RSS Amplifier

Do outro lado · May 19, 2026

Um Paul McCartney pra chamar de seu

0
Sign in to vote or save

Rakky Curvelo · Do outro lado

Meu namorado está praticando um novo hobby: ele está observando pássaros.

O nome em inglês, gourmetizado dessa prática é birdwatching. E aí o que acontece é basicamente isso: ele sai para caminhar com seu aplicativinho de identificação de cantos de pássaros e vai observando, nos diferentes habitats, como os pássaros cantam, que pássaros aparecem, quais cantos ele consegue gravar no app, quais pássaros ele consegue ver e ouvir… eu sei que parece coisa de gente velha porque, sim, somos pessoas já não tão jovens (não somos velhos, somos Pós-Jovem!), mas também é muito interessante. Mais interessante ainda se você considerar o fato de que eu namoro com um cientista ambiental, especializado em ecologia.

E aí você me pergunta, caro leitor, o que é que isso tem a ver com o Sir Paul McCartney. E eu respondo: absolutamente tudo.

Eu acompanhei meu parceiro em algumas dessas saídas. E eu, jornalista, marketeira, escritorazinha de araque, não normalmente reconheço como familiar quase que nenhum som que nenhum pássaro ao nosso redor emana (que desperdício!). Com exceção de um. O Blackbird - o passarinho preto.

- Eu: Espera, espera… esse eu conheço! É um blackbird.
- Ele: tem certeza? Deixa eu ver aqui…
- Eu: Claro que tenho, com certeza, esse é um blackbird.
- Ele: Como você sabe?
- Eu: fácil, tem uma música dos Beatles que se chama Blackbird e que tem o som dele cantando. Eu lembrei de ouvido.
- Ele: é… é um Blackbird mesmo. Me manda essa música pra eu ouvir depois?

Bom, eu e meu namorado temos várias coisas em comum, mas várias diferenças grotescas. Uma delas é que basicamente 90% do conhecimento dele sobre Beatles ou sobre o Paul veio de mim. Então, não é de se assustar que eu fui a pessoa que informou meu parceiro de que o Paul McCartney tem uma pequena fascinação por pássaros.

Na discografia do homem temos canções como Blackbird, mas também Jenny Wren, Two Magpies, Morse Moose and the Grey Goose, Single Pigeon e várias outras que, às vezes, não têm nome de pássaro especificamente, mas falam de pássaros. O homem teve uma banda chamada Wings gente!

Até criei uma playlist…

Mas aí eu me peguei pensando que, não é de se surpreender que o Paul McCartney tenha várias músicas sobre outros animais também, como vegetariano e defensor da causa animal desde o começo dos anos 70. E que com o tamanho do repertório dele, ele provavelmente tem uma música para absolutamente qualquer momento da vida de qualquer pessoa.

E como eu gosto de pensar em música como momentos em uma trilha sonora desse tempo que a gente passa no universo e chamamos de vida, comecei a me desafiar pessoalmente. Cheguei nessa lista meio bizarra, meio clichê de 10 canções que servem para momentos estranhos e que o Sir. Paul McCartney deu uma boa canetada a respeito.

  1. Pandemia de COVID-19 (ou qualquer pandemia, na real): Wings - “Band on the Run” (1973) Stuck inside these four walls

    Sent inside forever

    Never seeing no one nice again

    Like yoooou… mama… youuuuu…

    Sério, a letra dessa música inteira quase pode se relacionar àquele momento da pandemia em que a gente foi orientado a evitar sair de casa - aqui na Irlanda a gente teve proibição total, limitação de distância em metros e uma história pra contar em outro post - eu sei que no Brasil foi diferente, mas eu sempre penso nessa conexão quando ouço. Virou parte da minha trilha sonora da pandemia. Eu sei bem que essa música foi escrita num contexto absurdamente diferente, tá? Mas me deixa com a minha trilha, pode ser?

  2. Eu me apaixonei pela pessoa errada: The Beatles - “You Won't See Me” (1965)

    I won’t want to stay, (oh, la la la)

    I don’t have much to say, (oh, la la la)

    But I get turned away, (oh, la la la)

    And you won’t see me, (you won’t see me)

    You won’t see me, (you won’t see me)

    Time after time

    You refuse to even listen

    I wouldn’t mind

    If I knew what I was missing, (no, I wouldn’t, no, I wouldn’t)Não é Exaltasamba, mas o tio Macca tem umas 40 canetadas só nesse tema. Pra mim, a melhor de todas é essa. Eu acho que uma das coisas mais absurdas a respeito de como o Paul McCartney é um gênio da música é o fato de que, desde muito cedinho, ele escreve de um jeito que a gente consegue sentir o que o interlocutor tá sentindo. E essa música é um poço de dor e de confusão. Bem do jeitinho que a gente fica quando tá apaixonado por aquela pessoa que não tá nem aí pra gente.

