Pode haver algo logo depois dos portões do pedágio
Mas você nunca saberá
Planetary (Go!) - My Chemical Romance
“2026 é meu ano analógico”, declara Ruth no dia 1 de janeiro.
Ela começou bem. Planejou fazer aulas de cerâmica, pintura e bordado.
Decidiu que se matricularia em cursos — presenciais, óbvio. Assim como todos que conhecia, estava cansada das telas, dos algoritmos, dos posts escritos na mesma linguagem.
Não é só sobre a vida digital, mas também sobre ter toda sua atenção sequestrada por dispositivos eletrônicos.
Foi justamente quando percebeu seu pensamento nascendo formatado por IA generativa que optou por abraçar a trend dos hobbies analógicos.
Pelas suas contas, teria dois caminhos a seguir:
Rejeitar tudo relacionado ao digital. “Reject modern life, embrace tradition.”, leu em algum post. Ao clicar no perfil que o publicara, viu que havia caído como uma pata na armadilha; as outras postagens da conta vendiam a ideia de abrir mão de carreiras modernas para abraçar um papel tradicional de gênero… sempre se referindo a mulheres. Saiu do perfil antes que aquela ideia martelasse demais na sua cabeça. Estava tão cansada que temia se jogar de cabeça só para não ter que aguentar o chefe chato no dia seguinte.
Não ser tão radical, mas ainda diminuir a interação com o digital. Ela saberia a hora de largar a tela e fazer seus hobbies. Até funcionou, ela pensava. Mas no fim da semana, não notou nenhuma diferença no próprio bem-estar, nem uma diminuição no seu tempo de tela. Refletindo, percebeu que sempre acabava passando uns minutinhos a mais rolando o feed quando ia postar sobre seus novos hobbies, ou lendo um texto/assistindo vídeos de pessoas nessa mesma busca por um ano analógico.
Uma noite no fim de janeiro, passou mais de duas horas no banheiro olhando stories de conhecidos e de influencers. Após o banho, acabou encontrando uma série de vídeos de reforma de uma casa abandonada gigante… E ali se foram mais sei lá quanto tempo. Quando se deu conta, já passara muito da hora que queria dormir, seus olhos estavam cheios de luz azul, a famosa arqui-inimiga do sono no século XXI.
Ela poderia diminuir o efeito negativo indo dormir naquele momento.
Mas estavam demolindo uma parede com tanta facilidade…
Acordou no dia seguinte sem memória de onde tinha parado nos vídeos e com o celular caído do lado da cama.
Assustada mais uma vez com a sedução das telas, decidiu que faria um detox digital.
Caso você não saiba, existe um compartimento por trás de toda tela — ali no display mesmo1 — que abriga uma pequena vila de pulgas quase invisíveis ao olho nu. Essas vilas são responsáveis por te manter engajado e trabalham muito até refinar o ritmo certo de conteúdos para você.
Ninguém é imune, se elas ainda não acharam o seu, são determinadas a encontrar o ritmo que te prenda.
Engajamento é seu ganha-pão.
A maior crise possível? Um detox digital.
Assim que Ruth passa mais de cinco horas sem olhar o celular, a equipe de comportamento ativa o plano de contingência e acende o alerta amarelo.
Imediatamente uma notificação da rede social em que Ruth passa mais tempo é adicionada à tela. O palavreado é pensado minuciosamente para fazê-la clicar.
Ao entrar no aplicativo, o feed é curado de forma milimétrica para a ocasião, sem espaço para erros: apenas seus conteúdos preferidos são exibidos.
O alerta amarelo se apaga quando Ruth passa pelo menos 40 minutos rolando a timeline. A geração de energia do dia está garantida para a vila.
Mas elas não podem relaxar; Ruth logo desliga o aparelho.
Um destacamento especial de pulgas sai pela caixa de som do telefone e realiza uma travessia até o ouvido de Ruth.
Ao entrar, só precisam trocar uns fios de lugar e escrever um código rápido para corrigir a falha do sistema cerebral.
Veja bem, este texto não é uma denúncia. Seu valor está na curiosidade.
Para ser uma denúncia, tudo isso precisaria ser contra a vontade de Ruth.
“E não é?”, você se pergunta. “Ela escolheu fazer o detox.”
Correto. Mas quem disse que isso possibilita quebrar um contrato?
Toda essa operação estava prevista nos Termos e Condições da manufatureira do celular — com o qual Ruth concordou sem ler.
Semana passada não teve news pois eu estava 100% em função do show do My Chemical Romance e de Gerard Way.
Prós: fui nos DOIS show do MCR e curei várias coisas dentro de mim no processo.
Contras: tive que ir pra São Paulo.
A news dessa semana quase não saiu porque a ideia era criticar as falas sobre ano analógico, analog bag, etc como se não fosse outro sabor de nostalgia e/ou uma desculpa para estar “por dentro” da moda e postar sobre estar na moda nas redes sociais. Naturalmente o que me incomoda não é a moda em si, mas o paradoxo da crítica ao comportamento explicado acima vs. escrever sobre coisas analógicas — o que me leva a participar no tal comportamento.
Escrevi umas três versões desse texto na minha cabeça — uma criticando a economia da atenção, outra culpando o capitalismo e uma última sobre extraterrestres. A versao_final_fiNAL_FINAL é essa aí de cima… meio que uma mistura das três?
📺 Para assistir: Minha Lady Jane (Amazon Prime)
🎧 Para ouvir: Famous Last Words - My Chemical Romance
👀 Para ler: The Umbrella Academy (HQ)
display é aquela parte que quando quebra dizem que vale mais a pena comprar outro dispositivo que consertar. a verdade é que não conseguem ressuscitar a vila de pulgas.

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