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um palpite a qualquer hora. · Jul 2, 2025

i will die your daughter

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duda travalin · um palpite a qualquer hora.

Kirsten Dunst, Bailey Bass, Delainey Hayles.

Três mulheres que deram vida a uma menina-garota-adulta que foi filha-irmã-amante de Tom Cruise, Brad Pitt, Jacob Anderson e Sam Reid. Mas, acima de tudo, foi a melhor vampira que poderia ser criada.

Cláudias ao longo de 30 anos.

Cláudia de Lioncourt de Pointe du Lac é muito mais que um arquétipo, uma personagem: ela domina a entrevista tanto em 1973, em São Francisco, quanto em 2022, em Dubai, mesmo que nenhuma versão de Louis ou Lestat tenha dado o devido valor a ela enquanto viva. Na sinopse de Entrevista com o Vampiro: A história de Cláudia é perceptível a complexidade que a envolve, desde sua criação até sua morte:

“Ela é a vampira que nunca deveria ter sido. Sua própria existência é tida como uma abominação entre as criaturas da noite. Com a luxúria de uma predadora aprisionada no corpo de uma criança, ela se move através das sombras de um mundo sempre fora de seu alcance. Órfã, filha, vítima e monstro…”

Escrita por Anne Rice como forma de canalizar seu luto pela filha, Michelle, que morreu aos cinco anos de idade devido à leucemia, a história da criança-vampira traduz a dor e a esperança de mais tempo com alguém que deveria partir muito depois. E é isso que senti com a Cláudia de Bailey e Delainey: falta de tempo, de atenção, de oportunidade e de poder. Ela me prendeu e remoldou minha visão sobre minha história favorita. Eu já não sabia mais como lidar com a grandeza que cercava Cláudia, então decidi escrever essa análise minuciosa.

Esse é um texto sobre luto.

>ᵥ_ᵥ<

No livro, ela é transformada aos cinco anos. No filme, aos nove. Em ambos, uma vingança de Lestat contra Louis, uma prisão. Associada à imagem de uma boneca de porcelana – perfeita, imutável e frágil –, foi explorada por Lestat para causar culpa a Louis, que se alimentou dela e a deixou para morrer.

Na série, Cláudia é alívio, é absolvição. E isso muda tudo.

Louis acredita que, se Lestat a transformar, não só sua relação com seu amante-criador se reconstituirá, mas sua existência terá algum sentido. Enquanto arrasta o corpo queimado pelo chão, implorando que a salve, as primeiras interações de Louis com Cláudia já se mostram fadadas.

“[Essa cena] solidifica a comparação de Claudia com uma boneca. É de cortar o coração. Há muitas metáforas nisso. Era como se ‘ah, isso é tudo que ela é para vocês’”

— Delainey Hayles, em entrevista para TV Insider

Independentemente da obra, ela não havia pedido por aquilo. Sua transformação foi fruto de um desejo de Louis e Lestat em se prenderem um ao outro e, em nenhum momento, ela é vista como algo além de uma filha, uma criança. E assim ela se viu por muito tempo. As primeiras palavras que ela escuta ao ser transformada são “você é nossa filha… filha de Louis e minha”. Como, então, se desvincular de algo que foi atribuído a você em seu momento mais vulnerável?

A conciliação entre garota e mulher foi angústia, mas também certeza. Cláudia entendeu seu lugar nas relações conturbadas de Louis muito cedo – sempre sendo amada, mas nunca sua prioridade. Ressentida pela morte de Lestat, trocada por Armand. Um incômodo para um, uma afronta para o outro. Cláudia acabou por sofrer durante toda a obra pelos erros de seus pais, e essa é a verdadeira tragédia de sua existência.

Louis: Tirei sua vida. Ele a devolveu.

Cláudia: E aqui estamos. E eu odeio a ambos.

Na primeira temporada – ou quando eles ainda vivem em Nova Orleans –, Cláudia aceita com facilidade a realidade que lhe é imposta, em que a morte significa sua sobrevivência. No Q&A da AMC, Bailey justificou esse conformismo pela vida que Cláudia levava antes do incêndio: “agora ela se transforma nessa vampira e há essas pessoas nessa casa enorme. Ela nunca tinha visto uma casa assim! Nunca sequer passou perto, nunca caminhou por ali, porque nem morava nas redondezas, e agora ela está dentro dessa casa. Ela tem todas essas roupas e se diverte brincando de se vestir. Só mais tarde, no episódio, é que ela percebe: ‘Espera, existe mais na vida do que isso’”.

meu gif favorito da bailey >.<

Por ter sido transformada ainda nova, Cláudia não teve a oportunidade de se conectar com sua humanidade, mas ainda assim ela a deseja. Desejava nos corpos de outras mulheres, na conexão entre mente e carne e nas relações que não podia construir. Essa crise entre identidade e repressão a empurra para reações emotivas e intensas, como guardar o corpo de uma mulher em meio a seus bichos de pelúcia ou colecionar partes do corpo de suas vítimas. Acompanhar o amadurecimento dela conforme os episódios vão seguindo foi algo que o filme não conseguiu transmitir, ou pelo menos não senti: a comparação entre o dia de sua transformação e a noite em que ela decide voltar para casa, ou até mesmo o momento da morte de Lestat, demonstra não só como ela cresceu como o quão cansada e resignada ela se tornou.

Cláudia é incrível: impulsiva, ambiciosa e devastadora, ela entendeu desde muito cedo o que era ser vampira, o que era negar suas vontades. Esse ciclo de conformismo em que ela está presa, acredito que seja o mais doloroso, já que ela não busca esperar nada com medo da rejeição, do abandono. Embora isso tenha feito dela forte o suficiente para compreender essa contradição entre menina e mulher em que ela transitava, Louis não compreendeu esse conflito até Madeleine.

