Quantas vezes a arte já te passou uma mensagem de um jeito que nenhuma notícia conseguiu? De um jeito que toca e faz você entender temas complexos?
Pra quem vive em São Paulo, e não só, mas especialmente nas periferias, um exemplo clássico é a música “Capítulo 4, Versículo 3”, dos Racionais MC’s, lançada em 1997 no álbum Sobrevivendo no Inferno. A música narra a violência e a desigualdade nas periferias da cidade, abordando racismo, drogas, a vida no crime e o cotidiano de jovens negros, inclusive a distância entre essa realidade e o acesso à universidade. É um retrato cru da realidade. Arrepia. E, principalmente, comunica. Você entende o que a música quis dizer. Você sente o que ela denuncia.
A verdade é que a arte é uma ferramenta potente de comunicação. E mais do que isso, a comunicação precisa da arte. Elas são grandes aliadas.
Esse entendimento também é defendido por Fabiana Moraes, jornalista, professora e pesquisadora, que aponta a importância de aproximar o jornalismo de outras linguagens, como a arte, para ampliar formas de narrar e de compreender a realidade. Como conselheira da Énois, essa visão também atravessa os caminhos que a organização vem construindo.
Quem acompanha a Énois sabe que um dos projetos que desenvolvemos desde o ano passado é o Arte é Informação. Na primeira fase, ainda em 2025, estivemos em quatro periferias de São Paulo (SP), realizando formações com jovens, comunicadores, artistas e lideranças, com foco na arte como ferramenta de comunicação e distribuição de narrativas e também da profissionalização desse público, afinal, arte é trabalho, e precisa gerar renda.
Agora, na segunda fase, dez jovens residentes estão passando por novas formações e desenvolvendo criações artísticas que abordam temas como alimentação e clima nas periferias. A arte, por aqui, se tornou um registro na Énois, mas ela já vem de uma história antiga na nossa caminhada.
Ainda quando a Énois era uma escola de jornalismo, entre 2016 e 2019, nossos alunos e alunas — muitos já comunicadores e artistas — traziam consigo a música, as batalhas de rima, a poesia, o grafite e a dança. Eram essas mesmas pessoas que também construíam textos jornalísticos e ajudaram a dar forma ao Prato Firmeza, com escolhas que também são narrativas, como a capa artística e o texto sensível.
Em 2024, com o programa Diversidade nas Redações 3, realizado pela Énois em parceria com dez organizações de comunicação do país, essa relação se fortalece ainda mais. Em um contexto de eleições, as iniciativas não só atuaram na checagem da desinformação, como também promoveram encontros culturais em seus territórios, conectando arte e informação como estratégia de mobilização.
O Nonada Jornalismo, do Rio Grande do Sul, por exemplo, mobilizou artistas de slam para uma batalha intitulada Slam Soltando o Verbo, voltada ao combate à desinformação dentro da maior feira do livro de Porto Alegre. A ação evidenciou como a linguagem artística pode ser uma aliada potente na tradução e no enfrentamento de temas complexos.
Crédito: Slam Soltando o Verbo / Foto: Eduardo Fernandes/CRL
Já a Teatrine TV, de Campo Grande (MS), desenvolveu uma atividade que uniu stand-up e música com um grupo de mulheres da região, também com foco no combate à desinformação, reforçando o uso da arte como ferramenta de engajamento e construção de pensamento crítico.
Formação para idosas na ACIESP conduzida por Tero Queiroz. Foto: Holofote Estúdio
Esses exemplos deixam claro que a relação com a arte vai além de uma escolha estratégica, sendo também parte do próprio modo de fazer. A arte alcança uma dimensão essencial: o campo do sensível, ligado às formas como sentimos, percebemos e vivenciamos o mundo. Embora essa perspectiva ainda esteja sendo incorporada ao que tradicionalmente se entende como jornalismo, ela já vem sendo trabalhada de maneira consistente por diferentes organizações de comunicação.
Já em 2025 na Énois, durante o lançamento do Prato Firmeza Amazônia em Belém (PA) e Manaus (AM), a arte foi utilizada como uma ferramenta direta de diálogo com o público. A partir de rodas de conversa e da apresentação do guia, que mapeia e defende os saberes de mestres e mestras e sistemas alimentares que não agridem o solo e ajudam a adiar o fim do mundo por meio da alimentação, os participantes criaram cartazes, frases e intervenções visuais. Essas mensagens ganharam as ruas em forma de lambes, espalhando informação por meio da arte e transformando reflexão coletiva em comunicação viva no território.
Essa prática dialoga com iniciativas como a do coletivo Reocupa do Maranhão (MA), que há mais de uma década articula cultura, arte e território como formas de mobilização. Em ações ligadas à COP 30, foi realizado o mural “Nossa cultura vem da mata”, dos artistas Leandro Bender e Dannoelly Cardoso — uma obra que traduz, em cor e textura, a força da Amazônia e das mulheres que a sustentam. Já no Maranhão, onde o coletivo atua, iniciativas como o Cine Resista mostram como o audiovisual também pode ocupar o espaço público, reunindo pessoas em torno do cinema e fortalecendo o encontro entre arte, cultura, comunicação e artivismo.
No fim das contas, a arte não é só um complemento da comunicação. Ela é linguagem, é estratégia e é ponte. Ponte entre o que se vive e o que precisa ser dito. Ponte entre território e narrativa. Ponte entre experiência e entendimento.
E talvez seja por isso que, quando a arte fala, a gente não só entende. A gente se reconhece, se conecta e, muitas vezes, se move. Arte é Informação.
Rede Énois é destaque no Prêmio Mol de Jornalismo
Nonada Jornalismo e Agência Lume vencem em diferentes categorias e reforçam a presença da rede na premiação.
A Rede Énois esteve presente no Prêmio Mol de Jornalismo para a Sociedade com três veículos: Nonada Jornalismo, Agência Lume e Carta Amazônia. A iniciativa reconhece profissionais, estudantes e comunicadores populares que contribuem para fortalecer a cultura de doação, a solidariedade e a atuação das organizações da sociedade civil.
Entre os destaques, o Nonada venceu na categoria texto, enquanto a Agência Lume foi premiada em jornalismo comunitário. Os resultados evidenciam a relevância das produções desenvolvidas a partir dos territórios.
Parabenizamos o Nonada Jornalismo, a Agência Lume e a Carta Amazônia pela participação e pelo reconhecimento no prêmio.
Énois marca presença no FIFE 2026, em Recife
Evento reúne organizações de todo o país para debater gestão, impacto e sustentabilidade no terceiro setor.
A Énois estará no Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE) 2026, que acontece em Recife (PE), com a participação do nosso analista de comunicação e parcerias, César Freitas. O encontro é hoje um dos principais espaços de formação, articulação e troca entre organizações da sociedade civil no Brasil.
Realizado pela Rede Filantropia, o FIFE reúne mais de 2 mil profissionais e mais de 100 palestrantes ao longo de quatro dias, com debates sobre gestão, captação de recursos e fortalecimento institucional.
Para a Énois, estar nesses espaços é parte do compromisso com a sustentabilidade do campo e com a construção de estratégias coletivas para o jornalismo e a comunicação popular.
Vai estar por lá? Chama a gente e vamos nos encontrar.
Saiba mais sobre a Énois, um laboratório de comunicação que apoia iniciativas nascentes das periferias com soluções em comunicação, gestão e cultura.
Envie a Énews para alguém que pode se interessar. E fale com a gente no contato@enois.org
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.