Bom dia,
A cidade estava cheia, mas ainda não insuportável. Quem me ouvia dizer isso ameaçava: amanhã, amanhã… Sexta é sempre pior. Pois a aposta foi dobrada e um apagão elétrico brotou por volta de 20:30. A energia só foi restabelecida no meio da madrugada.
Duas mesas da programação oficial: a mesa das 10:00 com o José Tolentino Mendonça e o Edimilson de Almeida Pereira, mediada pela Sofia Mariutti e a mesa das 19:00 com a Djaimilia Pereira de Almeida e o Kamel Daoud, mediada pela Adriana Ferreira Silva.
Boa parte da mesa da manhã foram os dois poetas refletindo, entre outras coisas, sobre a questão da ferida, tanto na cultura tradicional quanto nas culturas e manifestações populares. O Tolentino entendendo que a tradição se faz por meio desse espanto diante do mundo, sobre a questão de não termos continuidade nem duração; já o Edmilson falou sobre a questão de que, nas culturas populares não existe um apego fundamental à questão da ferida, do sofrimento e da dor; ao contrário, há uma pulsão vital que estrutura os fazeres populares. Aliás, a fala do Tolentino sobre a ferida foi algo que ele já tinha mencionado durante a homilia da missa, que aconteceu na véspera.
Já a mesa da noite abordou um tema que é ao mesmo tempo velho conhecido dos debates e fundamental: as fronteiras borradas entre ficção e verdade e o caos subjetivo, social e político que se instaura quando esses átomos entram em colisão. Para Djaimilia, o exercício de escrever a memória paterna passa pela invenção de uma herança. Em seu livro até a epígrafe é criação, não citação. Para Kamel, os relatos jornalísticos objetivos de uma guerra nunca alcançam estatuto de verdade, enquanto o romance lhe vale uma condenação penal e cívica, mandados de prisao e ameaças de morte. A grande pergunta desse diálogo foi: a quem pertencem as histórias familiares e nacionais?
A Gaía @ Substack fez uma mediação excelente sobre Newsletter pela manhã, na casa Estante Virtual. Para além do óbvio interesse pessoal nesse assunto, quero destacar um ponto: a naturalidade com que a Gaía media uma mesa: a gata tem um roteiro mental bem preparado, ao fim da mesa fiquei com a sensação de ter acompanhado um raciocínio cujo arco possui início meio e fim do roteiro, ao mesmo tempo em que ela aproveitava os naturais desvios em uma resposta para enganchar a ideia e desenvolvê-la. Mediar mesa não é fácil, pessoal, mas tem método. Watch and learn.
Minha amiga carioquíssima Stephanie Borges, que manja tudo de FLIP e, sonbretudo de poesia, ao me avistar ao longe, sentencia: “de galinha de casa não se corre atrás”. Assim são os encontros mais legais, de modo que este ficará registrado aqui com essa frase à la Esopo.
Djaimilia Pereira de Almeida contou que seu romance, O livro do meu pai, possui um título diferente na primeira edição portuguesa, O livro da doença. A autora afirmou que a versão brasileira foi bastante revista e editada por ela, para além do título. Fiquei com vontade de ler essa primeira edição e cotejar as duas versões.
Para quem, assim como eu, precisa de um carinho muscular para renovar a musculatura e desempenar o esqueleto, minha amiga fisioterapeuta Cris Lopes está equipadíssima com sua maletuxa de agulhas e bambus e em uma sessão de uma hora te deixará zero kilômetro para enfrentar as pedras da cidade por mais um dia. Recomendo demais o serviço.
A enome quantidade de autorias 30- mediando mesas e falando de seu nonagésimo quinto livro publicado. Escrita é resultado de muitos traumas e vivências, sabemos, mas um trauma essencial que tem sido negligenciado é a falta de vivência leitora e de repertório de mundo. Mais leitura e menos ISBN no próprio CPF caem bem. Minha amiga Ana Lima Cecilio vai lançar em breve uma campanha “mais cama, menos mesas” para as autorias presentes. Assino o manifesto por vir.
O pavor absoluto de ter ouvido duas sentenças: “os players do mercado” e “o Méier é um bairro de difícil acesso do subúrbio carioca”. Pessoal, vamos praticar a ESCUTA DE SI quando vocês estão com microfone na mão e um amplificador de som diante de uma plateia de muitas pessoas. Esse tipo de vulgaridade a gente guarda pros eventos da Faria Lima, por favor.
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Nos vemos amanhã, com mais um caderno de campo.

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