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Efeito Prisma · May 6, 2026

Ego batizado

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Bernardo W. · Efeito Prisma

Fala prismáticos e prismáticas!

Na reflexão dessa semana temos um convidado especial, o Bernardo. E um tema ainda mais especial: a necessidade de reconhecermos que não somos os protagonistas da história.

Um abraço e boa leitura!

Você já entrou em crise por não ser o protagonista em algo? No ensino fundamental, eu era sempre o último a ser escolhido nos esportes. Minha consciência espacial e meu senso de direção eram tão precários que minha presença em campo representava um verdadeiro risco geográfico, tanto para adversários quanto para companheiros de equipe, o que me tornava o último recurso dos times de futebol. Em retrospecto, esse histórico desastroso foi minha primeira grande lição de humildade. Enquanto em sala de aula eu me sentia à vontade com História, Geografia e Literatura, liderando até mesmo grupos de estudo, na quadra a dinâmica era outra. Nas aulas de Educação Física, eu precisava abrir mão do protagonismo intelectual e aprender com aqueles que eu, precocemente, julgava inexperientes.

O período escolar é, indiscutivelmente, formativo. No meu caso, a compreensão de que eu não seria bom em tudo não foi imediata. “Como poderia haver pessoas mais capacitadas do que eu para determinada atividade?”, eu pensava. Pode parecer presunção — e, de certa forma, era —, mas essa era uma dúvida genuína na época. Com o tempo, percebi que uma habilidade essencial para a vida em sociedade é compreender os momentos em que se deve passar o controle (ou a bola) para alguém mais experiente. Creio que as Escrituras endossam essa mensagem: em certas situações, seremos coadjuvantes, e não há nada de errado nisso.

Talvez o maior exemplo de quem compreendeu seu papel como personagem secundário nos planos de Deus tenha sido o primo do Messias, João Batista. A postura adotada pelo Batista nos ensina a deixar os holofotes de lado, largar o “manto de messias” e permitir que o Cristo faça aquilo que somente Ele pode fazer.

Para entender João e seus ensinamentos sobre humildade, é preciso contextualizar o ambiente em que o profeta cresceu: João nasceu na Palestina sob o jugo de Roma. Os judeus interpretavam a ocupação como uma reverberação da opressão que seus antepassados haviam vivido no Egito, com a diferença latente de que a repressão agora ocorria na própria Terra Prometida. A expectativa para que Deus libertasse seu povo, como fizera no passado, intensificava-se.

Diante dessa esperança de emancipação, surgiram diversos movimentos messiânicos liderados por figuras carismáticas, entre os mais desafortunados, que prometiam liberdade, mas acabavam sempre suprimidos pelo poderio bélico romano. Segundo o historiador e teólogo André Daniel Reinke, em sua obra Aqueles da Bíblia, um elemento conciliante entre os levantes da época “era a crença de que Deus iria realizar um ato milagroso de libertação, como fizera no êxodo”, e, consequentemente, buscava-se também um “novo Moisés” para conduzir a população oprimida.

Distante do barulho das muitas vozes que buscavam a atenção das multidões prometendo suplantar os romanos, o Evangelho de Lucas registra que, no templo de Jerusalém, no silêncio usual do compartimento do Santo dos Santos, o sacerdote Zacarias, em meio ao ofício de oferecer incenso, foi visitado pelo anjo Gabriel. A mensagem que Gabriel trazia era extraordinária: Zacarias estava vocacionado a ser o pai de um menino considerado “grande aos olhos do Senhor” (Lc 1:15). Esse garoto, como bem sabemos, era João Batista.

O anjo ratificou as palavras do profeta Malaquias, afirmando que o garoto faria “voltar o coração dos pais aos filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos e, assim, deixar um povo preparado para o Senhor” (Lc 1:17). Note que João tinha a missão de ordenar o povo para o novo agir de Deus; ele não iria liderá-los, como veremos adiante, essa tarefa era de outra pessoa.

