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cafuné sabor lepra · Jun 17, 2026

A arte interrompe o mundo

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Daniel Duncan · cafuné sabor lepra

Fotografia: Jeremy Cox

Existe uma maneira muito eficiente de não experimentar uma obra de arte: transformá-la imediatamente em alguma outra coisa. Antes mesmo de terminar um filme, algumas pessoas já estão pensando no que podem roubar dele. Antes de terminar um livro, no que podem aplicar. Antes de olhar uma pintura, no que ela pode oferecer. É quase uma nova forma de analfabetismo, na qual a pessoa consegue consumir uma obra inteira sem nunca estar realmente com ela. É uma deformação profissional do artista, mas também é um sintoma de uma época em que até a contemplação precisa apresentar resultados.

Eu sinto isso na pele como humorista. Nenhuma área sentiu tanto essa transformação quanto a comédia. O humorista não precisa mais apenas construir material; ele precisa construir “conteúdo”. E existe uma diferença entre as duas coisas. Material exige tempo. Repetição. Fracasso. Vergonha alheia. Aquele velho processo humano de fazer uma coisa ruim muitas vezes até ela começar a ficar menos ruim, algo pelo qual passo mais do que gostaria.

Uma piada, por mais simples que seja, pode passar meses sendo lapidada até encontrar seu formato. O conteúdo, por outro lado, precisa existir na velocidade necessária para alimentar uma máquina que nunca dorme e tem mais ansiedade que todos os humanos juntos. Antigamente, como humorista, você pensava no timing, no silêncio, na reação da plateia. Hoje, muitas vezes, a unidade de medida da piada deixou de ser o riso no momento em que ela acontece e passou a ser o desempenho depois que ela é publicada. Basta um vídeo de 60 segundos, uma frase compartilhável ou um meme e, de repente, a pergunta deixa de ser “isso é engraçado?” e passa a ser “isso funciona?”. E essa talvez seja a frase mais triste que um humorista possa pensar em relação ao próprio trabalho, depois de “acho que o problema foi a plateia”.

Uma das transformações mais profundas do capitalismo é a nossa incapacidade de viver uma coisa sem imediatamente perguntar o que podemos fazer com ela. Não basta experimentar algo mais. É preciso extrair desse algo alguma coisa aí. O turista olha para uma paisagem e já imagina a legenda. O empreendedor escuta uma história triste e pensa em transformar aquilo em palestra. O artista termina uma obra e antes de sentir qualquer coisa já abre o aplicativo para descobrir se o algoritmo sentiu também. Ninguém parece mais presente. Estamos todos tão ocupados documentando a vida que mal sobra tempo para participar dela. Mas a lógica da extração ficou tão dominante que até a contemplação da arte passou a ser medida pelo que ela produz. No entanto, a arte sempre me pareceu pertencer à categoria oposta. Uma obra é uma das poucas coisas que não precisa justificar sua existência (ou não deveria).

Se você leu um livro e não teve uma ideia para um projeto, o que exatamente ganhou com isso? Se assistiu a um filme e não encontrou uma referência para usar depois, qual foi o benefício? Se visitou um museu e não publicou nada a respeito, a visita aconteceu? E não existe nada de errado em ser influenciado. O problema é quando a influência vira o único modo possível de relação. A palavra que melhor descreve esse fenômeno é “conteúdo” mesmo. É uma palavra reveladora porque não descreve uma coisa pelo que ela é, mas pelo trabalho que ela faz. A pessoa que inventou essa palavra merece um prêmio. Eu prefiro a guilhotina. Mas ela estava certa. Conteúdo é aquilo que preenche espaço. Alimenta a plataforma. Mantém a máquina funcionando. O capitalismo sempre desconfiou das coisas inúteis. Uma tarde sem produzir nada. Uma conversa sem objetivo. Uma caminhada sem destino. Uma obra de arte que não serve para nada além de existir. Tudo isso parece suspeito demais. Mas ainda acredito que a função mais importante da arte seja justamente interromper esse impulso e ter o atrevimento de não servir para nada.