“Eles estão se agarrando ao último resquício de amor que ainda têm. Mas isso não é suficiente. E, às vezes, essa é a parte mais triste – quando isso é tudo o que se tem. No caso da Cláudia, ela já é uma mulher adulta. No fundo, ela sabe o que está acontecendo. Eles estão em conflito, se afastando um do outro. E há também essa questão: quando é que eu passo a ser suficiente para alguém? Porque ela nem mesmo é suficiente para si mesma.”

— Delainey

Delainey comentou, também, que a dor de estar presa em um tempo que não a pertence mais atravessa todas as ações de Cláudia, consciente ou inconscientemente. “Ela não pode ser completamente uma vampira por causa das circunstâncias. É um sofrimento constante. Ela se sente extremamente desconfortável, mas ama ser uma vampira. E isso se manifesta em fúria. E não é uma fúria descontrolada. É totalmente válida.”, diz em entrevista ao Film Updates. A insuficiência que carrega se manifesta até mesmo na parte que mais adora sobre si, que é ser vampira.

“Estas limitações me irritavam e notei meu ressentimento aumentar à medida que me fechava amarga em mim mesma”

— Entrevista com o Vampiro: A história de Cláudia

Em Paris, Cláudia acredita que é ali que todas suas dúvidas e inseguranças serão sanadas, experimentando uma liberdade que antes lhe era negada. Ela encontra paixão na arte, na moda e na lealdade – o que antes era vinculado a Lestat, forjado à base de palavras ríspidas e confusas, encontrou um lugar especial em si mesma, diante da frágil promessa que Louis a fizera em serem só “eu e você”.

O Théâtre des Vampires lhe mostrou como ela podia ser mais. Mais vista, mais talentosa, mais violenta, mais bela, mais mulher. Ou pelo menos era isso que acreditava.

Baby Lou. Se não bastasse suas próprias amarras à infantilização, os theater kids da primeira geração a designaram um personagem que zomba de sua existência. Mon bébé aime les fenetrês conta a história de um bebê de vestido e sombra azuis que, por preferir ser livre, acaba se jogando da janela. Escutando novamente a música da peça, lembrei do poema de Alphonsus de Guimaraens, Ismália:

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

Cláudia, assim como a Baby Lou, almejava o mundo, um mundo que não as pertencia. E, buscando esse mundo, esse desejo, acabaram por sacrificar a única coisa constante: sua vida.

Todos haviam falhado com ela. Sua família humana, seus pais vampiros, até mesmo o coven em que ela tentava achar um lar. No julgamento teatralizado de I Could Not Prevent It, a expressão que carrega, com que encara Lestat, me fez soluçar de tanto chorar. Tive de pausar e dar uma voltinha, beber uma água. Saber que aquilo acabaria do pior jeito possível não me reconfortou, só me deixou cada vez mais indignada. Eles não a mereciam. Balançava a cabeça enquanto via as coisas horríveis que a acusavam enquanto só pensava que eles não mereciam Cláudia.

Levei três semanas para terminar esse texto. No primeiro dia, reunindo vídeos de entrevistas, edits e terminando o livro, revivi tudo que tinha sentido quando terminei o episódio 7. E uma passagem me marcou: os pensamentos de Cláudia durante sua morte.

Assim que o primeiro raio de sol surgiu, o medo se foi, seguido por uma contemplação harmoniosa. Foi uma vida abreviada? Uma morte a ser lamentada? Meus pais sombrios não me deram uma existência excessiva para uma contraparte mortal? No entanto, ultimamente, minha existência era insustentável, com o rancor dentro de mim transbordando para este delicado recipiente. Não sofreria mais.

Enquanto assistia essa segunda temporada torcia para que a equipe de direção, produção, que seja, mudasse a história. Quanto mais eu conhecia Cláudia, mais queria que ela vivesse, que fosse algo mais que uma experiência de aprendizado para os dois pombinhos vampiros. “Claudia is everything”, sim, independente do tempo em que se fala sobre ela, ela continua sendo tudo. E Madeleine a enxergou assim, desde o primeiro momento.

A versão de Madeleine Éparvier que me interessa não é a pseudo-mãe. Madeleine é muito mais que uma substituição para Louis e seu interesse – e amor – genuínos pela vampira me despedaçaram de forma irreversível (estou escrevendo esse texto, não estou?). Ela desafia Cláudia, questiona seu envolvimento com o coven e a força a se enxergar para algo além do que disseram que ela poderia ser. Você tem essas duas almas que são extremamente solitárias e elas encontram uma a outra nessa solidão, levando ambas a entrar em contato com algo mais profundo do que amizade, ou um simples romance. Cláudia e Madeleine tinham de se encontrar, de se vivenciar e de entender a raiva e a dor que a outra carrega. Apenas duas almas machucadas por terceiros poderiam construir algo tão delicado assim – não frágil, mas puro, sincero.

Elas são engraçadas, divertidas e verdadeiras uma com a outra. A liberdade em apenas ser é o que as leva a quererem passar a eternidade juntas. Um amor silencioso que foi florescendo de tal modo que ocupou espaço na vida de outros: na de Louis, de Armand e, também, na minha.

Louis: Is it romantic?

Madeleine: Not yet.

Embora a Cláudia do livro tenha narrado sua morte de forma melancólica e solitária, foi possível sentir todo o amor que a envolvia no final.

My coven is Claudia”, quatro palavras sussurradas que são maior que uma declaração, que não precisavam ser espetacularizadas, que não pertencem à plateia – apenas a uma mulher.

Read the original on dudatravalin.substack.com

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