutura cotidiana de articulação social, mobilização comunitária e sustentação da vida coletiva nos territórios.

A experiência da Agência Mural, em São Paulo, por exemplo, além de realizar encontros presenciais para criar vínculos, também ocupa espaços digitais de convivência cotidiana, como grupos de WhatsApp organizados em bairros para mobilizar moradores, compartilhar informações e acompanhar o que acontece nas periferias através dos muralistas espalhados pela cidade.

Existe também uma outra camada importante nesse processo: quando a escuta deixa de funcionar apenas como ferramenta de elaboração de pauta e passa a estruturar a própria forma como o jornalismo é produzido. É o caso do Fala Roça, no Rio de Janeiro, na produção dos seus jornais físicos feitos pelos próprios moradores da Rocinha. Ali, a comunicação não aparece apenas como mecanismo de cobertura do território, mas como parte da organização coletiva construída naquele espaço.

Historicamente, o campo da comunicação para o desenvolvimento já reúne experiências importantes que ajudam a compreender a comunicação como parte estrutural da vida dos territórios. Um dos exemplos mais conhecidos na América Latina são as Rádios Mineiras de Oruro e Potosí, na Bolívia, organizadas por sindicatos de trabalhadores da mineração desde a década de 1940. Financiadas e operadas pelas próprias comunidades mineradoras, as rádios ajudavam a organizar circulação de informação, alfabetização, mobilização trabalhista e redes de abastecimento em regiões historicamente abandonadas pelo poder público.

Existe também uma experiência contemporânea muito potente no Brasil: a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, criada em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, reunindo comunicadores de mais de vinte etnias diferentes. A rede articula carros de som, podcasts em línguas indígenas, rádios comunitárias, boletins e grupos de mensagens para descentralizar a circulação da informação na região mais indígena do país. Durante a pandemia, a Rede Wayuri teve um papel fundamental no combate à desinformação em saúde em regiões isoladas da Amazônia e também na circulação de denúncias sobre garimpo ilegal e invasões territoriais.

Embora surjam em contextos muito diferentes, essas experiências compartilham um elemento comum: a comunicação deixa de operar apenas como mediação simbólica e passa a integrar as próprias formas de organização da vida coletiva. O que a gente vem tentando elaborar é que a capacidade de escutar os territórios, construir presença contínua e estabelecer vínculos locais são elementos centrais da atuação das organizações de comunicação territorial. Não apenas como metodologia de trabalho, mas como prática cotidiana de permanência, circulação de informação e participação comunitária.

Muitas dessas organizações existem e se sustentam justamente porque as comunidades também reconhecem sua importância social, política e cultural dentro da vida local. Porque, em muitos casos, esses veículos ajudam a organizar redes, mobilizar moradores, fortalecer iniciativas comunitárias e ampliar acesso a direitos e serviços. Talvez por isso a comunicação local passe a ocupar um lugar tão estratégico dentro das dinâmicas de desenvolvimento territorial.

Durante muito tempo, o jornalismo foi entendido como um lugar de interpretação e mediação da realidade, quase como um reflexo do território. Mas, quando a comunicação constrói vínculos profundos com a comunidade, o papel de quem comunica também se transforma. A comunicação deixa de atuar apenas como mediadora e passa a compartilhar uma co-responsabilidade pelo desenvolvimento daquele território. Porque, em algum momento, passa a se revelar que não existe possibilidade de desenvolver organizações de comunicação local sem que o próprio território ao redor também se desenvolva.

Isso muda completamente a lógica da atuação. Porque a sustentabilidade da comunicação local não depende apenas da capacidade de manter veículos ativos, mas também das condições de circulação, participação e fortalecimento das redes comunitárias nos territórios onde esses veículos existem. Quanto mais fortalecido está o território, maior a possibilidade de circulação de informação, pertencimento e sustentabilidade para quem faz comunicação nele. E o contrário também acontece. Quando a comunicação local fortalece vínculos, mobiliza redes e amplia espaços de participação, ela também contribui para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político daquele território.

O que a gente tem feito dentro da Énois nos últimos programas é justamente tentar elaborar essas questões em uma escala menor, construindo com grupos de organizações mecanismos de escuta, participação, articulação e presença nos territórios.

A Énois trabalaha para promover encontros. TechCamp Belém 2023

Projetos como Arte é Informação e, mais recentemente, o Laboratório de Comunicação para o Desenvolvimento Local, que estamos começando a desenvolver, surgem também desse desejo de acompanhar essas experiências de forma mais profunda, identificar seus impactos e construir aprendizados coletivos a partir delas.

Mas talvez o principal desafio agora seja outro. Ainda produzimos pouco conhecimento compartilhado sobre o impacto da comunicação local no desenvolvimento dos territórios, na circulação de informação e no fortalecimento das redes comunitárias.

Existe um movimento que ainda precisa ser feito: conectar organizações, construir pesquisas coletivas, sistematizar metodologias e produzir análises mais profundas sobre o papel da comunicação local no desenvolvimento territorial. Porque, sem essa elaboração conjunta, também fica mais difícil reivindicar o lugar da comunicação comunitária e do jornalismo local dentro das políticas públicas, dos investimentos sociais e das estratégias de desenvolvimento local.

E, no fim, reconhecer a comunicação local como agente de desenvolvimento também significa reconhecer que muitos territórios já constroem, há décadas, suas próprias infraestruturas de circulação de informação, vínculo, mobilização e participação coletiva.

Uma conquista importante para a comunicação periférica e territorial aconteceu nas últimas semanas: o Reocupa, parceiro de longa data da Énois, foi contemplado como Pontão de Cultura. Ao longo dos últimos anos, o coletivo, do estado do Maranhão, participou de projetos da Énois, como Jornalismo e Território e Prato Firmeza, construindo caminhos que conectam comunicação, cultura, memória e articulação comunitária nos territórios. O reconhecimento também ajuda a reforçar uma discussão cada vez mais presente dentro da comunicação independente: a de que jornalismo, arte, território e produção cultural não são campos separados. Em muitos contextos periféricos, essas dimensões já aparecem profundamente conectadas no cotidiano das organizações.

Nos dias 23 e 24 de maio, a Énois realizou as exposições do circuito Arte é Informação, conectando os territórios de Paraisópolis, Brasilândia, São Mateus e Grajaú em uma programação integrada à Virada Cultural de São Paulo. As exposições fizeram parte do cronograma oficial da Virada, aproximando o projeto de uma das principais atividades culturais da cidade e ampliando a circulação das produções construídas pelos artistas periféricos participantes da iniciativa. As mostras seguem abertas em alguns dos espaços parceiros do circuito: no São Mateus em Movimento, no Travas da Sul, no Grajaú, e no Favela Art Ateliê de Arte, em Paraisópolis, para quem quiser visitar. A Énois também acaba de lançar um vídeo contando mais sobre a experiência do projeto e os encontros realizados nos territórios. Para acompanhar, siga a gente no Instagram.

Saiba mais sobre a Énois, um laboratório de comunicação que apoia iniciativas nascentes das periferias com soluções em comunicação, gestão e cultura.

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