RSS Amplifier

Élvio’s Newsletter · Jul 24, 2026

Caderno de Campo — FLIP | Dia 02

0
Sign in to vote or save

Élvio Cotrim · Élvio’s Newsletter

Bom dia,

A cidade estava cheia, mas ainda não insuportável. Quem me ouvia dizer isso ameaçava: amanhã, amanhã… Sexta é sempre pior. Pois a aposta foi dobrada e um apagão elétrico brotou por volta de 20:30. A energia só foi restabelecida no meio da madrugada.

Duas mesas da programação oficial: a mesa das 10:00 com o José Tolentino Mendonça e o Edimilson de Almeida Pereira, mediada pela Sofia Mariutti e a mesa das 19:00 com a Djaimilia Pereira de Almeida e o Kamel Daoud, mediada pela Adriana Ferreira Silva.

Boa parte da mesa da manhã foram os dois poetas refletindo, entre outras coisas, sobre a questão da ferida, tanto na cultura tradicional quanto nas culturas e manifestações populares. O Tolentino entendendo que a tradição se faz por meio desse espanto diante do mundo, sobre a questão de não termos continuidade nem duração; já o Edmilson falou sobre a questão de que, nas culturas populares não existe um apego fundamental à questão da ferida, do sofrimento e da dor; ao contrário, há uma pulsão vital que estrutura os fazeres populares. Aliás, a fala do Tolentino sobre a ferida foi algo que ele já tinha mencionado durante a homilia da missa, que aconteceu na véspera.

Já a mesa da noite abordou um tema que é ao mesmo tempo velho conhecido dos debates e fundamental: as fronteiras borradas entre ficção e verdade e o caos subjetivo, social e político que se instaura quando esses átomos entram em colisão. Para Djaimilia, o exercício de escrever a memória paterna passa pela invenção de uma herança. Em seu livro até a epígrafe é criação, não citação. Para Kamel, os relatos jornalísticos objetivos de uma guerra nunca alcançam estatuto de verdade, enquanto o romance lhe vale uma condenação penal e cívica, mandados de prisao e ameaças de morte. A grande pergunta desse diálogo foi: a quem pertencem as histórias familiares e nacionais?

A Gaía @ Substack fez uma mediação excelente sobre Newsletter pela manhã, na casa Estante Virtual. Para além do óbvio interesse pessoal nesse assunto, quero destacar um ponto: a naturalidade com que a Gaía media uma mesa: a gata tem um roteiro mental bem preparado, ao fim da mesa fiquei com a sensação de ter acompanhado um raciocínio cujo arco possui início meio e fim do roteiro, ao mesmo tempo em que ela aproveitava os naturais desvios em uma resposta para enganchar a ideia e desenvolvê-la. Mediar mesa não é fácil, pessoal, mas tem método. Watch and learn.

Minha amiga carioquíssima Stephanie Borges, que manja tudo de FLIP e, sonbretudo de poesia, ao me avistar ao longe, sentencia: “de galinha de casa não se corre atrás”. Assim são os encontros mais legais, de modo que este ficará registrado aqui com essa frase à la Esopo.

Djaimilia Pereira de Almeida contou que seu romance, O livro do meu pai, possui um título diferente na primeira edição portuguesa, O livro da doença. A autora afirmou que a versão brasileira foi bastante revista e editada por ela, para além do título. Fiquei com vontade de ler essa primeira edição e cotejar as duas versões.

Para quem, assim como eu, precisa de um carinho muscular para renovar a musculatura e desempenar o esqueleto, minha amiga fisioterapeuta Cris Lopes está equipadíssima com sua maletuxa de agulhas e bambus e em uma sessão de uma hora te deixará zero kilômetro para enfrentar as pedras da cidade por mais um dia. Recomendo demais o serviço.

A enome quantidade de autorias 30- mediando mesas e falando de seu nonagésimo quinto livro publicado. Escrita é resultado de muitos traumas e vivências, sabemos, mas um trauma essencial que tem sido negligenciado é a falta de vivência leitora e de repertório de mundo. Mais leitura e menos ISBN no próprio CPF caem bem. Minha amiga Ana Lima Cecilio vai lançar em breve uma campanha “mais cama, menos mesas” para as autorias presentes. Assino o manifesto por vir.

O pavor absoluto de ter ouvido duas sentenças: “os players do mercado” e “o Méier é um bairro de difícil acesso do subúrbio carioca”. Pessoal, vamos praticar a ESCUTA DE SI quando vocês estão com microfone na mão e um amplificador de som diante de uma plateia de muitas pessoas. Esse tipo de vulgaridade a gente guarda pros eventos da Faria Lima, por favor.

Nos vemos amanhã, com mais um caderno de campo.

Read the original on elvio.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.