Impostor cotidiano, 82 páginas, é da Moinhos
O livro se assume como uma novela e é de fato bem curto. Descontados a epígrafe e o posfácio, são cinquenta páginas. Está organizado em três capítulos, que podem até ser vistos como três contos.
No primeiro, o jovem Hugo chega à Alemanha para um intercâmbio, extremamente inseguro e ansioso. O texto investe no humor, com sucesso.
Seria assim, se eu não tivesse saído do banheiro com as calças sujas e desse de cara com alguém que obviamente é um intercambista, pois está com um blazer cheio de bótons, além de estar com o escrito na testa: me espanque.
No segundo, ele faz uma excursão com a turma da escola alemã: passam uns dias numa montanha para esquiar. Lá, ele interage de forma um tanto estabanada com os colegas adolescentes, os esquis e uma menina chamada Julia. O humor continua lá.
O professor continuava explicando, mas os alunos estavam mais entretidos com a minha tentativa de esfregar a neve com a cara. E todo corpo quebra. Jim desceu o morro para me ajudar. Todo corpo, todo corpo. Eu só conseguia fazer um gesto cruzando os dois braços dizendo no control, no control.
Ela se levantou e me perguntou alguma coisa em alemão, eu respondi, sim, estou com fome. Ela cuspiu perdigotos engraçados e repetiu a pergunta, desta vez mais devagar, ela queria saber como foi meu dia, se já conseguia me controlar.
A terceira parte é mais metatextual, um Hugo mais velho reflete sobre os últimos treze anos de sua vida, incluindo o esforço para escrever uma novela com o mesmo título da que estamos lendo.
“Na tentativa de finalizar a novela O impostor cotidiano, procurei meus cadernos de anotação da época do intercâmbio e senti um forte ímpeto de censurar tudo que estava ali.”
Segundo o narrador, o último capítulo dessa pseudo-novela contaria a história de como ele foi testemunha de um roubo e depois interagiu com a polícia para tentar identificar os culpados. A interação com a polícia deixa clara (ou deixaria, se o texto em questão existisse) a condição de imigrante de Hugo, o que o faz recordar de seus avós. A chave do texto muda e o humor dá lugar à melancolia enquanto ele rememora a infância e a relação com os antepassados.
Ficamos meu avô (inepto sobre a história da família) e eu sob a parreira, que naquele momento começou a transpassar finos anelos de chuva. Ela recomeçava. Meu avô levantou os olhos para encarar asgotas que caíam e caíam na contraluz do poste do quintal. A chuva empapava o solo do manjericão, do orégano, da goiabeira, das minhas memórias.
É bem escrito. A prosa cativa, sendo engraçada em certos momentos e lírica em outros. Só que eu gostaria que o autor tivesse escrito algo com mais ambição. O resultado é acanhado demais, o esforço é muito modesto.
Uma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
Está escrevendo um romance? Quer uma leitura crítica 100% sincera? Ou uma revisão? Escreva para decio.machadada@gmail.com
Gosta das resenhas? Considere o acesso pago. Só R$10 por mês.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.