Há uma forma antiga para contar o que aconteceu a Jason Arday, anterior à reportagem e talvez anterior à nossa confiança bastante moderna de que os fatos, quando cuidadosamente postos em fila, acabam por explicar alguma coisa. Chamava-se de casibus virorum illustrium, sobre a queda dos homens ilustres. Boccaccio lhe deu forma, Lydgate a levou para o inglês e a Inglaterra dos Tudor a transformou em A Mirror for Magistrates, O Espelho dos Magistrados, livro cuja sombra atravessa as peças históricas de Shakespeare. Reis, príncipes e favoritos retornavam do túmulo para contar como a Fortuna os erguera e depois, repentinamente, fizera girar a roda. Mas a crueldade maior do gênero estava talvez no título: o espelho não era oferecido ao morto, que já nada poderia aprender sobre sua vaidade, seus erros ou sua ambição. Era erguido diante daqueles que ainda governavam, julgavam, nomeavam, promoviam e condenavam. O cadáver contava sua história para que os vivos, inclinando-se sobre ela, reconhecessem desagradavelmente o próprio rosto.
É desse espelho que precisamos para falar de Jason Arday. O New York Times contou sua morte com a sobriedade habitual dos grandes jornais: havia um professor cuja qualificação fora questionada, acusações de plágio, uma biografia extraordinária demais para ser inteiramente verdadeira, Cambridge, raça, políticas de diversidade, uma imprensa que durante semanas examinara minuciosamente sua vida e, ao final, um homem morto. Tudo estava aparentemente ali, mas os acontecimentos podem ser verdadeiros e ainda assim estar dispostos de maneira a esconder aquilo que os liga. Durante semanas, o espelho foi mantido diante de Arday para que todos perguntassem quem ele realmente era. Talvez seja hora de perguntar quem o segurava.
Jason Arday era filho de imigrantes ganenses e crescera num conjunto habitacional do sul de Londres. Quando Cambridge o nomeou professor catedrático aos 37 anos, havia pouquíssimos professores negros naquele nível na universidade e cerca de 270 em todo o Reino Unido, algo próximo de um por cento do total. Os próprios números de Cambridge mostravam candidatos brancos transformando suas inscrições em contratações numa proporção quase três vezes superior à dos negros. Era quase impossível, nesse cenário, que sua chegada permanecesse apenas uma contratação acadêmica. Cambridge precisava que aquele homem significasse alguma coisa, talvez sinceramente, talvez ingenuamente, talvez porque as grandes instituições tenham aprendido a converter algumas vidas em demonstrações públicas de sua própria virtude. Sua chefe de departamento chegou a chamá-lo de “o melhor do mundo” no que fazia, elogio tão extraordinário que deveria ter assustado tanto quem o pronunciou quanto quem o recebeu.
Havia, porém, outra parte da história e seria desonesto suprimi-la. Os indícios de plágio em sua tese são consistentes: revisores externos encontraram sobreposições significativas, periódicos publicaram correções e alguns episódios da biografia que ele contou sobre si mesmo parecem desafiar seriamente a plausibilidade. Arday aumentou a própria vida e, em alguns momentos, mentiu. Não há razão para protegê-lo disso. As tragédias de Shakespeare pouco precisam de inocentes. Ricardo é vaidoso e imprudente, Lear exige amor como espetáculo, Otelo acredita justamente naquilo que mais teme, Macbeth sabe o que faz e continua fazendo. A culpa não desfaz a tragédia, às vezes é aquilo que a torna possível. O problema começa quando a punição se torna monstruosamente maior do que a falta.
Talvez Fanon ajude a compreender uma parte disso. A máscara branca não é apenas aquilo que o sujeito negro veste para esconder o rosto, pode ser também aquilo que uma instituição lhe oferece como condição para reconhecê-lo. O negro excepcional é perfeitamente legível: venceu a pobreza, venceu o preconceito, venceu as estatísticas e chega finalmente ao alto como prova viva de que o mundo funciona. Cambridge tinha diante de si um professor negro num ambiente em que professores negros permaneciam raríssimos e preferiu contemplar o prodígio. O menino que supostamente demorara a falar tornou-se catedrático, o filho de imigrantes que atravessou sozinho todos os obstáculos. Era uma história maravilhosa porque permitia celebrar a superação sem olhar demoradamente para aquilo que precisara ser superado. A mediocridade, essa liberdade silenciosamente concedida a tantos homens que nunca precisam representar nada além de si mesmos, não estava disponível para Jason Arday.
Otelo conhecia esse contrato. Veneza aceita o mouro enquanto necessita do grande general, mas desde o início há homens tentando explicar como ele pôde alcançar aquilo que alcançou. Um negro com Desdêmona, um estrangeiro naquele lugar: alguma fraude deve existir, algum feitiço, alguma coisa escondida. Iago não inventa a suspeita, ele apenas descobre uma forma de utilizá-la. No caso de Arday, quem primeiro transformou o plágio em matéria política foi Nathan Cofnas, conhecido por defender posições de race realism e por sua guerra declarada contra o chamado wokismo. A direita britânica percebeu rapidamente a utilidade do caso e Arday deixou de ser apenas um professor acusado de plagiar para se tornar a prova de que diversidade e mérito seriam incompatíveis, de que Cambridge teria promovido um impostor porque desejava desesperadamente um professor negro. Seus erros já não pertenciam apenas a ele.
