eu pesei o clima da última vez que estive por aqui e nunca mais voltei. é bem provável que quem me conhece sabe vocês estivessem achando que eu fiquei toda errada das ideias, mas a verdade é que esse fim de ano tem me mostrado que está tudo bem.
veja: tudo bem, muito bem, com o uso intencional da palavra "bem". BEM.
não dá pra dizer que foi fenomenal e babilônico como se espera de uma pessoa que viveu um glow up pós relacionamento traumático ou aquela fase de brilho nos olhos de quem começa em um novo emprego promissor — não que eu tenha vivido qualquer uma dessas situações também, risos — mas foi um ano bom. uso intencional da palavra "bom” aqui.
dolorido para um caralho, mas bom. o que me dá um medo surreal de relacionar de novo o sofrimento com as coisas boas da vida, nessa lógica horrorosa encarnada na gente de que tem que sofrer pra aprender, pra conquistar, pra gozar, pra viver. horrorosa.
a janaina portella disse com uma sabedoria brilhante que 2025 não foi um ano, 2025 foi uma peneira, e isso ficou ecoando na minha cabeça. “um tipo de filtro que deverá servir de medidor para a sua vida inteira". num é que foi, menina? eu só faria uma pequena mudança: a peneira me passa a impressão de ser algo meio automático, quase passivo, já que ela filtra a partir do tamanho das partículas, o que permanece e o que cai da trama. pra mim, 2025 foi ano de escolher feijão.
de olhar com atenção pra cada coisiquinha minúscula que caiu nas minhas mãos e fazer o trabalho repetitivo e minucioso de separar o que ficaria do que seria deixado de lado. cansativo. de conseguir visualizar com clareza cada pedacinho de casca rajada, dar uma apertada, ver se não tem bicho, olhar contra a luz pra ter certeza que é feijão bom pra minha feijoadinha. inclusive assim: tem um monte de feijão bem bom, até, mas não exatamente do jeito que eu preciso pra minha receita. pro prato que eu quero comer.
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inclusive eu estava lendo o texto de boas-vindas de 2025 e quase desisti de escrever esse aqui por que é basicamente a mesma coisa. que bom????? fica aí de novo a pergunta se isso é que é a paz ou só o remedinho batendo — em ambos os casos, eu aceito.
notei isso nesse momento anual de balanço, analisando o que foi 2025 e pensando nas famigeradas metas para 2026. foi difícil porque eu percebi que consegui chegar num equilíbrio bacana entre objetivos possíveis e pequenos sonhozinhos, que foram cumpridos à risca — com desistências conscientes e que me aliviariam um tanto também. difícil porque eu não quero desapegar das coisas que eu já cumpri, em parte porque elas são legais pra caralho, e em grande parte porque me dá medo de esquecê-las. tipo: se “me exercitar 5 dias na semana” não for uma meta pro próximo ano (sendo que malemá eu cumpro ela há 2 anos, com seus altos e baixos), eu tenho certeza absoluta que nunca mais eu vou me exercitar na vida. NUNCA MAIS. entende?
neuroses a parte, isso me fez perceber, de uma maneira bem torta, que eu gosto muito da vidinha que eu conquistei até aqui, poxa vida.
:’)
e que ficar sem fazer as coisinhas dela me faria mal, me deixaria triste, e mais importante que tudo: eu não quero ter que descobrir como seria. você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui etc. eu sei. a minha
constatação legítima após análise racional dos fatos é que putaquepariu que treta que foi esse caminho, e mesmo já estando aqui nesse lugarzinho há algum tempo, em proporção, é muito recente. muito novo. ainda não deu tempo de acostumar. de desligar completamente o modo sobrevivência e dar uma relaxada.
tipo, eu só comecei mesmo que pareça que está todo mundo anos na minha frente.
no fatídico ano retrasado em que tudo foi uma massaroca nublada, triste e de autocomiseração e a representação maior da depressão foi eu não ter comemorado o meu aniversário, uma grande amiga, dessas poucas que têm acesso premium ilimitado aos meus dramas, me desejou uma coisa tão bonita que acabou virando um mantra pessoal:
calma, as coisas vão melhorar, que em breve você possa sentir que está exatamente no lugar que deveria estar.
que maluquice é essa, estar exatamente no lugar que eu deveria estar. ao menos por agora. se tudo der certo, só por agora. que maluquice.
