eu lembro da sensação física que eu sentia no meu corpo toda vez — e foram várias — que alguém me dizia o quanto nós éramos parecidas. era época de bienal do livro na época em que eu trabalhava em bienais do livro, e as bochechas coçavam a cada “mas você não é aquela menina da série?". eu obviamente não era a menina da série, mas será mesmo que não poderia ser ela? eu queria desesperadamente ser ela.
a menina da série era a hannah horvath, a personagem que a lena dunham interpretava em girls — uma dessas que claramente uma mulher inventa pra poder falar abertamente da quantidade de absurdo descomunal que habita em sua própria cabeça. a hannah é a lena, como fomos vendo à medida que crescia sua fama e o ódio que a gente nutria por ela, a atriz. até disso eu gostava, ou principalmente disso: ser insuportável e irritante essencialmente por causa da sua/minha/nossa inteligência me parecia um fardo delicioso de ser carregado.
a lena me deu isso, há uns dez anos: o gozo gigantesco de ver a minha cabeça problemática e a minha vidinha medíocre sendo elevadas ao nível de O Novo Sonho Americano da Mulher de 20 e Poucos Anos. e essa parte é bem importante, a da vidinha medíocre: não como nada revolucionário ou inovador, mas com muita certeza, com uma roupinha fresca e colorida, ali foi um começo de reconhecimento que a vida é isso aí, e tá tudo bem. claro, uma vida branca de classe média inebriada com seus próprios dilemas, como a gente bem sabe.
risos irônicos, porque é legal demais ser irônica até ninguém entender a gente de verdade, né. risos.
“desconfortável", "indigesta", "insuportável", “irritante", "tóxica", "narcisista", "perturbadora", "confusa", "desorganizada”, e minha favorita da vida a partir de agora, “dá a impressão de que você está assistindo a um desastre” são algumas das expressões usadas pra descrever a série, e também a lena, no google. girls foi tudo isso mesmo, e eu também me lembro do completo assombro que me tomava toda vez que eu me contorcia de aflição com uma cena que não envolvia (necessariamente, às vezes, também) nada escatológico. espanto, misturado a vergonha de assumir a admiração que eu estava sentindo.
escrevendo esse texto, aliás, eu notei a quantidade de reações físicas que a série e a lena me despertaram e ainda despertam, e provavelmente não só a mim, uma vez que a grande maioria das resenhas cita o corpo da lena, especificamente o corpo gordo pelado da lena, como motivo de incômodo. não precisava de tanto, né? tenho a impressão, inclusive, de que as outras personagens, magras, não eram vistas como tão insuportáveis-indigestas-narcisistas-peladas quanto ela. afinal de contas, a gente unanimemente amou fleabag, não amou? num momento histórico em que estar sem roupas era realmente um tipo de manifestação válida, não dá pra negar, aqui a lena causou.
eu não tenho dúvidas do quanto foi importante pra isadora de dez anos atrás que alguém me dissesse que eu podia ser “desconfortável", "indigesta", "insuportável", “irritante", "tóxica", "narcisista", "perturbadora", "confusa", "desorganizada”, e “um desastre.” alguém que conversasse diretamente com meus neurônios bagunçados e assumisse publicamente em 1 episódio de 1 hora por semana a quantidade de absurdo que morava dentro da minha cabeça — mas não muito, porque ela também exagerava. não precisa né? eu também precisava demais de alguém que me mostrasse tudo de horroroso e mágico que um corpo com tesão pode fazer, especialmente um corpo que não era igual ao de todas as outras pessoas autorizadas e incentivadas a agir em cima do seu tesão.
hoje, eu também percebo que precisava muito — mas isso eu realmente só percebi hoje, ou ontem, ou esses dias — de alguém pra me mostrar de que não estava exatamente tudo bem ser daquele jeito. ver a hannah, a lena, ultrapassando a barreira invisível da aflição em direção ao AMIGA PARE, na real, contou pra mim que tinha muita coisa errada acontecendo com a gente.
dez anos atrás a lena dunham explodiu, lançou livro, deu sua opinião sobre temas diversos sobre os quais poderia ter apenas sorrido em silêncio, e se perdeu na própria personagem até ser cancelada, enfim, o ciclo natural da vida moderna. aí dez anos depois a lena dunham me reaparece no auge da minha recaída vida adulta com uma série nova em que ela faz tudo exatamente igual, mas não muito.
essa giradinha considerável pra esquerda no dimer do exagero é a grande sacada de too much, pra mim, hoje, 2025, nesse momento em que a gente já avançou na discussão sobre os corpos fora do padrão, mas não muito; em que estamos prontas pra nos identificar com personagens lindas, adoráveis, divertidas, mas não muito; em que tá todo mundo um pouco melhor em termos de vida adulta, mas também não muito. os diálogos ainda são rápidos e irônicos, mas estamos na netflix, afinal. e apesar do nome, too much, puts, transformamos girls em uma comédia romântica que me parece mais um pedido de desculpas da lena dunham por ter sido demais a vida inteira; um acerto de contas pra quem sempre a achou insuportável. uma versão nova dela — nova mesmo, interpretada pelo poço de carisma e beleza que é a megan stalter —, mais comedida, mais medicada, mais polida, mais limpinha e mais vestida (mas não muito), agora pra casar.
e veja: isso nem de longe é uma crítica, nem sequer um julgamento. já que falamos de sensações físicas durante todo esse tempo, eu assisti too much com os ombros relaxados e me dando um tapinha nas costas imaginário: tá tudo bem, amiga, você tentou. a lena finalmente te autorizou a descansar agora.
talvez todas nós meio lena dunham estejamos precisando de uma comédia romântica a essa altura da vida.
