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Boa leitura!
No último mês de junho, o Placebo lançou uma edição comemorativa de seu homônimo disco de estreia, que acaba de completar 30 anos. O que pegou muita gente de calças curtas, porém, é que o lançamento não se trata de um remix ou um remaster do álbum original, mas sim de uma nova versão dele, parcialmente regravada.
Apontado pelo vocalista Brian Molko como uma “director’s cut“, Placebo – Re:Created fala muito mais sobre o mundo contemporâneo do que se pode imaginar. Enquanto fenômeno, o lançamento do disco revisitado funciona como um convite à investigação sobre para onde caminha, nada mais, nada menos que a própria cultura humana.
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Para tanto, porém, é preciso tirar algumas pedras do caminho antes de partir para a filosofia. Revisitações da própria obra existem e não são tão incomuns. Elas acontecem pelos mais diversos motivos.
Quando os irmãos Cavalera regravaram os dois primeiros discos do Sepultura, Bestial Devastation e Morbid Visions, em 2023, e o Ratos de Porão fez o mesmo com seu Sistemados pelo Crucifa, regravação de 2001 do trabalho de estreia do conjunto, Crucificados pelo Sistema, de 1984, era claro que havia em ambos os casos, uma curiosidade genuína:
Fãs e músicos sempre quiseram saber como aqueles álbuns soariam se tivessem sido produzidos com mais recursos técnicos do que os disponíveis na época.
Em outras esferas artísticas, há o caso do cineasta austríaco Michael Haneke, que refilmou o longa Violência Gratuita, de 1997, quase quadro a quadro, no que é possível entender como um exercício de forma e estilo com um pouquinho assim de tino comercial. Intenções, portanto, radicalmente diferentes das de George Lucas e suas infinitas edições especiais de Star Wars, nas quais a perspectiva mercadológica direcionava fortemente as decisões criativas.
As motivações são muitas e variadas, desde as citadas acima até a do quadrinista argentino Héctor Germán Oesterheld, que reescreveu sua obra máxima, O Eternauta, para que ela ganhasse contornos políticos cada vez mais fortes. Oesterheld, vale lembrar, foi um ativista político ligado a uma esquerda armada argentina que, em 1977, foi sequestrado pela ditadura e dado como morto tempos depois.
A grande questão é que, embora o passado seja rico em referências e estudos de caso sobre artistas que revisitaram a própria obra, o que acontece no presente é algo diferente de tudo. E o grande vetor da transformação é a internet.
Até os primeiros anos da internet doméstica, a comunicação era enquadrada pela ação do tempo. A informação dependia dos meios de comunicação tradicionais e precisava ser transmitida em diversos horários e veículos para atingir a população.
Por isso, o boca a boca que sucedia o último episódio da novela ou a ansiedade pela próxima edição de uma revista mensal sustentavam a criação de um imaginário e funcionavam como um mecanismo tanto de autorreflexão quanto de planejamento do processo de socialização. Entre um dia e outro, as notícias, filmes, propagandas etc. decantavam na cabeça das pessoas e eram, pouco a pouco, integradas à cultura.
A pesquisadora Mary Helen Immordino-Yang, ligada à USC (University of Southern California), compreendeu esse processo à luz da neurociência e analisou a atividade cerebral humana e a importância do ócio para a criação da memória pessoal e coletiva.
Para Mary Helen, “concepções recentes sobre o funcionamento do cérebro mostram que as redes neurais responsáveis por manter e direcionar a atenção para o ambiente alternam seu funcionamento com um estado denominado modo padrão (default mode, DM), ativado espontaneamente durante o repouso, o devaneio e outros estados de vigília nos quais a atenção não está voltada para estímulos externos.”
Portanto, quando o desenvolvimento tecnológico da internet começou a suportar o compartilhamento cada vez mais rápido de informações de áudio e vídeo, a web nos possibilitou algo inédito na história da humanidade: olhar para trás e revisitar tudo aquilo que pensávamos estar perdido sob as lembranças distantes que compunham, enfim, nossa memória.
Um dos grandes fascínios do início da era digital foi justamente a irrestrição dos acervos: reassistir a filmes transmitidos uma única vez na TV aberta, baixar e armazenar música sem a necessidade de sintonizar uma estação de rádio, colecionar livros, imagens e até programas de televisão de décadas atrás. Essa possibilidade aberta ao infinito trouxe à neurociência e à psicanálise duas grandes questões.
