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ENTRE SESSÕES I Dani Moraes · Feb 18, 2025

#58: Para cuidar é preciso sentir

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Dani Moraes · ENTRE SESSÕES I Dani Moraes

Meu pai é o mais velho de uma família de seis filhos. Herdou o nome do próprio pai que, por sua vez, também o havia recebido como herança. Assim, Antonio Neto é o primogênito de uma linha sucessória que, além de nomes iguais, também carrega uma recorrência um tanto trágica de repetidos casos de Alzheimer. Dos seis irmãos, quatro foram diagnosticados com demência, entre eles meu pai.

No último ano, seu estado de saúde se agravou. Chegamos à fase mais avançada da doença, em que as habilidades funcionais começam a ficar comprometidas. Cuidar dele tem sido cada dia mais desafiador. E, extremamente, frustrante. Digo isso porque associamos a ideia de cuidar ao objetivo de contribuir para o desenvolvimento ou a recuperação de alguém ou, pelo menos, desejamos ver reduzir algum sofrimento. No entanto, quando cuidamos de uma pessoa com uma doença degenerativa, progressiva, a sensação é, inevitavelmente, de fracasso. Não há melhora.

Não à toa, dez entre dez pesquisadores alertam: cuidadores podem acabar adoecendo também – psiquicamente falando, sobretudo. Ciente disso, tento me manter atenta aos sinais de burnout empático – um tipo de exaustão emocional comum a pessoas envolvidas diretamente com o sofrimento alheio. Procuro me lembrar de que cuidar não pode significar me perder de mim mesma nem criar estratégias de anestesiamento como defesa.

Aos 7 anos, com meu pai (Natal de 1988).

Para isso, além de pequenos respiros no dia a dia, preciso de um lugar para SENTIR, sem a necessidade de consertar, resolver, decidir. O meu processo terapêutico pessoal tem sido esse espaço. Onde posso dizer em voz alta o que doi, o que cansa, o que me dá medo, quais são as minhas perdas, sem ser julgada fraca ou ingrata. Porque, para seguir cuidando, é preciso se permitir ser atravessada pelo que se sente. Sem fuga, sem anestesia, sem precisar provar que dá conta de tudo o tempo todo.

Assim, em meio a tropeços e acertos, encontro na terapia um campo de cultivo para algo essencial neste momento: o discernimento – que a mim está ligado a encontrar uma sabedoria sensível diante dos desafios. Nos dias fáceis, cumpro a lista de demandas: comprar novas meias antiderrapantes, administrar a burocracia e as finanças, a escala das cuidadoras, discutir a evolução do tratamento com o geriatra. Nos difíceis, o caminho do autoconhecimento me lembra de que também sou uma filha que, lentamente, vai se despedindo do pai, em meio a um mundo de decisões e tarefas.

É tentador fugir desse incômodo, mergulhando de cabeça nas demandas sem fim. Já que uma vida assoberbada é também um tipo de esconderijo. E esse padrão, uma espécie de fuga disfarçada, pode se apresentar tanto diante da necessidade de cuidar de um familiar doente, como na tarefa cansativa de criar crianças pequenas, liderar projetos profissionais desafiadores, estar à frente de objetivos ousados ou mesmo fazer uma prova ou entregar uma tese.

Diante da sobrecarga das responsabilidades impostas pela vida nos protegemos numa caverna de alta demanda que, apesar de estreita e opressora, acaba por ser também um refúgio. Traiçoeiro, certamente, mas que serve ao objetivo de nos deixar escapar dos sentimentos difíceis, como encarar a terminalidade da vida ou lidar com a aparente falta de sentido frente a desfechos inevitáveis.

Atoladas em afazeres nos permitimos a ruminação dos infortúnios, enquanto pagamos contas, respondemos mensagens e enviamos comprovantes pelo celular, sem questionarmos nossas motivações. Para que estamos vivas e vivendo? Para que acordamos todos os dias e fazemos coisas nem sempre agradáveis? Para que sustentamos situações, empregos, amizades, relações que nos maltratam? Para que preservamos hábitos que nos prejudicam?

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Semana passada, visitei um dos irmãos do meu pai que, também doente, está hospitalizado. Trocamos sorrisos e olhares profundos e azuis, característica que sempre conferiu a ele o status de mais bonito da família. Meu tio médico, oráculo que a vida toda foi consultado nos momentos delicados, como referência de bom senso e bom humor, quase não fala mais. Levei um tantinho de carinho e ele me presenteou, em silêncio, com renovados motivos para seguir.

Saí de lá pensando que, mesmo quando as coisas parecem pesadas demais, mesmo quando sentimos cansaço e desesperança, é através das conexões que encontramos, no não dito do afeto, uma luz — que gosto de chamar de amor. Um brilho que só nos alcança quando lembramos de manter uma fresta aberta para que as emoções verdadeiras iluminem nossos esconderijos assoberbados.

De um jeito ou de outro, a dor nos alcançará, a vitalidade será rarefeita, mas é possível enxergar o amor no fundo dos olhos de alguém. Nem que para isso seja preciso, ao mesmo tempo, sentir cada milímetro da incerteza da vida. Só assim acessaremos também a beleza das trocas, a força dos vínculos e a dinâmica salvadora de cuidar e ser cuidada.

Boa semana!
Um beijo!
Dani

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Read the original on danielemoraes.substack.com

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