“Entretanto, ainda asseguro que o mundo da leitura, o da palavra escrita, também me foi apresentado no interior de minha família que, embora constituída por pessoas em sua maioria apenas semi-alfabetizadas, todas eram seduzidas pela leitura e pela escrita. Tínhamos sempre em casa livros velhos, revistas, jornais. Lembro-me de nossos serões de leitura. Minha mãe ou minha tia a folhear conosco o material impresso e a traduzir as mensagens. E eu, na medida em que crescia e ganhava a competência da leitura, invertia os papéis, passei a ler para todos.”
Conceição Evaristo
Hoje a newsletter fica no limiar do conto "Olhos d'água", sem contar o que acontece dentro dele. Isso fica para segunda, quando começamos a turma de Leitura e Sociedade e chegamos à Aula 3, dedicada inteiramente a esse texto.
“Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?” Conceição Evaristo, em Olhos d’água
Aqui, mostramos como uma leitura crítica começa antes mesmo de a primeira cena acontecer, usando só o que qualquer leitor já tem em mãos ao pegar o livro: o título e o terreno temático em que ele se instala. É uma prévia de como funciona uma aula de literatura na Livre.
Em português, “olho d’água” nomeia algo concreto antes de qualquer metáfora. É a nascente, o ponto em que a água brota da terra por conta própria, sem represa e sem cano. Quando Conceição Evaristo escolhe essa expressão para nomear o conto que abre e batiza sua coletânea de 2014, ela coloca dois sentidos em tensão dentro das mesmas três palavras. Há o olho como órgão individual, ligado a um rosto e a uma memória específica, e há a água como fluxo contínuo e coletivo, que segue seu curso independentemente de quem observa. O título já decide, antes de qualquer frase da narrativa, que olhar e lembrar vão funcionar aqui como fluxo, como algo que brota e escorre continuamente.
Esse tipo de observação faz parte método que usamos na Livre, formulado por Antonio Candido em “Na Sala de Aula: Cadernos de Análise Literária”. O livro nasceu da própria prática de Candido em sala e parte de uma aposta simples: o texto literário carrega vários sentidos ao mesmo tempo, e esse é o pressuposto que orienta toda leitura que se pretende crítica. Um título já é matéria de análise. Ele condensa escolhas de som, de imagem e de sentido que organizam tudo o que vem depois.
“Olhos d’água” reúne quinze contos publicados por Conceição Evaristo em 2014, e o conto que dá nome ao livro é também o primeiro deles. A autora nomeou sua própria prática de escrita de escrevivência, uma escrita construída a partir da experiência vivida de quem narra, que dá voz a mulheres negras e periféricas historicamente mantidas fora do centro da narrativa literária brasileira. Ao longo da coletânea de Evaristo personagens como mães, avós e filhas passam por opressões de violência urbana, pobreza e racismo, e sustentam, ao mesmo tempo, vínculos de afeto e formas cotidianas de resistência.
Essa camada temática aprofunda a leitura do título. Se “olho d’água” é fonte, nascente, algo que insiste em brotar mesmo sob terra compactada, a obra inteira trabalha essa mesma lógica: memória e afeto que continuam emergindo em condições que deveriam soterrá-los.
O que fizemos até aqui, observar o título como dado de análise e situar o conto dentro do projeto maior da coletânea, é a primeira parte do método que aplicamos por completo na Aula 3 do curso. A segunda parte entra em cena só ao vivo: a leitura integral do conto, a discussão guiada, e o uso do conceito de sistema literário, formulado por Candido, que trata a obra como uma relação entre autor, texto e público, situada historicamente. Esse conceito ajuda a localizar onde “Olhos d’água” se insere na tradição da literatura brasileira contemporânea e por que ele segue importando para quem lê hoje.
Guardamos o conto de propósito. A aula em grupo, com tempo e mediação, é onde essa leitura se completa. Esta prévia mostra só o ponto de partida.
Para saber mais
O conto e a coletânea completa: Olhos d’água, de Conceição Evaristo (Pallas Editora)
O método que usamos em aula: Na Sala de Aula: Cadernos de Análise Literária, de Antonio Candido (Todavia)
Na segunda, 17/08, começamos a turma ao vivo de Leitura e Sociedade: Formação Crítica de Leitores. Três encontros, nos dias 17, 24 e 31 de agosto, das 19h30 às 21h30, pelo Google Meet. É na Aula 3 que fechamos essa leitura, com o conto completo e o método inteiro em ação, ao vivo e em grupo.
As inscrições fecham nessa segunda, no mesmo dia em que a primeira aula acontece.
Nos vemos na teletela mais próxima =)

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