Zacarias, contudo, duvidou. Para ele, era impossível, dada a idade avançada e a esterilidade de sua mulher, Isabel. Como resposta à sua incredulidade, o anjo selou seus lábios até o nascimento do menino. Zacarias permaneceu afônico até o dia da nomeação de João. Diante de tais eventos surpreendentes, os vizinhos do sacerdote, que com certeza esperavam ansiosos por um “novo êxodo”, perguntavam-se atônitos: “O que será este menino?” (Lc 1:66).

A resposta veio com o ministério profético de João. Todavia, sua pregação nunca teve um fim em si mesma. Em suas próprias palavras: “Depois de mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de, curvando-me, desamarrar as correias das sandálias” (Mc 1:7). Mas essa afirmação contrasta severamente com o discurso contemporâneo, que superestima a individualidade.

A “cultura do protagonismo” infiltrou-se até mesmo na Igreja, onde métricas de sucesso muitas vezes focam no destaque da liderança. João era o oposto disso. Enquanto hoje medimos o sucesso pela visibilidade, o Batista definia seu êxito pelo seu “desaparecimento”. Como diria Timothy Keller, João tinha um “ego transformado” ou, como prefiro dizer, um “ego batizado”. Ele entendia que seu ofício era apenas preparar o caminho. Quem, de fato, guiaria o povo à liberdade do Reino de Deus seria o “novo Moisés”, o rabino de Nazaré: Jesus, o Cristo.

Para além dos múltiplos títulos concedidos a Jesus, é proveitoso concentrar a atenção naquele proferido por João. O Batista o caracteriza como: “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29). Devido ao ofício sacerdotal de Zacarias, João cresceu familiarizado com o papel que os cordeiros desempenhavam na liturgia do Templo de Jerusalém. João sabia que o verdadeiro êxodo não seria político, mas espiritual, por isso, o epíteto que o profeta atribui ao seu primo preconiza a missão definitiva do Messias: ir além dos sacrifícios rituais e entregar-se para expurgar, perpetuamente, o pecado não apenas da nação, mas do mundo inteiro.

“É necessário que ele cresça e que eu diminua” - João 3:30

“É necessário que ele cresça e que eu diminua” é uma declaração de alívio. A oportunidade de se sobressair era real, e João poderia facilmente ter reivindicado o título de Cristo para si. No entanto, ele contentou-se em ser o “reserva”. Para João, quem verdadeiramente deveria carregar o jogo (e também a cruz) nas costas era Jesus, e mais ninguém.

Há um descanso peculiar em descobrir que você não precisa ser o protagonista. O esforço permanente de se fazer o centro da história é, no fundo, uma forma de escravidão. A cultura ao nosso redor invariavelmente supõe que agir e realizar são sempre superiores a descansar, que fazer qualquer coisa é melhor do que não fazer nada, mas essa lógica nos esgota, porque foi construída sobre a ilusão de que o mundo depende da nossa performance. João Batista não viveu assim. Ele soube que havia chegado o momento de diminuir, e esse momento não foi uma derrota, foi a expressão mais plena da sua vocação.

Há uma enorme diferença entre receber um papel e roubar a cena. Quando paramos de reivindicar o protagonismo que nunca foi nosso, criamos espaço para que coisas extraordinárias aconteçam. João pôde testemunhar o Cordeiro de Deus porque não estava ocupado demais tentando ser o cordeiro. Essa é a lógica do Reino: quem se esvazia é preenchido, quem cede o centro encontra o seu lugar, e quem aprende a ser coadjuvante descobre que essa é, paradoxalmente, a única forma de participar de uma história maior do que si mesmo.

Deus valoriza nossas aptidões, sem dúvidas, mas Seu propósito soberano não orbita ao nosso redor. João não era o Messias, eu não sou o Messias e você também não é. E, honestamente, não há notícia melhor: a história é sobre Ele, e nós temos o privilégio de apenas preparar o caminho.

Eu agradeço a equipe do Efeito Prisma pela confiança em me “passar a bola” para escrever e divulgar esse texto e eu também sou grato a você que leu até aqui e aguentou minhas piadas esportivas. Deus te abençoe e te guarde.

  1. REINKE, André Daniel. Aqueles da Bíblia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

Read the original on efeitoprisma.substack.com

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