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Decio’s Substack · Aug 14, 2026

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Descendo o machado · Decio’s Substack

Em primeiro lugar no nosso Segundo Concurso Afiado de Contos ficou O Problema das Cabeças, de Vinicius Machado.

(Antes que venham acusações de nepotismo, não há parentesco aqui; meu único irmão é o Caio Machado).

O conto segue abaixo. Volto depois com alguns comentários.

Na pequena cidade de Lerna, a vida seguia tão pacífica e próspera quanto era permitido por Zeus. No verão, principalmente durante as Celebrações Dionisíacas, a população local aumentava consideravelmente. Hoplitas, sátiros e centauros vinham de toda a Hélade para degustar o vinho local, na companhia das sedutoras nereidas do Mar Egeu, e se deleitar ao som de melodiosas cítaras.

Há cerca de um ano, vinda sabe-se lá de onde, uma enorme Hidra com corpo de dragão e sete cabeças de serpente passou a habitar as margens do lago local que emprestava seu nome à cidade. A presença da besta afetou profundamente o turismo da região e fez a economia local despencar.

O administrador da cidade, Taxonomus, e seu assistente pessoal, Asponídio, reuniram-se emergencialmente com comerciantes locais para informar sobre o plano que poria fim aos problemas com a Hidra.

— Nós ignoramos por tempo demais a presença desse monstro na cidade. Alguma coisa precisa ser feita com urgência! Só nesta semana perdi cinco ovelhas e duas vacas. Vamos esperar que esse monstro passe a comer pessoas novamente para tomar uma atitude?

— Nem me fale. Dois dias atrás, a Hidra invadiu a minha propriedade, pisoteou minhas oliveiras e ainda levou o meu burrinho de tração com arado e tudo. Se eu não estivesse mais magro e sofrido que o espantalho da plantação, provavelmente ela teria me levado também.

— Ordem! Ordem, meus caros cidadãos — disse Asponídio, contendo os ânimos. — Nosso nobre governante, Taxonomus, apresentará agora seu plano infalível para deter a temida Hidra.

— Prezados compatriotas! É com imensa felicidade que venho informar que encontrei a solução para o problema da criatura. Um corajoso guerreiro aceitou caçar e executar a horrenda Hidra em troca de algumas centenas de dracmas. Claro que, por conta desta despesa extra, precisarei reajustar algumas taxas municipais.

— Permissão para interceder a favor da Hidra, meu governante — disse Tetricus.

Tetricus era um dos mais proeminentes e requisitados artesãos locais. Sua especialidade era esculpir gravuras em lápides e mausoléus. Desde que a Hidra chegou a Lerna, Tetricus se viu obrigado a expandir sua oficina e contratar mais dois ajudantes.

— Esta criatura nobre e majestosa, tão viva quanto qualquer um de nós, merece seu lugar sob o sol. Se causarmos algum mal a essa magnífica prole dos Titãs, não tenho dúvidas de que Zeus, em sua ira, descerá sobre nós com seus raios devastadores.

— Não seja ridículo, Tetricus — interpelou o governante. — Nós sabemos muito bem quais são os seus reais interesses. E, se insistir nesse assunto, terei muito prazer em aumentar as taxas sobre serviços em cemitérios.

Diante da ameaça, Tetricus se encolheu, insatisfeito, proferindo dezenas de xingamentos inaudíveis por entre os dentes.

— Daqui a dois dias — continuou Taxonomus. — Meu fiel assessor acompanhará o valente guerreiro até o antro da fera para testemunhar a execução da criatura.

E assim ficou acertado.

Dois dias depois, Asponídio retornava da toca da Hidra para prestar contas ao governante.

— Temos um problema, meu senhor. O guerreiro que o senhor contratou se aproximou da besta enquanto ela dormia e, com um preciso e mortal golpe de espada, decepou uma de suas cabeças. Entretanto, para a nossa surpresa, no lugar do pescoço decepado nasceram duas novas cabeças.

— Que artimanha nefasta! — exclamou Taxonomus. — E quanto ao valente guerreiro?

— Devorado imediatamente pelas cabeças recém-nascidas.

— Compreendo... sim, sim, isso é um grande problema, mas creio ter entendido o que aconteceu e já sei como remediar. Ocorre, meu prezado Asponídio, que essa criatura provavelmente possui uma capacidade de regeneração tão espetacular que é capaz de contornar até mesmo um ferimento mortal. A solução para impedir que isso aconteça é golpear todas as cabeças ao mesmo tempo. Sem uma única cabeça para manter a consciência, ela não poderá se reerguer.

