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Na edição de hoje:
🪐 Por que a "solução única" nunca organiza o consultório
🩺 O paralelo entre o paciente que toma o remédio errado e o médico que aposta tudo no Instagram
⚙️ Como pensar o consultório como sistema e atuar nos pontos prioritários
São mais de cinquenta especialidades médicas e há uma cena que se repete com uma fidelidade litúrgica: o colega chega convencido de que descobriu o problema do consultório... (sempre no singular). Falta marketing, ele diz, preciso gravar mais vídeos para o Instagram. Ou então: o problema é dinheiro, vou contratar alguém para as finanças e resolvo.
Ele identifica um distúrbio, atribui a ele todo o peso da desordem e parte para a conduta única, com a fé de quem encontrou o diagnóstico que explica tudo.
Eu reconheço esse movimento porque o vejo também do outro lado da mesa, no paciente. O médico prescreve o fármaco e orienta mudança de estilo de vida. O paciente volta e diz que não resolveu, que tomou o remédio e até entrou na academia. Quando você pergunta, descobre que ele caminhou quinze minutos pela manhã, sem elevar a frequência cardíaca, e considerou que isso era exercício. A alimentação continuou igual. Ele cumpriu um fragmento da orientação, chamou o fragmento de tratamento completo e estranhou o fracasso. O consultório do colega adoece da mesma lógica.
Há algum tempo proponho uma imagem para reorganizar essa cabeça. Pense na medicina inteira como o universo. Dentro dele, galáxias. Dentro das galáxias, sistemas. Um desses sistemas é o seu consultório particular, e nele o paciente ocupa o lugar do sol, o centro em torno do qual tudo gravita. Cada planeta em órbita representa um ponto sensível: o marketing, o fluxo de caixa, a precificação, o relacionamento com o cliente, aquele CRM que não tem nada a ver com o Conselho Regional de Medicina.
O ponto da metáfora está justamente onde o colega não olha. Você pode resolver o planeta marketing com perfeição, gravar os vídeos, crescer o alcance, e ainda assim ver o consultório em desordem, porque os outros planetas continuaram fora de órbita. Um corpo desgovernado colide com outro e danifica a ordem que deveria ser natural. Ocupar um planeta e abandonar os demais não estabiliza o sistema, apenas desloca o ponto de colisão.
A proposta que faço é menos sedutora do que a promessa da solução única, e por isso mesmo mais honesta. Trate o consultório como sistema. Identifique os pontos prioritários, atue neles primeiro, depois siga em velocidade de cruzeiro, ajustando um planeta de cada vez. Esse ajuste fino é cotidiano e não acaba, porque a imprevisibilidade pertence à vida. Vão cair asteroides, vão surgir meteoritos, como diria o Chapolin, e caberá a você responder a essas intempéries, próprias de quem aceitou a condição de médico gestor.
Há uma humildade necessária aqui, que reconheço como parte do trabalho e da própria vocação. Nenhuma conduta isolada governa um sistema complexo, assim como nenhuma prescrição isolada governa um corpo humano. O esforço ordenado, longitudinal, paciente, é o que revela um consultório mais promissor e ascendente. O resto é a tentação de querer que um único planeta carregue a órbita inteira.
🔭 O paciente é o sol do seu sistema. Tudo gravita em torno dele, ou não gravita coisa alguma.
🪐 Cada planeta fora de órbita é uma colisão adiada.
⚓ Velocidade de cruzeiro vence pressa: um ajuste fino de cada vez sustenta o sistema.
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