RSS Amplifier

Due Tramonti · May 30, 2026

Faxinar é preciso. Viver não é preciso.

0
Sign in to vote or save

Rodrigo Cotrim de Carvalho · Due Tramonti

"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Fernando Pessoa

Demorei um tempo, na vida, para entender que Pessoa estava falando de precisão e não de necessidade. Esse entendimento mudou o jogo pra mim. Descortinou um novo mundo, em que a gente pode, e deve, ler com mais malícia e menos pressa. Não só palavras, mas também pessoas, relacionamentos, oportunidades, contextos.

Ler prestando atenção e desconfiando do próprio entendimento, sabe? Um exercício bom, pois abre possibilidades, e difícil, pois pode nos fazer duvidar da nossa capacidade de absorver, de dialogar com quem trouxe aquele texto pra gente, independentemente de ser falado ou escrito.

Nem todo texto, escrito ou dito, é elaborado. Aliás, a maioria não o é. E está tudo bem. Por isso, também seguimos no entendimento possível. Nem sempre precisamos colocar muita energia nessa interação; aceitar o que internalizamos naquele momento, naquele contexto, é precioso, maduro e necessário para seguirmos em frente.

Mas e a faxina? Aquele momento em que somos obrigados a limpar de verdade o nosso espaço, seja ele material, simbólico, pessoal ou compartilhado. Momentos em que ‘o paninho’ não basta, pois mais espalha o pó do que o tira das superfícies. E daí a gente espirra, fica tudo meio cinza por cima, um horror. Um desleixo.

Os espaços materiais e simbólicos demandam manutenção, tanto do tipo diário, do paninho pra limpar e remover vestígios das sujeirinhas diárias, quanto do tipo periódico, em que a gente precisa retirar acúmulos dos trânsitos e das rotinas desatentas e ocupadas, até mesmo para recuperar nossa dignidade, receber pessoas ou ainda simplesmente viver a plenitude de uma adultice funcional.

Esses espaços que habitamos são pessoais e coletivos. Não se engane, sempre precisamos negociar como faxinar esses espaços; afinal, somos muitos e muitas vezes nossas personalidades querem coisas distintas. Procrastinamos com a certeza da impunidade e nos envergonhamos com o tempo, mostrando pra gente que a louça não se lava sozinha. “Enquanto você estiver vivo, vai ter louça.” Já dizia essa plaquinha perspicaz.

Quando o espaço é conscientemente definido como coletivo, aparentemente é mais fácil. A gente hipocritamente recorre aos papéis sociais que impõem cagações de regra, muitas vezes com recorte de gênero e classe. Mas, olha que maravilha: em um mundo em transformações, em que opressões são questionadas, papéis são revisitados e as responsabilidades repactuadas, a gente “senta” pra “discutir” as regras e renegociar os combinados com os outros e conosco. Muitas vezes, no grito, tal como a Carminha de Adriana Esteves o fazia lindamente, gritando ‘Infeeeeeeeeeerno’ em ‘Avenida Brasil’, o clássico.

EU ODEIO FAXINAR.

  • Dá trabalho mover as coisas de lugar.

  • A gente sua, independentemente da estação do ano e de onde moramos.

  • A gente sente que a vida está escorrendo pelas mãos.

  • A gente acha que deveria estar produzindo, vivendo algo de maior valor ou mostrando os dentes na internet.

  • Para quem ouve música enquanto trabalha, tem horas que a gente quer passar adiante uma determinada faixa, mas não consegue, pois está com as mãos submersas em algum líquido quimicamente corrosivo e de odor duvidoso, porém bem-intencionado.

  • Lembramos da nossa insignificância, da nossa capacidade de fazer lambanças.

  • Sabemos que, em breve, todo esse esforço vai precisar ser feito novamente.

EU AMO FAXINAR.

  • Movendo as coisas de lugar, a gente entra em contato com a relevância daquilo e pensa se aquilo ainda faz sentido existir na vida, ali, naquele lugar.

  • Suar é extravagância e privilégio de quem se permite pulsar, estar em movimento, circular, acompanhar o tempo.

  • O que há de maior valor do que cuidar dos nossos espaços?

  • Comparar-se com quem terceirizou essa faxina e está postando no mundo digital recortes de uma vida “sem tempo” para ela é perder a oportunidade de passar fio dental nestes dentes amostrados e, com isso, prevenir doenças bucais e constrangimentos futuros.

  • Sustentar uma música non grata por alguns instantes é treino para lidar com os ruídos da vida. Mesmo ‘faroeste cabloco’ dura apenas alguns minutos. Se acalme.

  • Lembramos da nossa capacidade de limpar o que deixamos sujo. Isso é imenso.

  • Todos os contratos precisam ser renovados, não é mesmo? Cada renovação é uma oportunidade de atualizarmos os termos; é bom lembrarmos sempre disso.

FAXINA TEM MÉTODO; PRECISA TER CRITÉRIOS, ACORDOS.

SE IMPLICAR NA TAREFA. ESCOLHAS.

NÃO ADIAR. QUANDO CHEGAR A HORA.

O OLFATO AJUDA. A AUDIÇÃO TAMBÉM.

Sempre que me deparo com a necessidade de uma faxina, eu sinto, inicialmente, raiva. Depois, sinto pena. Da tarefa, de mim, de quem está próximo, da vida. Uma emoção infantil, crua e procrastinadora invade meu corpo e diz: ‘hoje não, outro dia, eu prefiro brincar’. Uma noção adulta, incomodada e carioca rebate: “Bora, caralho, pega a porra desse pano logo e começa; quanto antes começar, antes termina.

Uma batalha espiritual. O pragmático venceu mais vezes que o lúdico, ainda bem. Brincadeira tem hora. Se a faxina for material, uma playlist atenta e bem feita faz o trabalho dela e a força chega. Se a faxina for simbólica, mergulhar no silêncio é o único caminho. Sustentar essa ausência de sons é fundamental para a gente se ouvir, principalmente.

A GENTE SABE QUANDO CHEGA A HORA DA FAXINA.

Ando assumindo um compromisso comigo de escrever mais, de respeitar a vontade de sentar diante do computador e, do nada, exercitar sensibilidades e mediocridades sem objetivos profissionais envolvidos. Coisa mais chata tudo ter que ser sobre trabalho, dinheiro, produtividade, relevância, status. Faxina feita, posso vir aqui brincar, e foi o que acabei de fazer. Obrigado pela companhia.

É muito bom não ter poeira de ninguém. É muito bom não ser poeira para alguém.

EU FAXINO, TU FAXINAS, ELA/ELE FAXINA. NÓS FAXINAMOS, VÓS FAXINAIS, ELAS/ELES FAXINAM.

Read the original on duetramonti.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.