— Parece uma boa estratégia, senhor.

— Então está decidido. Asponídio, reúna oito guerreiros e leve-os até o lar do monstro para cumprir essa missão. Deixe bem claro para eles que os golpes deverão ser todos sincronizados. Infelizmente, para isso, terei que criar uma nova taxa de segurança contra feras para custear a empreitada.

Asponídio levou duas semanas para recrutar oito guerreiros, os mais valentes entre os tolos, para a cruzada contra a Hidra. Após instruí-los sobre a necessidade de uma sincronia perfeita na investida, guiou-os até o covil. Horas mais tarde, retornou para dar a notícia do ataque.

— E então? Como foi a tarefa? — perguntou Taxonomus.

— Bem, agora a Hidra tem dezesseis cabeças e o povoado, oito cidadãos a menos.

— Mas que Hades! Como isso é possível? Com certeza deve ter havido uma falha no sincronismo. Asponídio, reúna dezesseis guerreiros...

— Com todo o respeito, senhor, acho que já passamos dessa fase.

— Sim, sim. Tem razão, tem razão. Mas deve haver uma maneira de lidar com esse bicho e impedir que ele cause mais prejuízos. Diga-me, Asponídio, quando a Hidra chegou aqui, ela não costumava sair da sua toca no lago, não é mesmo?

— Sim, senhor. A Hidra ficava reclusa no lago de Lerna e se alimentava ocasionalmente de um turista ou outro que se perdia na floresta ou de algum caçador que fosse parar em seus domínios. Aliás, foi quando os nossos caçadores passaram a não retornar que descobrimos a existência do monstro. Mas, desde que o senhor aprovou uma taxa para quem se aventurasse na floresta, ninguém mais tem andado por lá.

— É isso! Asponídio, já tenho a resposta. Reúna todos os comerciantes novamente para eu informá-los da minha decisão.

Em poucas horas, todos se reuniram novamente na ágora principal. Estavam lá, inclusive, a viúva que perdera as vacas, o ancião mais fino que o espantalho e Tetricus, que, em forma de protesto, segurava um pergaminho com uma frase escrita em letras hercúleas: CABEÇAS SIM, TAXAS NÃO.

— Senhores, tenho uma solução que agradará a todos. Para que a Hidra fique restrita ao lago e não venha passear na cidade, todo mês, uma família enviará um dos seus membros para ser entregue ao monstro. Será uma espécie de taxa paga com a vida. E, para mostrar o quanto eu, Taxonomus, acredito nesta solução, a primeira família a entregar um membro será a minha.

Todos se entreolharam. Asponídio ficou tão surpreso que mal conseguia manter a boca fechada. Muitos pensaram em protestar, mas, se o governante estava disposto a sacrificar alguém de sua abastada família em prol da cidade, quem eram eles para discordar?

Após todos se retirarem, Taxonomus se arrumou apressadamente.

— Asponídio, cuide dos meus compromissos. Estou indo ao Templo de Hera.

— Ao Templo de Hera? Mas o culto lá só ocorre aos domingos.

— Não seja tolo, Asponídio. Não estou indo rezar; estou indo adotar uma criança órfã. Preciso dar o exemplo, Asponídio, preciso dar o exemplo!

Asponídio suspirou, resignado: — Se a moda pega, em breve não haverá mais órfãos no Templo.

— Calculaste bem, Asponídio, calculaste bem. Talvez eu crie uma taxa para adoção.

O conto é simplesmente hilário, desde os nomes dos personagens (para quem não sabe, “aspone” é popularmente o assistente-de-porra-nenhuma) até o desfecho, passando pelos diálogos e o contexto (pseudo-)histórico. Adorei a absurda expressão “Mas que Hades!” para parodiar a nossa “Mas que inferno!”. É um texto simples e direto, bem feitinho, até consegue encaixar um mini-antagonista ali na figura do Tetricus.

Gostei do paralelo entre as cabeças da hidra e as taxas municipais: ambas não param de se multiplicar. Note que nenhum personagem comenta esse fato, ou seja, o autor evita o didatismo, embora apareça um cartaz escrito em “letras hercúleas” (boa expressão satírica). De fato, a hidra não aumenta seu número de cabeças por maldade, mas por ser essa sua natureza, e parece que o impulso arrecadatório tem natureza semelhante.

Seria preciosismo indicar que a última fala do administrador utiliza a segunda pessoa (“calculaste” em vez de “calculou”), quebrando a consistência? Acho que sim, afinal os brasileiros não são famosos por tal consistência.

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Read the original on deciomachado.substack.com

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