A primeira é o estímulo perene à sensação de pertencimento do sujeito, agora separada dele por apenas alguns cliques do mouse. Estudado por todas as ramificações da Psicologia, esse fenômeno da busca por uma identidade é algo que se mostra na cultura, mas que, na verdade, está relacionado com a natureza.
Se psicanalistas como John Bowlby e Donald Winnicott analisaram o comportamento humano e sua necessidade de integração social desde os primeiros dias de vida do bebê, o culto a um determinado filme capaz de lotar uma sala de cinema mesmo décadas após sua estreia é, no fundo, uma expressão dessa mesma necessidade, mas trespassada pela cultura:
É o caso do filme The Rocky Horror Picture Show (1975), fracasso de público que se transformou em um fenômeno cult graças às sessões de meia-noite, mas é também o caso da satisfação quase íntima de encontrar alguém que conhece aquele disco obscuro que você julgava ser patrimônio exclusivo seu. Em ambos os casos, fica evidente como nossa necessidade inata de pertencimento se apropria da cultura e lhe atribui novos significados.
Na realidade específica dos anos em que a internet se popularizou, porém, há ainda outro fator de transformação: o desenvolvimento neural da geração que cresceu em paralelo com o desenvolvimento da web.
O psicólogo Laurence Steinberg, especializado em Psicologia do Adolescente e docente da Temple University, explica que “a sensibilidade às recompensas aumenta da infância até a adolescência e atinge seu pico no final da adolescência, enquanto o controle cognitivo continua amadurecendo gradualmente até o início dos vinte anos.”
Isso significa que, durante os primeiros anos de vida, nosso córtex pré-frontal — responsável pelas funções executivas e pelo senso crítico — ainda não foi plenamente desenvolvido, o que faz com que as emoções que sentimos sejam muito mais intensas.
Em se tratando de cultura, essa é a explicação pela qual, por exemplo, as músicas da nossa juventude nunca deixam de ser tão especiais: as descargas dopaminérgicas liberadas ao ouvir aquelas composições ficam gravadas no nosso cérebro para sempre e, mesmo após o desenvolvimento pleno do nosso sistema neural, aquele sentimento tão intenso de prazer ao ouvir determinadas canções segue intacto.
Portanto, quando a geração millennial, que fora alfabetizada no período da ascensão digital e dominava a linguagem da internet, passou a ocupar os espaços do mercado de trabalho de um mundo cada vez mais capitalista, a escolha de mercantilizar a nostalgia pareceu até óbvia.
Conforme as últimas décadas passaram o mundo mudou de acordo com a intervenção da tecnologia na infraestrutura cotidiana, na forma como nos comunicamos e, sobretudo, nos nossos modos de subjetivação. Alicerçada por uma mecânica cada vez mais capitalista e verticalizada, a internet foi de uma terra de livre expressão e compartilhamento cultural a um dispositivo de manutenção, controle e manipulação do comportamento, gerido por grandes empresas e suas políticas de convivência.
O grande vilão dessa história foram as redes sociais. Tudo começou em 2016, quando o Instagram anunciou uma mudança operacional no seu funcionamento: a partir daquele ano, os usuários não acompanhariam mais as publicações dos perfis seguidos em ordem cronológica. Os posts passaram a ser selecionados por um algoritmo da plataforma, que fazia uma leitura de relevância do material publicado com base em critérios próprios, nunca divulgados.
Só em 2022, porém, veio a mudança mais drástica: com a popularização do TikTok, o Instagram precisou copiar o modelo operacional da rede chinesa e passou a operar como um motor de recomendações de conteúdo. Na prática, os usuários deixaram de receber notificações sobre as postagens dos perfis que seguiam para receber posts externos selecionados por um algoritmo.
Esse processo ganhou tração e escala: em pouco tempo, a cada refresh que as pessoas faziam no aplicativo, novas postagens selecionadas pelo Instagram invadiam seus feeds. A velocidade com que esses conteúdos passaram a ser entregues tornou-se tão grande que, por sua vez, passou a condicionar o comportamento dos usuários. A cada refresh, uma novidade. A cada atualização, uma pequena liberação dopaminérgica. As consequências disso foram múltiplas.
