Olá escritores e leitores, trago aqui um breve relato.
Faço parte de uma comunidade de leitores/escritores no Discord, onde a gente se reúne para trocar textos, ler coisas uns dos outros, participar de eventos de escrita e conversar sobre literatura (além de outros muitos assuntos).
Sendo uma comunidade formada por pessoas, acontece de tudo por ali. E alguns desses acontecimentos são memoráveis. É um desses que vou compartilhar aqui.
Mas antes, que tal um aperitivo?
Uma analogiazinha rápida (prometo) pra abrir o apetite.
Você está num shopping grande, com fome.
Como muitos shoppings desse tipo, tem dois tipos de opção: os restaurantes gourmet (tanto os mais famosos, como Coco Bambu, Madero, Outback etc., quanto os menos famosos) e a praça de alimentação com os fast-foods de sempre (McDonald’s, Bob’s, Giraffa’s e «insira aqui as opções da sua região»).
Tudo normal.
Enquanto pensa onde vai comer, você vê, num cantinho meio escondido da praça de alimentação, um restaurante meio… diferente. Não tem mesas, só três banquetas de frente a um balcão meio acabado. A decoração é meio tosca, a parede tá descascando, mas parece bem limpo e organizado.
Você se aproxima, pega o menu.
Feito à mão com caneta BIC em uma folha A4.
Tem uma única opção.
Moqueca de Banana-da-Terra com farofa crocante de castanha-do-pará e toque de maracujá
Moqueca cremosa de banana-da-terra, cozida lentamente com leite de coco, pimentões e ervas frescas, finalizada com farofa de castanha-do-pará e notas cítricas de maracujá.
Preço: R$ 2,00
A única pessoa atrás do balcão é a própria chef, que vem te atender, sorridente:
— E aí? Quer pedir?
— Tá certo isso, moça? O preço é mesmo dois reais?
— Tá sim.
— Não pode ser! Com dois reais você vai ter prejuízo!
Ela ri e responde:
— Não vou. Esse prato é todinho feito com coisas que eu cultivo em um sítio da minha família. Eu mesma plantei as bananas, os coqueiros, as frutas e as hortaliças. A castanha eu vou buscar no meio do mato. E os temperos pego emprestado de casa mesmo.
— Mas e o seu serviço? Dois reais não pagam o tempo que você gastou para plantar tudo, nem para cozinhar.
— O preço é simbólico. Eu só cobro porque o povo desconfia quando a coisa é de graça. Na verdade, eu adoro cozinhar, então não ligo para o dinheiro. Só quero que as pessoas experimentem esse prato que eu fiquei cinco anos preparando.
Você dá um sorriso amarelo, devolve o menu para a moça e vai embora. Ela agradece, simpática, e volta ao seu lugarzinho.
Depois de passear mais um pouco, você fica com vontade de comer moqueca.
Vai no Coco Bambu, espera duas horas na fila, paga duzentos reais (bebida e serviço incluídos) e sai super satisfeito, pois a moqueca estava realmente deliciosa.
Voltando à vida real…
Nessa comunidade do Discord que citei, tive a oportunidade de conhecer uma autora que tinha um livro publicado no Wattpad (essa é a hora em que você pode torcer o nariz, se quiser). Combinamos de trocar feedback, e lá fui eu ler o livro dela.
O texto estava bem caprichado, claramente revisado à exaustão, pois não vi nenhum errinho de digitação. Alguns pequenos momentos de repetição de palavras, trechos onde daria para enxugar aqui e acolá, mas a leitura fluiu maravilhosamente bem. Narração em primeira pessoa, cheia de introspecção, que criou uma conexão fácil com a protagonista. E uma história envolvente, com começo, meio e fim.
Demorei umas duas semanas, lendo à noite, dia sim, dia não. Foi o melhor livro que li na minha vida? Não, óbvio. Mas foram duas semanas de uma experiência de leitura genuinamente prazerosa.
Aí fui lá, dei meu feedback, apontei aquilo de que gostei e de que não gostei, fiz os elogios e as críticas que achei que tinha que fazer. Ela também leu um livro que estou escrevendo, deu seus feedbacks e tudo certo — uma colaboração saudável. E aí, na nossa conversa, ela me solta essa bomba: “Esse livro demorou cinco anos pra ser escrito.”
Peraí… Eu li, em duas semanas, algo que levou CINCO ANOS para ser escrito?
Cinco anos de vida de um ser humano não é pouca coisa. Obviamente, esse tempo não foi gasto digitando de fato as palavras, mas quem escreve sabe o trabalho que dá. Escrita, reescrita, leitura atrás de leitura, horas pensando em como resolver aquele trecho mal explicado, caracterização das personagens, diálogos construídos na nossa cabeça, ritmo da história, estrutura narrativa… Sem contar o constante sentimento de “isso aqui tá uma porcaria” que imagino que todo mundo sente. Pra ajudar, tem as obrigações do dia a dia, do emprego, dos boletos chegando, porque são poucos que conseguem realmente sobreviver só com a escrita.
Imagina tudo isso diluído ao longo da sua vida por cinco anos.
Para, no final, você ter praticamente NADA de retorno. Ou, melhor dizendo, nada de concreto, palpável.
O que é que move esse esforço todo, em troca de nada?
Claro, você pode argumentar que quem escreve um livro espera reconhecimento e respeito, esse tipo de coisa. Mas isso é verdade para TUDO na vida, então não dá pra colocar isso na conta. Além disso, se alguém quisesse SOMENTE o reconhecimento, iria partir para algo mais fácil, como virar influencer, postar react em redes sociais, sei lá. Algo que dá retorno.
Repito, são CINCO ANOS, um horizonte distante e incerto, de uma jornada difícil e cansativa. Não me parece que a força motriz seja algo tão fútil.
Tem algo a mais.
E eu não sei você…
…mas da próxima vez que eu me deparar com uma barraquinha vendendo um prato que demorou CINCO ANOS para ser cozinhado, vou querer comer.
Não é meu intuito divulgar o livro, mas vou deixar uns links caso você tenha curiosidade de conhecer a escrita dessa “chef de cozinha”, além de outros que já li e que tem esse algo a mais.
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