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Newsletters de Daniel · Jul 25, 2026

Antes de comprar aquela tecnologia, leia isto

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Daniel Coriolano · Newsletters de Daniel

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Na edição de hoje:

  • 🩸 A deixa do PRP e a armadilha que vem junto com qualquer lançamento

  • 🏗️ Por que um equipamento novo é sempre um serviço inteiro disfarçado

  • ⚖️ O método antes de comprar qualquer coisa para o consultório

  • 🙏 O que a prudência tem a ver com governar aquilo que você promete

Alguns médicos receberam três mensagens no mesmo dia.

  1. A primeira, de um colega animado com uma centrifugadora de plasma rico em plaquetas.

  2. A segunda, um anúncio de curso de fim de semana que prometia torná-los aptos a aplicá-lo.

  3. A terceira, uma planilha de faturamento com margens que faziam qualquer poupança parecer piada.

Todas chegaram na semana em que entrou em vigor a Resolução CFM nº 2.464/2026, que autorizou o uso do PRP em quatro condições osteomusculares. O mercado leu a norma antes deles e já tinha uma resposta pronta.

Guarde o PRP num canto da cabeça, porque esta edição não é sobre ele. Poderia ser sobre o laser que promete triplicar a agenda da dermatologia, sobre o aparelho de ultrassom point of care que todo generalista quer no consultório, sobre a plataforma de teleconsulta, o software de IA que lê o eletrocardiograma, o equipamento de estética que a ginecologia importou, o teste genético que o pediatra passou a oferecer. A tecnologia muda de nome a cada temporada. O enredo é sempre o mesmo.

A tinta da novidade ainda nem secou e já existe um ecossistema comercial montado ao redor dela: kits, fornecedores, protocolos, equipamentos, professores. Tudo isso vende uma sensação sedutora e falsa, a de que incorporar a tecnologia depende de comprar a máquina e aprender a apertar os botões.

A “aplicação dura minutos”, mas serviço em torno dela dura o ano todo.

Antes de usar qualquer aparelho num paciente, é preciso definir quem tem indicação real, quem se deve excluir, que exames pedir, quem opera o equipamento, como se registra tudo no prontuário, como se mantém a rastreabilidade do insumo e o que se faz diante de uma intercorrência às onze da noite de um sábado. No caso do PRP a norma explicita isso, exige produto autólogo, sem aditivos, produção conforme a Nota Técnica nº 29/2024 da Anvisa, licenciamento sanitário, infraestrutura de coleta e descarte, e ambiente hospitalar para os procedimentos de coluna. Mas troque o PRP por qualquer outra tecnologia e a lógica não muda. Todo equipamento carrega atrás de si uma cauda de exigências regulatórias, técnicas e operacionais que ninguém coloca no anúncio.

O aparelho é o item mais barato e mais visível de uma operação que, na maior parte, é invisível.

O verdadeiro adversário do médico é a velocidade comercial aplicada a uma decisão clínica complexa. O vendedor precisa fechar a venda esta semana, mas o médico precisa responder por esse serviço pelos próximos dez anos.

Por isso recomendo um processo formal para adotar qualquer coisa nova no consultório, e ele vale para uma centrifugadora, um laser ou um software.

  1. Inicie pela indicação clínica e pela norma aplicável.

  2. Depois avalie estrutura, equipe, riscos, custos, demanda e comunicação.

  3. Conduza uma implantação piloto, acompanho os resultados e reviso o protocolo.

Só então o serviço existe de verdade. Esse método tem uma virtude que ninguém vende em curso, ele dá permissão para desistir. Uma implantação com lacunas deve ser suspensa sem culpa, e o entusiasmo inicial raramente sobrevive a essa peneira.

Uma projeção baseada no custo do kit, ou da máquina, é uma ficção contábil. O valor inclui a avaliação inicial, os exames, a sala, o tempo da equipe, a manutenção do equipamento, o insumo, o acompanhamento e a capacidade de socorrer uma intercorrência.

Quem precifica só o item comprado está subsidiando o próprio risco.

Há uma tentação particular nesses lançamentos, a de deixar a publicidade falar mais alto que a clínica. Regeneração garantida, cartilagem reconstruída, a cirurgia que você nunca mais vai precisar fazer, o rejuvenescimento definitivo, o diagnóstico infalível por inteligência artificial.

As vezes a promessa infla na proporção exata em que a evidência se cala.

Prudência é a reta ordenação da ação ao bem real e o médico que incorpora inovação com juízo preserva o discernimento clínico sob pressão comercial, informa o paciente com honestidade e constrói uma operação capaz de sustentar aquilo que anuncia. Ele entende a tecnologia e, mais que isso, governa o serviço que criou ao redor dela.

Uma técnica autorizada continua exigindo domínio, indicação criteriosa e capacidade institucional e a novidade nunca dispensa o médico, ela o convoca com mais força.

Você já comprou algum equipamento ou fez algum curso empolgado com a promessa e depois descobriu que faltava metade da operação para colocar de pé?

Responda este e-mail e conte qual foi. Leio todas as respostas, e as melhores histórias viram material das próximas edições.

  • 🔹 Autorização e disponibilidade de uma tecnologia são uma etapa da decisão, não a decisão inteira. Evidência, regulação, custo, consentimento e gestão de intercorrências entram na mesma conta.

  • 🔹 O equipamento é a parte mais barata e mais visível de um serviço que é, na maior parte, invisível.

  • 🔹 Precifique a estrutura, nunca só a máquina. Quem cobra o custo do aparelho está subsidiando o próprio risco.

  • 🔹 A publicidade molda a expectativa do paciente. Prometa só aquilo que a ciência sustenta.

Read the original on danielcoriolano.substack.com

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