  3. Recuperação da ressaca: Wings - “Picasso’s Last Words (Drink to Me)” - 1973

    Three o’clock in the morning

    I’m getting ready for bed

    It came without a warning

    But I’ll be waiting for you baby

    I’ll be waiting for you there

    So drink to me drink to my health

    You know I can’t drink any more

    Aqui a canetada foi muito específica: em um jantar com o Paul, seu amigão, amigáço Dustin Lee Hoffman perguntou se o Macca conseguiria escrever uma música sobre qualquer coisa. Quando o omi disse que poderia tentar, Hoffman entregou a ele uma cópia de uma Time Magazine que ele tava lendo, com uma matéria sobre o Pablo Picasso, que dizia que as últimas palavras do artista foram "Drink to me / drink to my health / you know I can't drink anymore” ou em espanhol “Bebe a mí / bebe a mi salud / sabes que no puedo beber más". O que Hoffman não esperava é que McCartney começasse ali mesmo a cantar uma melodia em cima das palavras. Dali pra música ser escrita foi um passinho. Eu acho essa história sensacional, então eu precisava incluir aqui, mas tá aí, trilha perfeita pro hangover, né?

  4. Música pra tocar no protesto vegano que você tá indo semana que vem: Paul McCartney - “Looking for Changes” (1993)

    I saw a rabbit with its eyes full of tears
    The lab that owned her had been doing it for years
    Why don't we make them pay for every last eye
    That couldn't cry its own tears
    Do you know what I mean

    Dia desses eu chorei (de novo) ouvindo essa música. Aqui a gente vê o Paul claramente dando suporte à causa animal e falando sobre como testes em animais são cruéis, desnecessários e bizarros. Obrigada, Paulzinho, seu lindo!

  5. Eu não sou irlandês mas sou fã da Irlanda: Wings - “Give Ireland Back to The Irish” (1971)

    Tell me, how would you like it

    If on your way to work

    You were stopped by Irish soldiers?

    Would you lie down, do nothing?

    Would you give in, or go berserk?

Esse hit foi censurado em todas as rádios do Reino Unido quando lançado. Escrita durante os conflitos dos chamados Troubles, mais especificamente em resposta ao “Bloody Sunday”, a música retrata a posição do Paul, como britânico com laços irlandeses, com relação à guerra e à disputa de territórios. O McCartney do sobrenome do homem entrega muito essa relação próxima com a Irlanda: Mc ou Mac é um prefixo bastante comum na grafia dos sobrenomes irlandeses e significa “filho” em gaeilge. Com isso, basicamente temos “McCartney” que significa algo como “filho de Cartney”.

Toda essa explicação pra dizer que sim, a parte do Macca que é daqui da Irlanda é absurdamente anti-Inglaterra.

Bom, eu acho que eu conseguiria ir além e falar das canções do New (2013) que é um dos meus discos favoritos - Appreciate é perfeita pra quando você quer dizer que tá aprendendo inglês com uma palavra chic e gostosa de dizer (inclusive essa é a minha palavra favorita da língua inglesa) e On My Way to Work é a trilha sonora perfeita para acompanhar as pequenas belezas da vida no caminho pro trampo. E eu nem falei do icônico Chaos & Creation in the Backyard (2005) , do lindíssimo Tug of War (1982) e de tantos outros. A lista é imensa!

Com quase 70 anos de vida pública e uma discografia que não tem comparação, é quase impossível você dizer não a essa pergunta, mas vamos lá: você tem um som do Paul McCartney pra chamar de seu?

  1. Paul McCartney - Days We Left Behind: meu amigos e minhas amigas, esse homem tem 84 anos. Ele poderia já ter se aposentado a uns 20 anos - no mínimo - e curtir a vida preguiçosamente. Ao invés disso, ele continua cantando, compondo e criando essas coisas lindíssimas aqui. O novo disco, Boys of the Dungeon Lane, chega no final desse mês, tem participação do Ringo Starr e eu estou ansiosa. Por enquanto, fica aí com essa apresentação fofíssima no SNL.

  2. Merlin, o app dos pássarinho: o aplicativo para identificar pássaros que eu mencionei no começo desse post é esse aqui. Além de conseguir identificar os pássaros, o app grava seus sons, registra com você os pássaros que você viu por aí e tem recomendações de quais pássaros você é mais propenso a ver de acordo com a região em que você está. É bem divertido!

  3. Baixa Fidelidade: se você é a pessoa ligada em música o tempo todo, gosta de descobrir bandas novas ou da nostalgia das suas bandas favoritas e ama uma curadoria interessante de assuntos aleatórios, prepare-se para se apaixonar pelo Baixa e pela Anajuts. Sério, me diverti demais com os posts sobre a Ceilândia, adorei a reflexão com David Bowie e descobri e estou viciada em Marcelinho Mete Bala. Vai na minha, confere lá!

E eu fico por aqui. Até a próxima!

Rakky

Compartilhar

Read the original on dooutrolado.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.