No princípio-meio-fim, a ordem era o caos. A seta do tempo que parecia apontar sempre para o futuro ganha ares de loucura e a cada segundo escolhe uma nova direção. O tempo transmuta-se em constância e os impermanentes somos nós. Todos. Não temos fim até que venhamos a ter. O artesanear contínuo necessita de muitos dedos firmes para juntar e remodelar, ligar e refundir, coser e renovar. Os segundos se expandem, os minutos afrouxam, as horas correm devagar, os dias são eternidades e os anos nem existem. O passar não amansa, o passar destitui pouco a pouco a forma, os limites, os municípios, as fronteiras. Deforma o ventre, o vidro, a capa, a fotografia. Somos passageiros e não lembramos a exata estação em que escolhemos entrar no trem. A memória, tão capaz de guardar cenários, palavras, olhares e desejos, carrega o despreparo para saber o começo de nós mesmos. Nos tomamos ciência em uma consciência já andante. De sapatos gastos, sem conhecer o caminho. De feridas saradas, sem o sentimento da dor. De sílabas formadas, sem o domínio das vogais. Seria a imaginação tudo aquilo que a memória não consegue ser? O instante está aqui ou há muito já passou? E nós, somos apenas viajantes? Dar adeus é lembrar o momento exato do fim? Pode-se ver o futuro pelas asas holográficas de uma libélula? Será que a Terra lembra como começou? O encontro seria o nó entre dois tempos? O tempo sou eu. Volto à casa de minha mãe todas as noites que sonho. Todas as noites estou lá mas no último censo da cidade erraram por um número a contagem de pessoas. De repente, eu não estava mais lá. A cachoeira perto da casa de minha vó nunca mais sentiu o toque dos meus pés e das minhas gargalhadas. Eu acho que nunca os tirei, a água gelada continua em mim. Assim como as bonecas enfileiradas para o chá da tarde no chão de barro vermelho. A rodovia 116 me liga à minha cidade e, em minha memória, eu nunca parti de lá. Sentiu que poderia ser o mundo, na verdade, já o era. Podia girar sem parar e sem jamais cair. Podia conter todas as risadas e gargalhar de todas as piadas. Estava como que nas penas de um passarinho a bater as asas sem rumo. O tempo era todo a seu favor. Pelo calcar da risca anil, olhava-se nos olhos e o via na profundidade. “Lá vem ele”, gritava e gritava com muita alegria. Quanto mais gritava, menos ele parecia vir; a exclamação foi tanta que inebriou paredes maciças, madeiras carcomidas, pedras intocáveis e o ferro das maçanetas. O que era concreto remodelou-se em ondas escoantes. Ela dizia sem fim: “Ele chegou!!” e logo olhava-se nos olhos e retornava ao “Lá vem ele”. Tudo culpa da perda dos confins. Era uma consciência toda a preencher um trem. Vagava em linha reta até o mar, aquaplanando no brilho incandescente do sol. Não se constitui nem se desfaz. Se derrama lento e quase todo fulgás. Pará-lo? Sem possibilidade ou vontade. Então, pulou sobre ele, se deixou levar. O fio atarrachado ficou e foi. Ao longe, ele se fundia com o céu. De perto ele era o próprio mar. Penso em como começou tudo isso, mas lembrar de começos é quase tentar recordar em que momento você percebe que tem olhos, mãos, barriga e bunda. Me dou conta agora que não lembro o começo de nada, apenas os fins. fim do amor, fim do copo de refrigerante, fim da vontade de viver, finais de livros, última estrofe de música, a derradeira frase de minha tia preferida, os abraços de despedida, o momento exato em que olhei pela última vez nos teus olhos, o vidro estilhaçado, a carta rasgada, o poema amassado no lixo. Não me lembrava desse início, mas já desejava, com tristeza, o fim. Ao entrar por meus poros, descubro que o futuro engoliu passado e presente. Em qualquer instante, deglutia memórias