Durante décadas, a Copa do Mundo era um evento de proporções faraônicas, capaz de mobilizar adultos, crianças, ricos e pobres. As peripécias futebolísticas da seleção brasileira, sempre bem representada por figurões icônicos, de Pelé e Garrincha a Ronaldo Comedor de Gente e Ronaldinho Cara de Cachorro, uniam todas as tribos à moda Norvana.
Tradicionalmente, por algumas semanas a cada quatro anos, o Brasil parava tudo, fosse interrompendo o expediente ou acordando às 3h da manhã, para acompanhar a canarinha lutar por mais um título mundial. Porém, parece que alguma coisa se perdeu ao longo da última década…
De um fenômeno permeado pela paixão e pela espontaneidade característica tanto da mecânica do esporte quanto de seus atletas, o futebol se transformou, hoje, num constructo corporativo, onde a manutenção comercial das marcas fala mais alto que os sentimentos e a personalidade dos jogadores.
A perda desse valor simbólico aconteceu à medida que atletas e clubes se transformaram em ativos financeiros e o futebol europeu ascendeu em popularidade devido à hipervelocidade da comunicação e à valorização econômica das marcas envolvidas. Depois de tudo isso, é claro, vieram as Bets para uma última pá de cal.
Mas vamos com calma, porque existe uma cronologia.
Em meados dos anos 90, Jean-Marc Bosman, meio-campista belga que jogava pelo Liege, entrou com uma ação contra a UEFA. A alegação foi de que seu contrato com o referido time havia se encerrado, mas, como a equipe ainda permanecia dona de seu passe, ele seguia impedido de assinar com outros clubes, e isso estava causando prejuízos em sua carreira.
A história deu o que falar. Após alguns anos de judicialização, em 1995, UEFA, Liege, Bosman e cia. chegaram a um acordo conhecido como Lei Bosman, que permitiu que os jogadores se tornassem donos de seus próprios passes. Isso permitiu que atletas pudessem transitar entre times e países europeus com muito mais facilidade.
O impacto dessa briga foi sentido no Brasil. Em 1998, foi sancionada a Lei Pelé, que basicamente tinha o mesmo efeito da Lei Bosman, mas adaptada à realidade brasileira: times operando com pouquíssimos recursos, desigualdades salariais enormes e infraestrutura de várzea.
Então, desimpedidos após o término de suas obrigações contratuais, não foi difícil que os jogadores brasileiros passassem a enxergar, na Europa, uma possibilidade de crescimento profissional e melhora na qualidade de vida. Da mesma forma, o negócio se mostrou valioso para os times do Velho Continente, uma vez que, com a iminente criação da União Europeia, o dinheiro não era pouco e a mão de obra brasileira era bastante barata e talentosa.
O processo de exportação de atletas se tornou, desde então, cada vez mais intenso. Segundo matéria publicada no El Mercurio, jornal tradicional chileno, em janeiro de 2001, o Brasil havia exportado, no ano anterior, 701 jogadores para fora do país. Foi um marco histórico, mas que viria a ser superado ano após ano até hoje.
A partir de 2015, com a alta do dólar e a elevação das tensões políticas no nosso país, muitos atletas passaram a migrar para a Europa antes mesmo de se profissionalizarem, fazendo toda sua formação nas categorias de base dos times do Velho Continente. Entre 2020 e 2026, segundo matéria publicada no Terra, mais de 3.000 atletas cruzaram o Atlântico para integrar times europeus.
Some a isso ao fato de que a camisa canarinha, no mesmo período, passou a ser associada a grupos políticos conservadores e o saldo cultural dessa história é a perda da identificação entre a seleção brasileira e o torcedor.
Se antes os jogadores que vestiam a camisa da seleção eram velhos conhecidos do público por causa de suas atuações no futebol brasileiro, pouco a pouco eles foram substituídos por ilustres desconhecidos formados em algum clube europeu.
Assim, os jogos da seleção foram de eventos ricos em personagens, como o atacante médico Sócrates, o sempre polêmico Vampeta ou o baixinho Romário, a batalhas de onze estranhos contra onze desconhecidos.
Mas não foi só isso.
Em paralelo às questões cambiais e contratuais entre jogador e clube, o futebol passou por um processo de transformação comercial muito forte. A comunicação imediatista e a descentralização das transmissões dos jogos, antes fixadas em três ou quatro canais de TV e agora pulverizadas nas plataformas de streaming, fizeram com que o esporte ganhasse uma cobertura muito mais ampla.
Em igual medida, as redes sociais — uma vitrine perfeita para anunciantes e patrocinadores — transformaram os jogadores em empresas independentes de seus contratos com os clubes.
Quando o imbecil do Neymar, após um período de grandes incertezas, foi enfim convocado para a Copa do Mundo de 2026, levou apenas alguns minutos para que seus perfis nas redes sociais publicassem campanhas publicitárias em parceria com as marcas Canção Alimentos, Mercado Livre, Puma e Red Bull. Todas elas, é claro, evidenciando a jornada de superação do craque.
O detalhe, segundo matéria publicada na Folha de S.Paulo, é que o jogador havia gravado pelo menos duas versões de cada uma dessas campanhas: uma comemorando sua convocação e outra para o caso de ele ficar de fora da lista de convocados.
Antigamente, os jogadores de futebol encantavam pela habilidade e irreverência. Suas atuações dentro e fora de campo eram uma forma de produção de capital simbólico. Hoje, eles se tornaram a fachada de uma superestrutura capitalista quase puramente econômica e corporativa. E as corporações, todos nós sabemos — ou deveríamos saber —, não possuem alma.
Com uma atuação profissional fora de campo tão forte e lucrativa, as carreiras dos jogadores há algum tempo são geridas por agentes da mesma forma que as dos atores de Hollywood. Isso consolida os atletas como parte de uma cadeia produtiva que precisa de gestão, controle e manutenção.
Uma forma de compreender isso na prática, acreditem ou não, é através dos penteados:

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