Há uma tarde que fica dentro de outras tardes, pequena e sem solenidade, do tipo que se esquece se não for registrada:
Hoje abri uma caixa de sons que ainda não existiam. Não é uma afirmação grande. É apenas o que aconteceu, enquanto lá fora o mundo seguia com suas urgências e eu ficava aqui, aprendendo o nome das peças, a ordem dos fios, o jeito de ligar uma coisa na outra sem saber ainda o que vai nascer.
O professor era alemão e ensinava em inglês.
Havia no sotaque dele alguma coisa de criança ensinando a criança maior: aquela alegria de quem descobriu que o conhecimento cabe em menos palavras do que se imagina, e quer distribuí-lo antes que o cansaço chegue. Eu o assistia e pensava que é raro encontrar alguém que ensine sem querer impressionar. Que raro privilégio, sentar na cadeira do aluno sem ter de fingir que se sabe.
Faz dez anos que parei de fazer música. Dez anos é uma palavra curta para um tempo que vai depositando camadas sobre o que a gente era. Recebi prêmios, fiz turnês, apareci em capas de revista, e nunca me senti guitarrista de verdade, porque a guitarra sempre foi o meio e nunca o ponto. O ponto era a ideia se revelando na realidade, a física delimitando possibilidades, o som se tornando outra coisa.
Isso não tem nome de instrumento.
Há pouco tempo terminei uma sociedade. Era só nós dois: eu e um baterista extraordinário que ficava com o que sabia fazer, e eu ficava com o resto: o marketing, o branding, os vídeos, os áudios, a cara da coisa no mundo. Eu não me queixo disso, porque é o que sei fazer também, mas a felicidade foi minguando por dentro, devagar, do jeito que não se percebe antes que já seja tarde.
Então parei. Honrei o combinado, dois (três) anos, e parei.
Fui atrás de outras ideias.. Algumas ainda estão ativas, de pé, em banho maria. Mas percebi (e essa percepção dói de um jeito calmo, sem drama) que para construir uma comunidade que sente desejo de pagar pelo que se faz, é preciso dominar ferramentas que mais parecem feitiços, fazer concessões que me custam mais do que custam ao mercado. E o mercado é corrupto no sentido mais preciso da palavra: ele corrompe a forma das coisas até que as coisas percam a essência que tinham.
Olho pro que se faz hoje, incluindo amigos famosos, e vejo uma névoa cinzenta pairando sobre o que podia ser brilhante. Não é só quem produz coisa vazia: é também quem julga o que não consegue ler.
Há um caso recente que ilustra isso com precisão quase cruel:
Um rapaz de dezoito anos abriu sua redação de vestibular com “perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito”, e recebeu nota zero. A banca teve o texto inteiro, e, me parece que não soube o que fazer com ele.
“Procela” é tempestade, “condoreiro” é o estilo grandioso dos românticos brasileiros, “languidez recôndita” é o sofrimento que ninguém vê atravessando a altivez de quem segue em frente, enfim.. Há uma imagem ali, densa, exigente, que pede do leitor o mesmo repertório que exigiu do escritor. E quando o leitor não tem esse repertório, ou não tem a disposição de buscá-lo, o veredicto vira nota zero.
É isso que Roger Scruton chama de colapso do critério: quando o ambiente não aguenta ser desafiado, quem paga é quem exige mais.
Não vim aqui para defender o garoto nem para condenar a universidade.. Que se dane! Só vim registrar que decidi não entrar nessa névoa, nem na de quem produz sem nada dentro, nem na de quem julga sem entender o que leu.
Enquanto isso, três guitarras esperam num luthier que encontrei aqui em Ribeirão Preto. Elas estavam dormindo. E em algum lugar da salinha de jogos (aquela sala que recebe tudo que não tem lugar certo, e fecha a porta) há centenas - milhares - de cabos e conectores que vou ter de desenterrar um por um, com a paciência que às vezes me falta e às vezes me sobra.
Se vou voltar a fazer música? Talvez. Não espere.
Nunca foi assim que as coisas chegaram. As que chegaram de verdade, chegaram quando eu não estava prometendo, quando estava apenas ligando uma pecinha na outra, em silêncio, sem plateia. O jeito que conheço de fazer alguma coisa que preste.
Uma tarde pequena. Uma caixa aberta. Os fios, esperando.

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