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Daniel Lucrédio · May 26, 2026

FIM

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Daniel Lucrédio · Daniel Lucrédio

Fim do meu livro mais recente: Lua Cativa

Eu gosto de escrever “Fim” no fim dos meus livros.

Não faço a menor ideia se isso é cliché, se quebra alguma regra editorial, ou se é mal visto pelos leitores de hoje em dia.

Escrevo porque é uma marca. Um símbolo. Um selo. Mas não para o leitor.

Para o leitor, o fim é claro.

Se você está lendo o livro em papel, é óbvio que o livro acabou, porque acabou o papel.

Mesmo no Kindle, tem a marcação de percentual lido. Ele até te fala quanto tempo falta pra chegar no fim. Quando aquele mostrador fala que faltam 3 minutos, é porque ele já mediu seu ritmo, comparou com a quantidade de palavras restantes e decretou o momento exato que o fim chega.

Então, se é desnecessário para o leitor, pra que eu escrevo isso? Ou melhor, pra quem?

A resposta é óbvia, e bem pessoal. Escrevo pra mim mesmo.

Um livro longo, como um romance, leva um tempão pra ser escrito. E quando a gente começa, lá na primeira ideia embrionária, o momento de digitar essas três letrinhas parece muito longe. Inalcançável, quase.

E não apenas por causa do tempo, mas também porque o caminho é difícil. Cheio de incertezas, idas e vindas, escrita, reescrita, planejamento, desistência, mutilações desesperadoras, choro e ranger de dentes.

E se você for um escritor hobbysta amador como eu, o caminho é muitas vezes trilhado nas madrugadas e finais de semana já ocupados pelo cansaço.

Nesse cenário, digitar essas três letrinhas é um gesto sem utilidade aparente, mas que é rico em significados.

Significa sucesso. Não de vendas nem de conquista de um enorme público leitor, mas de uma vitória pessoal contra as dificuldades.

Significa perseverança. Escrever um romance é um ato solitário, que gera pouco ou nenhum prazer momentâneo, tão comum nesses tempos de vídeos curtos e feeds infinitos.

Significa resiliência. Chegar num ponto que só se concretiza depois de meses (às vezes, anos) de trabalho não é para quem desiste fácil.

Significa paciência. Escrever é trabalho de formiga. Letra depois de letra, formando frases, depois parágrafos, que concatenam ideias, que dão vida a uma estrutura, que proporciona uma experiência, que transmite uma mensagem, que, se tudo der certo, fica com o leitor depois que ele termina. Sem paciência, esse encadeamento fica todo quebrado.

Significa alegria. Quem já passou por isso sabe a felicidade que é finalizar algo desse tamanho. O livro pode ser uma porcaria, com personagens rasos, enredo fraco, ritmo enfadonho… mas terminar traz alegria. Sempre.

Significa aprendizado. Escrever um romance é tipo ler um romance. Todo escritor é leitor de sua própria história. E como todo leitor, ele aprende algo no final do exercício. Seja na técnica da escrita, no domínio da narrativa, na criação de personagens… não importa. O escritor que digita essas três letrinhas é uma versão evoluída daquele que começou a jornada.

E por fim, significa que já está na hora de pensar no próximo livro. Porque escritor, felizmente ou infelizmente, é um bicho cheio de histórias dentro da cabeça, e elas precisam sair dali uma hora ou outra.

E é por isso que vou continuar escrevendo “Fim” nos meus livros.

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Read the original on daniellucredio.substack.com

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