sessões de terapia costumam acontecer uma vez por semana. mas é no tempo entre um e outro encontro que aquilo que é elaborado ali se coloca em movimento. é nesse intervalo que as dinâmicas desafiadoras que nos dispomos a observar ao longo de um processo terapêutico são confrontadas. é quando lidamos sem mediação com nossas emoções, pensamentos, com as delicadezas das relações, com reações automatizadas, com padrões persistentes (tantas vezes mapeados), com os rastros dos sonhos e, principalmente, com as sombras que tanto negamos.
o que a terapia mobiliza — seja pra fazer sentido ou pra fazer sentir — se apresenta para a experiência nesse espaço entre reflexões íntimas, que deve ser seguro e livre. 50 minutos semanais de escuta e auto-observação, e 1030 minutos de vida real, entre eles.
faz seis anos que publiquei o primeiro texto desta newsletter. comecei puxando papo “no pé do ouvido”, como era chamado esse lugar. estávamos no meio pandemia — aquele tempo fora do tempo que mudou o eixo da terra (e até o formato dela para alguns mais delirantes). de lá para cá, não posso enumerar tudo mais que se moveu. a vida deu cambalhotas e se transformou de maneiras que jamais poderia prever.
vi nascer de mim uma nova profissão. o olhei nos olhos da finitude bem de perto. entre despedidas, cuidei. e conheci a face frágil e efêmera da vida. o sopro. percebi que cuidar seria também meu trabalho. e assim: estudei e me aventurei pelas frestas da psique. aprendi e sigo aprendendo, dia e noite (especialmente à noite: porque sonhar é pedagógico).
seis anos superlativos que me transformaram em psicoterapeuta e analista junguiana, tornando tangível a síntese que me permite integrar ainda a jornalista, a escritora, a mãe, a companheira, a amiga e a mulher que sou.
sapatear nos teclados e patinar pelas tintas de bicos de pena, em telas, cadernos e letras, segue sendo meu jeito de transbordar visitas para além de mim. por isso, renovo minha presença aqui, e te convido a seguir por perto por pequenas pausas de leitura e reflexão — entre sessões —, em meio aos momentos disputados da vida cheia de falta (de tempo e de pausa) que vivemos.
hoje, neste recomeço, neste primeiro registro, trouxe a imagem de um coração de barro, modelado como ocarina — um antigo instrumento de sopro da família das flautas. ele, que soa sem bater, só se faz vivo porque há sopro — exigência da vida. além de boca, garganta, pulmão, oxigênio, diafragma e cérebro. então, peço licença à inspiração — que infla e preenche — e à expiração, que contrai, para que façamos valer essa troca presente e pulsante.
que entre sessões a vida possa soprar em nós. e que, nesse entretempo em que experimentamos nossas possibilidades, possamos olhar para tudo que for recém-chegado à consciência, escolhendo ferramentas para lidar com os pedidos da alma, quem sabe por caminhos mais gentis consigo e com o outro.
que tenhamos a oportunidade de conversar sobre a qualidade dos nossos diálogos internos e praticar novas possibilidades de integração em direção à sustentação das particularidades que nos tornam singulares parte do todo.
e que esse registro inaugural, aqui e agora, ainda que turvo, como esse coração de tocar música, seja vigoroso, e que nos impulsione a seguir em frente, inaugurando a existência dessa conversa intermediada pela vida.
se pudermos nos encontrar semanalmente por aqui, teremos, você e eu, a oportunidade de partilhar um instante. e isso será motivo de honra pra mim e, espero, bons momentos para você.
te agradeço a companhia e te espero no próximo encontro, entre sessões.
um beijo!
Dani Moraes
Dani Moraes, psicoterapeuta e analista junguiana,
jornalista e escritora. converso sobre esses temas
também no podcast Palavra — da pele pra dentro,
e no instagram @danielemoraes.
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