Três e trinta e quatro da manhã de uma sexta-feira trinta e um de julho. Fim das férias. Estive lendo o Cemitério dos Vivos, romance inacabado de Lima Barreto, para um grupo de leitura. Enquanto lia, lutava contra (ou com) outras 79 abas abertas na minha mente, cada uma processando um aspecto distinto da existência: estou atrasado nas leituras de outros três clubes de leitura porque, quando me determinei a ler mais, exagerei nos compromissos (será que por um desejo não consciente de não ler mais?); perdi o prazo das provas desse mês na pós em Leitura e Produção Textual (de novo); não consegui começar realmente a pós em Psicanálise, Filosofia e Sociedade (de novo); é engraçado ver as pessoas dizerem que meu dia tem 48h sem verem de perto todos os prazos que perco; preciso continuar procurando a melhor forma de acumular mais milhas e pagar menos para viajar mais; preciso voltar à análise; por que as pessoas resistem tanto à psicoterapia? Pra mim, é muito óbvio que fazer terapia é pré-requisito para atuar na Psicologia (segunda graduação que estou cursando, já indo para o 8º semestre); quero voltar a escrever; sobre o que eu poderia escrever? O último capítulo do livro Diário do Hospício, também do Lima Barreto, é uma sequência de anotações aparentemente desconexas que ele registrou; será que cada anotação aparentemente desconexa dessa que estou pensando poderia ser um texto? As pessoas estão completando 10 anos de seus projetos e eu, on-line desde 2009, nunca consegui chegar a 3 anos realmente completos de alguma coisa; por que ser consistente é tão difícil para mim?
Imagino que você não contou, mas acredito que deu pra entender o que eu quero dizer com “79 abas abertas” (isso dá post, né?). Decidi (re)partir desse lugar: o da desordem. Pensar demais sempre foi uma questão para mim (ou a análise diria que é uma questão desde quando eu a nomeei assim). Já passei por várias fases dessa racionalização excessiva. A mais duradoura foi a do signo: “sabe com é, né?! Librianos são indecisos demais, imagina quando se é filho de libriana…”. A mais recente foi a de “quem não tem pensado muito diante da quantidade de estímulos da realidade algorítmica contemporânea?”. O fato é que nada tem feito minha mente parar de abrir processos e subprocessos em momentos completamente aleatórios. Já são quatro e cinco da manhã e só escrevi dois parágrafos porque fiquei longos minutos pensando se deveria mudar o nome daqui.
83 abas abertas.
Talvez, ao longo desses anos na internet, eu não tenha sido tão explícito sobre a angústia de pensar demais quanto fui sobre minha angústia com a passagem do tempo. Todos os projetos que iniciei, de alguma forma, tiveram longas dedicatórias à minha inconformidade com a transformação que o tempo causa nas coisas, no mundo, nas pessoas. Cheguei a pensar (claro que cheguei) se isso, na verdade, não vinha de uma ilusão formalista de que falar sobre o tempo e seus desvarios era um “jeito mais bonito” de escrever. Não era o caso. Eu tenho mesmo sérias questões com o tempo, com a memória, com o medo de nada disso ter algum significado (mas precisa ter?).
A bem da verdade, eu talvez não tenha sido explícito sobre muita coisa, ao longo desses anos na internet. Pensar demais sempre me deixou precavido demais. E se, um dia, por algum motivo relevante, eu me tornar notável e encontrarem tuítes controversos permeados por opiniões desatualizadas (quem não as tem?)? E se, um dia, oportunidades valiosas, especialmente profissionais, forem prejudicadas por uma foto na praia? A solução a que minha mente chegou foi a de fragmentar minha presença on-line, acompanhando, inclusive, uma tendência do marketing digital da última década. Cada nicho tem um público, cada público tem um interesse e cada interesse demanda um produto, então fragmente-se.
Um perfil para o professor; um perfil para os colegas de trabalho; um perfil para amigos próximos e alguns familiares; uma lista nos stories para contatos específicos que podem acessar conteúdos ainda mais específicos; um perfil para o estudante de Psicologia e futuro psicólogo; um perfil para falar sobre livros e - que ousadia! - filmes e séries também; aliás, um perfil em uma rede social só para registro de filmes e séries; e, claro, um perfil em uma rede social só para registro de livros; um perfil em uma segunda rede só de livros para o caso da outra fechar; um perfil em outras duas redes sociais de filmes e séries porque a primeira foi comprada e fechou (#riptvtime); uma newsletter para professores e conteúdos pedagógicos; uma para quando bater vontade de fazer crônicas; cabe um podcast? E um clube de leitura só para estudantes de Psicologia? Cabe outro clube para professores que querem ler mais? E essa foto legal da viagem vai para o feed, para os stories ou para o instants? De qual perfil? Pra todo mundo? No dia que foi tirada ou depois? Sem nenhuma edição? E essa pessoa do perfil para o professor que pediu pra me seguir no perfil para colegas de trabalho?
Isso porque eu nem falei dos endereços de e-mail.
89 abas abertas.
Eu quero (re)partir de algum lugar. E eu acho que esse lugar tá no meio disso tudo, gritando que eu já posso largar algumas dessa caixas, parar de etiquetar e categorizar tanto, entender que o caos é um dos maiores efeitos colaterais de existir. Eu acho que esse lugar quer me mostrar que dá pra pular episódios de podcast, que dá pra não ler uma newsletter até o fim, que tudo bem abandonar um ou dois livros pelo meio, que jamais será possível ganhar do tempo na corrida que é feita por ele. Não importa o quanto eu pense, jamais será suficiente para dar conta de tudo o que eu não poderei vivenciar no tempo que há. E isso meio que dá graça a tudo. Isso meio que faz parte de existir.
67 abas.
Six-seven.
61 abas.
Então eu vou partir daqui e voltar.
De novo.

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