A primeira e mais óbvia é o fracionamento da atenção, seguido pelo vício em telas e pela dificuldade de concentração em atividades que demandam tempo e foco, como, por exemplo, a leitura deste texto. Isso tudo, por sua vez, fez com que nossos cérebros passassem a estar sempre condicionados à estimulação constante, o que inibe a ativação do modo padrão descrito por Mary Helen Immordino-Yang alguns parágrafos acima e que é fundamental para a consolidação da memória e para a autorreflexão.
Sobretudo, porém, a consequência mais perigosa e sombria desse processo de integração tecnológica ao nosso modo de vida é a morte da autoralidade.
À medida que as redes sociais passaram a oferecer um fluxo praticamente inesgotável de novidades, nosso sistema de recompensa passou a ser constantemente estimulado pela expectativa da próxima descoberta. Como consequência, diminuiu o tempo dedicado à assimilação de cada conteúdo individual antes que a atenção migrasse para o seguinte, em busca de uma nova recompensa.
Hoje, ao fazer uma postagem no Instagram, o algoritmo direciona o post para um pequeno grupo-teste formado por uma parcela de seus seguidores e por perfis com interesses em comum durante três segundos. Nesse minúsculo recorte temporal, a plataforma analisa a porcentagem de usuários que dedicaram pelo menos 1,6 segundo de sua atenção ao conteúdo entregue e, com base nisso, segue distribuindo — ou não — aquilo que foi publicado.
Essa mecânica, portanto, privilegia tudo aquilo que captura a atenção de imediato, exatamente como um jornal carniceiro que rouba a atenção do leitor ao publicar imagens de cadáveres e manchetes sensacionalistas na primeira página. Além disso, ela beneficia também tudo o que já faz parte do repertório do público, uma vez que é mais fácil se ater a imagens previamente conhecidas do que se aventurar por conteúdos originais.
Some a essa equação, agora, a ascensão das Inteligências Artificiais, um conjunto de dispositivos especializado em copiar e repaginar toda a cultura humana. O produto final é o desinteresse generalizado pela autoralidade, obliterada por inúmeras versões diferentes das mesmas coisas que todo mundo já conhece, o que gera um senso de pertencimento e uma rápida descarga dopaminérgica.
E é aí que voltamos a Placebo Re:Created, novo lançamento da banda homônima descrito na abertura deste texto. O disco aponta para o passado como quem tenta reviver uma nova versão daquilo que já passou. Repaginado e de cara nova, o álbum é como uma celebridade cheia de botox que não aceita a passagem do tempo e tenta estender seus dias de glória, mesmo sabendo, nos mais íntimos momentos, que eles já passaram. É um dispositivo de emulação, de simulação de novidades. É como, ora, uma Inteligência Artificial que se apropria do passado para envernizar o presente com pertencimento e dopamina rápida.
Dito isso, é claro que as regravações feitas pela dupla Stefan Olsdal e Brian Molko são bem executadas e tem a humanidade impregnada à performance. Algumas músicas até ficaram realmente muito boas e é no mínimo prazeroso escutar uma versão diferente daquilo que passamos a vida habituados a ouvir. O grande problema é que simbolicamente esse fenômeno representa, em 2026, algo ainda pior: o homem simulando o efeito causado pela máquina.
Na terceira parte de A Ética, intitulada Da Origem e da Natureza dos Afetos, o filósofo Baruch de Espinosa afirma que “padecemos quando acontece em nós algo de que somos causa apenas parcial”.
Em essência, isso nos conduz à ideia de que nós — e somente nós mesmos — devemos ser o motor propulsor de nossa própria alegria. A rigor, trata-se do comportamento oposto ao descrito até aqui.
Espinosa, porém, sabe que esse é um ideal impossível de ser plenamente alcançado na prática. Por isso, deixa claro desde o início de sua obra que tudo o que podemos fazer é tentar: para o filósofo, quanto menos deixamos o mundo exterior nos afetar e mais nós mesmos somos a causa adequada de nossos afetos, maiores são nossa alegria e nossa potência de vida.
Numa era em que nosso comportamento está cada vez mais condicionado aos padrões estabelecidos pelas empresas de tecnologia, porém, é difícil não imaginar que estamos perdendo essa batalha. Da proposta estética do relançamento do Placebo, moldada pelo funcionamento sociocultural das redes sociais, às rápidas liberações dopaminérgicas promovidas pelos feeds do Instagram e do TikTok, tudo parece ruir. E o sintoma mais perigoso desse processo talvez seja justamente a morte do autor.

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