“Eu posso ao mesmo tempo amar uma situação e odiar esta mesma situação.”
Renata Netto do Nascimento
Há dois anos nasceu o podcast ‘Due Tramonti’ como uma proposta de diálogos sobre trajetórias e aprendizados de quem vive na condição migrante. Por algumas semanas e meses, fiz várias entrevistas, roteiros, edições e publiquei parte do conteúdo que produzi a partir de generosas e férteis contribuições.
No entanto, alguma coisa em mim ainda não estava completamente resolvida com esta situação de tocar em feridas, minhas e alheias, do processo migratório. Ouvi histórias difíceis e alguns sentimentos e emoções conflitantes me convidaram a parar e refletir sobre o sentido de investir energia, tempo e outros recursos, num projeto desta natureza naquele momento.
Decidi pausar. Depois, decidir descontinuar o projeto. Apaguei todas as postagens, o perfil no Instagram e os grupos do WhatsApp. Agradeci as contribuições e guardei com carinho e respeito o material não publicado. Tudo em busca de silêncio para refletir, digerir, encontrar um caminho para mim, para o projeto, para o meu longo e confuso processo migratório.
Nada como o tempo para nos convidar a revisitar e ressignificar espaços, memórias, desejos e relações. E eis-me aqui, então, humildemente retornando ao podcast. Me sinto disposto e capacitado para retornar a este lugar de escuta, pois engana-se quem pensa que ter um podcast é para quem desejar falar; antes de qualquer coisa, um podcast é um lugar para ouvir quem se dispõe a falar.
Ter um podcast é um exercício de ouvir o outro. E isso é uma das coisas que eu mais amo fazer na vida. Então, voltei. Simples assim. Inesperadamente assim.
Então, pensei: por onde retornar? Pelo segundo episódio. Ele é muito especial para mim. Primeiro, por ser com a Renata, uma pessoa por quem nutro profundo respeito, admiração e afeto. Se tornou uma amiga pessoal e uma espécie de referência na minha jornada de formação em psicologia analítica. Segundo, por achar que essa fala dela sobre ambivalências é preciosa e merece ser periodicamente revisitada.
Neste episódio, Renata começa pela sua própria trajetória. Desde cedo, diz ter se reconhecido em encruzilhadas, capaz de enxergar uma mesma situação por perspectivas opostas e encontrar plausibilidade em ambos os lados. A lembrança da época em que era advogada serve de exemplo: na faculdade, precisava escrever uma petição e, no dia seguinte, contestar o próprio argumento. Para ela, o exercício não significava escolher entre o certo e o errado, mas compreender a lógica, os interesses e a razoabilidade presentes em cada posição.
Para ela, a ambivalência não é uma simples oposição. Ela surge quando duas possibilidades igualmente viáveis, interessantes ou legítimas coexistem, e o desconforto nasce justamente da dificuldade de suportar essa duplicidade. Renata relaciona essa tensão ao pensamento ocidental baseado em separações rígidas, no qual algo tende a ser uma coisa ou outra. Em contraponto, apresenta a complexidade como uma forma de reconhecer a multiplicidade de fatores, afetos e referências que atravessam uma experiência.
Na vida migrante, essa coexistência aparece de modo muito intenso. Há o desejo pelo novo e, ao mesmo tempo, a necessidade de preservar referências, vínculos e continuidades. A pessoa pode amar a jornada e odiar seus efeitos concretos: documentos, adaptações, idioma, comunicação e a angústia diante do que ficou para trás e das incertezas futuras. Para Renata, reconhecer esses sentimentos simultâneos não elimina o sofrimento, mas pode criar melhores condições internas para atravessá-lo.
A conversa também aproxima-se do tema da maternidade, outra experiência marcada por afetos contraditórios. Renata sugere que nomear a ambivalência pode ser um gesto de apaziguamento: não é preciso considerar uma experiência apenas maravilhosa ou apenas insuportável.
Ao final, a imagem das andorinhas que passam diante da varanda ecoa a ideia de movimento, retorno e trânsito entre lugares. Sincronicidade pura. Jung, corre aqui.
O episódio está disponível no Spotify, na Apple Podcasts e na Amazon Music. Em breve também no YouTube Music e nos demais agregadores.
Além deste convite, te deixo um abraço e um pedido para você ouvir o episódio e me contar o que achou.
Inté!
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.