eu achei a série uma delícia de assistir, mesmo chorando de soluçar e tendo algumas crises de ansiedade ocasionadas por atores que parecem pessoas reais reproduzindo frases meticulosamente construídas pra me fazer ter crises de ansiedade porque eu já as ouvi na minha vida real inúmeras vezes direcionadas a mim. tem coisas que só o trauma de ter sido Uma Mulher que Sempre Ouviu que Era Demais™ a sua vida inteira faz por você, meninas. claro que a lena sabe disso, a megan sabe disso, a netflix sabe disso, eu, você e nossas psicólogas também. a repetida à exaustão cena em que a modelo and influenciadora que parece a cleópatra encarnada diz que os homens dizem que amam mulheres fortes mas na verdade só querem dobrar a gente, puts, direto no nosso delírio narcísico, encaixa como uma luva.
isso sem contar o enorme acerto de fazer essa homenagem póstuma a sex and the city com os melhores figurinos da tevê internacional atual, já que morreu a menina carrie bradshaw — aqui todas concordamos, certo?
só que daí essa desgraçada da lena dunham muy ironicamente (certo?????????) pega tudo o que a gente viveu de lá pra cá nesses anos todos — as descobertas sexuais, o primeiro casamento falido, a depressão, as experiências com a não monogamia com um casal chamado Cody, a hiper-exposição na internet, a depressão de novo, as tentativas de ter uma carreira bem sucedida sendo escritora, todas as discussões importantes sobre gênero e sexualidade que viraram uma paródia bocó pra publicidade, a amiga bicha má, a tentativa frustrada de fazer amizade com as vizinhas descoladas, a insegurança diante da ex-namorada livrona, buena onda e magra, a cachorrinha feiosa adotada, o abuso de substâncias ilícitas, mais outra depressão, a relação bagunçadíssima com a família, a traição do ex-namorado feio com a influenciadora herdeira desconstruída que faz artes manuais — e resolve assim: com um novo amor???????????
me senti pessoalmente atacada.
que tristeza é perceber que a gente construiu toda a nossa personalidade em cima de algo tão insignificante quanto ser demais, agarradas nos posts do instagram com frases meia boca que desprezam ironicamente das pessoas rasas que não entendem a nossa intensidade. maldita lena dunham que me contou que eu poderia ser a protagonista da série apoiada em uma única característica que é ser meio maluca e um roteiro de 10 episódios de humor autodepreciativo. como se desse de verdade pra ser genial quando a nossa cabeça (e o nosso corpo) estão tentando avisar que aquela bagunça toda não é um sinal de que você é A Voz Da Geração — ou uma voz de uma geração —, mas, na verdade, um aviso que você está em profunda agonia.
tem momentos que a gente só precisa de uns 40mg de fluoxetina, sabe.
e aí eu acho que mora a minha grande decepção comigo com as vozes da minha geração: além de termos lapidado à exaustão as nossas personalidades odiosas, irritantes e autocentradas, a gente tá fazendo isso, de novo… só pra ser amada? POR UM MÚSICO??????????????? ou, como disse a juli, a minha marnie kkkkkkkkkkkk me desculpa!!!!, na nossa conversa aos berros sobre a série: que merda é essa que a única coisa que a personagem principal oferece é tipo “olha que mulher interessante porque é ansiosa, insegura, intensa e precisa urgentemente virar algo que um homem possa amar" (sim, a juli é genial e salva minha vida todos os dias, leiam a juli).
tem esse requinte finíssimo de crueldade, aliás: a lena dunham, ela mesma, em sua melhor forma, aparece na série como um lembrete. largada na cama, sem banho, acima do peso, deprimidíssima, mãe de um pré-adolescente também meio totoco das ideia, abandonada pelo marido que foi experimentar sua sexualidade, herdeira de uma linhagem de mulheres de posturas meio questionáveis. a voz da nossa geração que apostou no caminho da genialidade e deu nisso. será que a gente era mesmo tão interessante assim?
2025 foi o ano em que eu descobri que a jout jout é a epítome de tudo o que eu mais amo odiar na minha vida, apesar/porcausade de ter construído grande parte da minha personalidade mirando nela, que eu não aguento mais fingir que gosto do caetano veloso e que graças a deus existe a tati bernardi pra passar ridículo daquele jeito antes de eu mesma me expor àquele ponto, embora eu admire profundamente a coragem. foi o ano que eu resolvi contar outra história sobre mim e tô me deparando todo dia com a treta gigantesca que eu arrumei pra minha cabeça.
não me espanta nem um pouco que a gente escolha ir pelo caminho do felizes para sempre e dos vestidos de tule.
mas eu sempre pensei que à medida que eu fosse ficando mais velha eu conseguiria finalmente ser cada vez mais e totalmente em paz com isso: mais maluca, mais radical, mais eu mesma, mais intensa, se você quiser que eu repita essa palavra outra vez; e talvez essa grande crise de identidade que me pegou tanto nos últimos anos seja essa mesmo: a percepção meio triste que eu estou cansada desse esforço, e que tá tudo bem aceitar ser normal como a minha mãe. que talvez, no final das contas, o que a gente precise mesmo é de uma comédia romântica com figurino impecável, uma protagonista que acredita no amor e a participação especial do padre gato, pra nunca esquecer da única certeza que temos nessa vida, a de que vai passar.
maldita lena dunham.
talvez eu comece a assistir girls de novo e volte para apagar esse texto. aproveitem!!!!!
escreveram (bem) melhor que eu:
➝ a ex-criança prodígio que habita em mim saúda a ex-criança prodígio que habita em você, a clarissa wolff, com a pergunta infame O que você seria se não pudesse usar o adjetivo “inteligente”?
➝ às vezes eu esqueço que existo, a anna vitória, e esse texto que me desmontou.

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