que presenciei sem estar presente. Abocanhava o agora sem dó ou piedade. Triturava com dentes maciços, em barulhos estranhíssimos, a fala para que, ao engolí-las, eu não lembrasse de nada. Restou o nada. O dobrei, virei ao avesso, encharquei com suor, retorci. Tentei procurar nele os começos, as partidas, o primeiro olhar, as criações, os prelúdios. Não encontrei. O nada tinha aquela textura viscosa, pegajosa, transitava sua cor entre marrom sem sabor e cinza vulgar. Não tinha o que encontrar ali. Mói os sonhos. Tritura o tempo. Destrincha o sabor. De todos os ritmos, o tambor. Do artista, o desenho na fronte. “O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece. É o Sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.” De soslaio, a vi. A rua do fim. Ao mesmo tempo que estranhei, me impressionei. O fim não parecia com o que eu esperava dele. Não tinha um muro ou uma linha de chegada que o anunciasse. Não tinha pessoas enlutadas chorando pelo que já foi. O fim continuava e se enveredando em becos ganhava outros nomes. Ele era só mais uma rua que todo mundo passa no corre-corre do dia. Às vezes você nem sabe que tá passando por ele. Em outras, é lá que você quer chegar. E quando chega, sente que tá no lugar errado, porque descobre que ainda ama. A rua do fim era uma viela inacabada. Talvez para rimar com os transeuntes. Como confiar no futuro se ele nunca chega? No momento da crista, a onda já virou mar. No momento da despedida, retorna-se aos primeiros olhares. No momento da tensão, é que o fio ganha vida. No momento do passo, se antevê a força de querer ir. É uma queda no precipício, mas que lembra que cair pode também ter gosto de voar. Agarrar a chance de poder mudar o curso da vida. Virar o mastro para outra direção. Não seguir sempre para o norte. Na verdade, escolher uma nova constelação bonita e ir ao seu encontro. Mudar o ritmo dos ponteiros do relógio ou até nem olhar para eles. Escolher o caminho sem sonhar e almejar só a chegada. Se deixar perder. Sair do radar. Mesmo que tudo diga não, ainda é tempo. De voltar a cozinhar, de brincar de pega-pega na sombra, de desenhar nas paredes, de pintar o cabelo de uma cor fantasia, de escrever em cadernos. É bonito também, sabe? O sentimento do tempo, a paralisia da paixão, o medo do mundo e a coragem para o mundo, encontrar-se no desvio, o balançar na rede, a hipnose do ritmo do mar, se demorar nas cores do pôr do sol, no barulho da cachoeira, na confusão da memória, no frio na barriga pelo futuro. Não há espaço para despertadores. Há tempo para observar as brechas, os buracos, as intermitências. Um conjunto de muros assim tão grandes que não te impedem do céu. Você viu uma fresta. Esqueceram de erguer um último amontoado de tijolos, janelas, redes de segurança e porcelanato. Logo ali, naquele ínfimo não explicado pedaço de mundo. Logo ali em uma fresta, voa a vida. Como não preferir a desobediência? Como chamar a dor no peito que aperta, locomove e goza sem sair do coração? Sou uma produtora incansável de mim? Se colocássemos todas as palavras escritas em linha reta, daríamos a volta ao mundo? Por favor, guarde um pedaço de mim. Nas palavras presas na ponta da língua. No sabor impregnado nas digitais do dedo. Na velocidade dos vultos cantantes da janela. Nos dias, que ao esquecer de bater, o coração pulsa. Na cidade mutante que derruba histórias. No passo apressado, fustigado que não sabe onde vai. Nos limites do corpo inapreensível. Nas paredes pichadas com meu nome em tinta escoada. Nos abismos do tempo. No tempo da queda. No voo dos fugazes instantes. Quando esquecer o gosto do riso, me guarda contigo?
Eita, Lorena.

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