Talvez por isso eu tenha ficado curioso para assistir a sensação do momento: Backrooms: Um Não-Lugar, do estreante Kane Parsons. O novo filme da A24 acompanha Clark, um proprietário de uma loja de móveis em dificuldades que descobre, nos fundos de seu depósito, um portal para um labirinto infinito de corredores revestidos por um papel de parede amarelo. À medida que sua busca por respostas se transforma em horror cósmico, sua terapeuta, Mary Kline, entra naquele espaço impossível para tentar resgatá-lo. Parecia o objeto perfeito para testar minha hipótese. Se existe um conceito construído sobre o fascínio do desconhecido, é a ideia de vagar por um espaço impossível sem mapa, sem lógica e sem respostas.

De fato, existe algo genuinamente perturbador no primeiro mergulho nos corredores infinitos do filme: a estranheza do espaço, a sensação de estar diante de algo impossível e a falta completa de respostas. É quando Backrooms está mais próximo de um pesadelo. Mas, conforme a narrativa avança, parece surgir uma necessidade quase compulsiva de explicar, categorizar e justificar tudo. Aquilo que era inquietante justamente por permanecer fora de alcance vai sendo reduzido a uma série de explicações, alegorias e conflitos psicológicos que soam menos profundos quanto mais tempo ocupam a tela. Acho um tanto quanto tosca essa insistência em transformar cada elemento fantástico numa metáfora importante sobre identidade, trauma ou percepção da realidade, especialmente quando ela se manifesta na relação simbólica entre paciente e terapeuta. Quanto mais o filme tenta provar que tem algo a dizer, menos interessante fica aquilo que está dizendo. Como acontece com frequência, a interpretação acaba sendo menos imaginativa do que o mistério. O que mais me chamou atenção, porém, foi como toda a imaginação do projeto parece girar em torno da experiência individual. Não existe comunidade, história ou humanidade compartilhada; só subjetividade, paranoia e interpretação psicológica. Não me parece coincidência que a ideia tenha nascido de alguém tão jovem. O filme olha para o desconhecido e imediatamente o transforma numa extensão da mente do protagonista. Eu teria preferido que ele continuasse sendo apenas um lugar estranho, indiferente e impossível de compreender.

Depois do filme, conversando com um amigo, ouvi uma defesa que achei mais interessante do que boa parte do próprio longa. Ele disse que tinha gostado porque a ideia era tão forte que, ao sair da sessão, já estava pensando numa história completamente diferente que poderia contar a partir daquele conceito. E acho que esse é o maior mérito de Backrooms. Há certos projetos cujo valor parece existir menos na obra em si do que no espaço imaginativo que ela abre. A premissa funciona como uma espécie de recipiente vazio que cada espectador preenche com seus próprios medos, teorias e narrativas. Essa parece ser a força do curta que deu origem ao filme, aliás. Tudo o que funciona no longa já estava lá, incluindo o uso da linguagem de found footage, que continua sendo a sequência mais forte de toda a produção. O curta oferece apenas o suficiente para ativar a imaginação e depois segue o baile.

O longa, por outro lado, parece desconfiar desse processo. Em vez de deixar que a audiência projete seus próprios significados, tenta fornecer os seus. O problema é que, quando finalmente nos entrega uma resposta, ela quase sempre é menos interessante do que as perguntas que o conceito provocava. Saí da sessão com a sensação de que Backrooms funciona melhor como uma ideia que você leva para casa do que como a história que decidiram contar. A questão não é que Backrooms devesse permanecer um mistério insolúvel. Toda narrativa, em algum grau, precisa fazer escolhas. O que me chamou atenção foi a aparente incapacidade de confiar na imaginação do espectador. E, nesse sentido, o problema parece maior do que o filme. É um impulso que atravessa boa parte da cultura. Por isso tenho encontrado no teatro uma espécie de antídoto. Um lugar onde a experiência ainda parece acontecer antes da interpretação.

