o Jorge me mandou essa série mais de uma vez.
na primeira, eu respondi qualquer coisa.
na segunda, eu não respondi.
um tempo depois, vi um vídeo que ele publicou falando dela.
meio rápido.
meio embolado.
alguém disse para ele que era comédia.
depois riu.
e emendou:
“é tão minha vida que eu achei forte no começo.”
teve uma hora que ele parou um pouco.
como se fosse escolher melhor o que dizer.
não escolheu.
só falou:
“eu nunca me identifiquei tanto com alguma coisa.”
depois disso, ele me mandou de novo.
aí eu falei:
tá bom. vou assinar e assistir.
o Jorge perdeu a esposa.
ficou com dois filhos.
eu conheci o Jorge nesse tempo.
desde então, tem coisas que ele fala de um jeito diferente.
menos organizado.
mais perto.
no fim de semana, comecei.
não parei.
tem uma cena em que ele está sozinho com a filha.
ela pede ajuda.
coisa simples.
levar pra escola.
ele diz que não pode.
tem trabalho.
eu fiquei olhando aquilo meio travado.
como assim não pode?
não é uma escolha difícil.
é só ir.
eu peguei o celular e mandei pro jorge.
falei que tinha ficado com raiva do cara.
uma raiva meio desproporcional.
vontade de atravessar a tela.
de dizer pra ele ir.
de não deixar a filha sozinha ali.
o jorge respondeu alguma coisa curta.
acho que ele entendeu.
tem outra parte em que ele descobre que a raiva não era de quem matou a esposa.
era dele.
eu pausei.
não pela frase.
pelo que ela abriu.
tem coisa que a gente não consegue perdoar na gente.
mesmo quando ninguém mais está cobrando.
isso não aparece em grandes momentos.
aparece no dia comum.
numa resposta atravessada.
numa conversa que não acontece.
numa presença que não chega inteira.
eu já fiz esse caminho de outro jeito.
fazer.
resolver.
cuidar de tudo.
escrever.
seguir.
como se desse pra atravessar só andando.
funcionou por um tempo.
ou pareceu.
mas tinha sempre alguma coisa ficando pra trás.
não em forma de pensamento.
em forma de gesto.
o jeito de falar.
o jeito de evitar.
o jeito de sair antes de encostar.
na série, ele começa a falar tudo.
sem filtro.
parece que melhora.
mas não melhora.
só muda o jeito de controlar.
depois vem outra coisa.
mais lenta.
menos visível.
ficar.
sem saber muito o que fazer com o que sente.
eu e o Jorge falamos nos intervalos da vida.
quando o cuidado com as crianças permite.
às vezes a resposta demora.
ele mandou a série como quem reconhece alguma coisa.
eu assisti como quem já estava dentro.
é estranho.
tem dias que a gente ri.
não porque está tudo bem.
mas porque, de algum jeito, segue.
não é sobre dizer tudo.
é sobre conseguir ficar
quando não tem muito o que dizer.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.

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