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esse ano eu comecei, finalmente, e me dediquei, com constância, pra análise, e tem sido maravilhoso e dolorido. eu aprendi a mergulhar sem precisar segurar o nariz com os dois dedinhos da humilhação e dei vários mergulhos semibonitos no mar. aliás, eu fui muito à praia esse ano! e eu também conheci, me apaixonei profundamente e até nadei no fucking rio são francisco. aquele, sabe? o maior do brasil. esse. até fico revendo as fotos pra acreditar, mas a sensação de estar deitada no barco com o rosto pertinho dele, cheiro de rio, cheiro de vento, eu não preciso de nada pra me lembrar. todos os dias.
esse ano eu disse vários nãos cheios daquilo que as performáticas chamam de intenção, mas foi isso mesmo: não era porque eu estava deprimida, ou triste, ou cansada (também), ou com medo; eu disse não porque eu quis. quem diria: é ótimo, recomendo. e também me fechou muitas portas, claro. mas eu também percebi que várias dessas portas estavam abertas só formando corredor de vento, sabe como? fazendo uUuuuuUUUUiuuuuú e derrubando umas coisas de casa. estavam abertas meio que porque sim, porque antes já tinham me levado a cômodos bacanas. mas é que hoje eu tô bem aqui, assim, e pretendo continuar, então eu vou fechar as portas pra segurar o vento um pouco.
falei um tanto de vento né? o vento tem destruído são paulo nesses últimos dias. talvez seja uma coisa pra se observar…
consegui desbloquear dois movimentos muito típicos do crossfiteiro médio que são o pull up e o hand stand push up (são nomes de verdade, eu juro) ou basicamente agora eu consigo me pendurar na barra e me erguer nela, além de fazer uma flexões de ponta cabeça encostada de leve na parede. aliás, eu achei durante o ano inteiro que eu estava arrasando no snacth e aí descobri há umas 3 semanas que não estou não — e estamos em dezembro, não há nada que se possa fazer.
também me frustrei muito com sonhos antigos-nem-tão-antigos-assim, o que me assustou um monte, pra além da decepção. tipo, eu conquistei coisas que sempre (nem sempre) estiveram no meu repertório de coisas que eu nunca conseguiria conquistar y lugares em que eu estive que sempre estiveram no meu repertório de lugares que eu jamais pisaria e daí puts: é assim? sei não. e pode parecer que essa descoberta soe como “ui que dona de si ela sabe o que quer não se rende ao hype", mas na verdade eu estou completamente perdida sem saber se eu gosto de heavy metal melódico ou se devo colecionar a revista witch novamente. e provavelmente eu deva.
mandei uma quantidade absurdamente menor de textões. lavei muito mais roupa, menina, e fiz muito menos comida. ouvi muito forró e reggaeton! fiquei ainda mais apaixonada pelo brasil, perdidamente — nada como trabalhar com gringos kkkkk. chorei muito, muito mais. magoei mais gente esse ano do que a soma dos outros 35 até aqui. chorei mais um pouco, tadinha dela. andei de caiaque e joguei frescobol pela primeira vez na minha vida as duas coisas e me diverti um monte. teve a skin dora aventureira demais esse ano, foi massa.
e talvez pareça que isso é um monte pra um ano que só foi bem ou bom (e não bem-bom), mas a verdade é que eu apenas continuei continuando — ponto pra isadorinha do passado! uma rotininha minimamente organizada, com flexibilidade para tudo desmoronar de vez em quando, a felicidade genuína de se olhar pros lados e ver sorrisos conhecidos, a paz de se estar contente com as escolhas que eu fiz pra mim. ao menos por enquanto, hoje, nesse momento. deve ser esse o hack absoluto da vida adulta, afinal.
ano que vem eu tô prontinha pra voltar em dezembro reclamando que estou desmotivada, sem sonhos, sem vontade de viver, experimentando o enorme tédio de possuir ou [insira aqui sua angústia pós-moderna]. mas quer saber? me deixa curtir mais um aninho disso aqui, até ficar bem-bem-bom, pelo menos.
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fora tudo isso,
ano que vem eu p-r-e-c-i-s-o me livrar dos meus cartões de crédito. e do celular antes de dormir. e preciso aprender a fazer uma trança embutida em mim mesma. e a dirigir, nossa. pelo amor de tudo o que é mais sagrado, mulher, se ajude.

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