Vamos colocar desta forma: é reconfortante entrar numa sala escura onde nada pode ser pausado, acelerado, compartilhado ou otimizado. O teatro exige permanência. Você senta a bunda na poltrona, assiste atores e coisas acontecem. A arte não é inútil porque não produz efeitos. Ela é inútil porque seus efeitos não podem ser exigidos. Eles acontecem ou não. Uma peça pode mudar sua vida. Outra pode apenas ocupar duas horas de uma terça-feira. E as duas experiências podem ter o mesmo valor. Você pode assistir a uma peça e sair sem nenhuma grande revelação. Pode ler um romance e não aprender nada aplicável. Pode visitar um museu e não produzir uma única postagem sobre isso. Ainda assim, coisas aconteceram. Não existe nada mais radical hoje do que dedicar atenção a uma coisa sem imediatamente perguntar o que ela pode fazer por você. É por isso que tenho pensado cada vez menos na utilidade da arte e cada vez mais na qualidade da atenção que oferecemos a ela. A verdadeira experiência artística começa justamente quando deixamos de perguntar o que vamos ganhar. Quando aceitamos que nem tudo precisa virar conteúdo, aprendizado, networking, posicionamento político ou capital cultural. Quando finalmente permitimos que uma obra seja apenas… uma obra. E nós, apenas espectadores.

Créditos: Celina Barbi

Um dos espetáculos de que mais gostei de assistir recentemente foi A Igreja da Fran, da palhaça e atriz Rafaela Azevedo. Eu já tinha gostado bastante de King Kong Fran, trabalho anterior da artista, e aqui ela dá continuidade a muitas das questões que já atravessavam aquele espetáculo: o confronto com estruturas de poder, a recusa da submissão e uma saudável falta de respeito pela autoridade.

Das coisas que mais gostei é que o espetáculo não parece particularmente interessado em negociar com o objeto que critica. Não há aquela cautela tão comum em obras que abordam religião e parecem passar metade do tempo tentando tranquilizar os religiosos presentes na plateia. Rafaela simplesmente segue em frente. Não pede desculpas. Não pede autorização. Não pede benção. Só vai.

O espetáculo assume a forma de uma espécie de culto religioso. Digo “espécie” porque a própria atriz comenta que, durante a pesquisa, evitou construir uma simples inversão satírica da figura religiosa. Segundo ela, o histórico de violências explícitas e veladas associadas às instituições cristãs tornava difícil qualquer tratamento mais lúdico ou caricatural do tema. Mas talvez eu discorde um pouco dessa leitura. Porque me parece que A Igreja da Fran trabalha justamente com a inversão, mas de uma forma mais sofisticada.

Uma coisa que sempre me chamou atenção é que boa parte do poder exercido pelas religiões não opera através da força, mas da arte. Pense bem. A fé chega ao fiel através de canções, sermões, imagens, arquitetura, literatura, encenação, figurinos e rituais. A religião sempre compreendeu algo que muitos artistas e políticos às vezes esquecem: histórias movem pessoas. A arte é o fio que conecta a mitologia à experiência cotidiana. Nesse sentido, o que Rafaela faz é muito interessante. Ela utiliza exatamente as mesmas ferramentas. Música. Texto. Imagens. Performance. Ritual coletivo. Mas, em vez de reforçar uma narrativa de poder, devolve essas ferramentas ao público carregadas de crítica. É como se tomasse emprestado o aparato simbólico da religião para desmontá-lo por dentro. A peça não destrói a religião argumentando contra ela. Destrói através da própria linguagem que ajudou a construí-la. O resultado, ironicamente, é algo bastante espiritual.

Já falei aqui algumas vezes como os filósofos existencialistas sempre foram os meus favoritos. É comum que as pessoas descreverem eles como pessimistas, mas o que sempre me interessou neles foi justamente a forma como, diante da ausência de sentido, insistiam que a arte permanecia como uma forma de resistência ao absurdo e uma das poucas coisas capazes de interromper a lógica brutal do mundo por alguns instantes. Veja bem: ela não resolve o absurdo. Não elimina a morte. Não responde às grandes perguntas. Mas cria uma fissura. Uma boa piada, por exemplo, é uma pequena rebelião contra a realidade. Por alguns segundos, as regras deixam de funcionar como deveriam. As hierarquias desmoronam. O sofrimento ganha outra forma. O mundo perde sua autoridade e sua lógica. A Igreja da Fran entende isso. E o resultado é sair com a sensação de ter participado de alguma coisa estranhamente próxima de uma experiência religiosa. Não porque o espetáculo ofereça respostas, mas porque, por algumas horas, faz aquilo que toda boa obra deveria fazer, que é suspender o mundo e nos permite imaginar outro. E, para mim, isso é o mais perto que vamos chegar da espiritualidade.

A Igreja da Fran está em cartaz em São Paulo. Tratem de assistir! Ingressos aqui.

Com amor,

Duncan

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