Então chegaram os jornais e durante semanas a infância, a família, as maratonas, as qualificações e cada linha de sua produção foram submetidas a uma espécie de autópsia enquanto o homem ainda estava vivo. Cada descoberta justificava a anterior e autorizava a seguinte. Um psiquiatra que falou com ele poucas horas antes de sua morte disse que Arday já não suportava o escárnio. Não é preciso estabelecer uma causalidade que os fatos não permitem para perceber a forma daquilo que aconteceu: muitos homens realizando, separadamente, ações que podiam justificar, até que o conjunto adquirisse uma violência que ninguém individualmente precisasse assumir. Enquanto isso, aqui em Pindorama, o debate a respeito do “cancelamento” promovido pelos identitários de esquerda ganha espaço e voz.
É aqui que o velho espelho dos magistrados se torna incômodo. Porque Cambridge já conhecera o plágio antes. William O’Reilly, professor branco de história moderna na mesma universidade, publicou em 2018 um artigo que reproduzia aproximadamente quatro mil palavras de ensaios escritos por um aluno de graduação, quase metade do texto. A própria política de Cambridge dizia que plágio normalmente merecia demissão. Depois de dois anos de investigação, concluiu-se que houvera negligência, não intenção e O’Reilly permaneceu no cargo. Posteriormente surgiram sobreposições em outros trabalhos, houve mais escândalos acadêmicos, investigações, constrangimento e depois aquele silêncio muito educado que algumas instituições sabem produzir quando desejam continuar funcionando.
Talvez seja essa a diferença mais importante de toda a história. O plágio de O’Reilly pôde continuar sendo o plágio de O’Reilly. Nenhuma raça inteira precisou responder por suas quatro mil palavras copiadas, nenhuma política de contratação foi colocada no banco dos réus, nenhum outro homem branco acordou no dia seguinte obrigado a provar que merecia seu emprego. Seu erro permaneceu aproximadamente do tamanho de um erro individual. Jason Arday jamais recebeu esse privilégio. Seu plágio precisava significar Cambridge, diversidade, mérito, contratação de negros, todos os que haviam chegado antes e todos os que chegariam depois.
Ricardo II morre numa prisão porque um homem ouve o novo rei desejar vagamente que alguém o livre daquele “medo vivo” e decide transformar desejo em ordem. Shakespeare conhecia profundamente essa espécie de crime em que a responsabilidade se reparte tão bem que, quando finalmente surge o cadáver, ninguém consegue encontrar o momento preciso em que decidiu produzi-lo. Depois Henrique, rei que assumirá o trono, olha o corpo de Ricardo, rejeita o assassino e lamenta a morte daquele cuja presença desejava eliminar: “odeio o assassino, amo o assassinado”. Há nessa frase algo de terrivelmente familiar. Cambridge declarou-se “desesperadamente entristecida” com a morte de Jason Arday e a imprensa, que durante semanas desmontara sua vida, encontrou imediatamente para o morto a solenidade que o vivo não pôde receber. Todos puderam lamentá-lo e todos puderam conservar as mãos limpas.
Não sabemos exatamente como Jason Arday morreu e qualquer tentativa de preencher esse silêncio seria outra violência. Também não é necessário fazê-lo. A tragédia já estava suficientemente formada: uma universidade transformara um homem em símbolo, o homem colaborara para engrandecer a própria lenda e cometera faltas reais, adversários políticos transformaram essas faltas em argumento contra uma política inteira, jornalistas descobriram uma história irresistível e leitores encontraram o prazer muito antigo de assistir à queda de alguém que subira depressa demais. Cada responsabilidade, considerada isoladamente, parecia pequena; reunidas, produziram alguma coisa bastante maior do que todas elas.
Voltemos então ao espelho. Durante semanas disseram: olhem para Jason Arday, olhem para o plagiário, o mentiroso, o beneficiário da diversidade, o homem que Cambridge elevou acima de seus méritos. Olhamos demoradamente. Agora talvez devamos girar o vidro e deixar que Cambridge contemple uma instituição que precisou de um prodígio negro para não perguntar por que negros continuavam sendo tão raros em seus corredores; que a imprensa examine a distância, por vezes desagradavelmente curta, entre investigação e espetáculo; que os adversários das políticas de diversidade reconheçam o entusiasmo com que transformaram o erro de um indivíduo em suspeita contra milhares de outros. E talvez nós também precisemos admitir quanto gostamos dessas histórias de superação, porque nos permitem aplaudir o homem excepcional sem modificar o mundo que tornou necessária sua excepcionalidade.
Jason Arday plagiou, mentiu sobre aspectos de sua vida e talvez tenha sido seduzido pela personagem extraordinária que ele e Cambridge construíram juntos. Nada disso deveria ser apagado porque ele morreu. Mas há algo perturbador numa sociedade em que determinados homens recebem o direito de errar individualmente enquanto outros, ao cair, precisam carregar consigo uma raça, uma política, uma época inteira. Otelo, antes de morrer, pede apenas que sua história seja contada sem diminuí-lo nem engrandecê-lo, com o crime e o homem ainda reconhecíveis um dentro do outro. Talvez seja essa a única forma minimamente decente de olhar agora para Jason Arday: sem canonizá-lo, sem absolver suas faltas e sem permitir que elas expliquem confortavelmente tudo o que veio depois. O morto não precisa mais do espelho. Os magistrados, infelizmente, ainda precisam.
Falai dele como ele foi.

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