Creamer nasceu em 1973, em Filadélfia. Começou a sua jornada musical como trombonista antes de se mudar para Nova Iorque no início dos anos 90. Lá, juntou-se à lendária Eightball Records — primeiro como trabalhador na loja de vinis e depois ascendendo a A&R — imergindo-se na cena house underground. Em 1995, juntou-se a Stéphane K para formar a icónica dupla Creamer & K, produzindo sucessos e remixes marcantes para artistas como Moby, New Order, Kosheen e Sinéad O’Connor. [Hits de referência: iiO – Rapture – John Creamer & Stephane K Remix // Kosheen – Hide U – John Creamer & Stephane K Remix].
Em 2002, foram nomeados ‘Remixers of the Year’ e convidados por John Digweed para misturar a Bedrock Vol. 4.
Através da sua editora NY Love Records, Creamer continuou a combinar a visão artística com o sentido empresarial, produzindo sucessos e cultivando talentos, tudo isto enquanto preservava a integridade da cena underground dos clubes.
Tilintar, marteladas, sons de cozinha – essa foi a minha primeira interação com John Creamer – ou, pelo menos, os sons de fundo que fazia… aparece no meu ecrã, com um copo grande de água gelada. «Olááá, como estás?» A partir daí, mergulhámos na conversa…
…Sobre Portugal…
Bom, acho que o público desta revista provavelmente conhece Creamer & K. Temos sido um grande nome em Portugal há algum tempo. O meu primeiro disco saiu em 93… ainda era jovem… Só tenho 50 anos… 51? ou 52, não sei bem. Nasci em 73, por isso, seja lá o que isso faça de mim. Acho que 52, caramba. Tenho uma gémea, tenho de perguntar-lhe! (risos…)
Trabalhei em editoras discográficas, ao mesmo tempo que produzia. Depois, nos anos 2000, comecei a fazer digressões em Portugal – e pelo mundo. Na altura, em Portugal era gerido por uma empresa de promoção ou agência de DJs, que mantinha sempre a mesma equipa. Eu tocava em Portugal, a cada de dois meses sensivelmente, às vezes várias vezes por mês. Costumava ir bastante. E depois a pessoa dessa agência deixou de trabalhar… Além disso, a música entrou numa cena EDM, da qual acho que nunca recuperou totalmente – na verdade acho que ainda está um pouco assim.
Os DJs mais antigos, underground e credíveis estão a tocar em salas com cerca de 400 pessoas!
…Sobre a mudança do underground… e a tornar-se comercial acidentalmente…
[A cena de hoje em dia] Tem uma vibe de festival grande. Os DJs mais antigos, underground e credíveis estão a tocar em salas com cerca de 400 pessoas, simplesmente não atraem multidões. Acho que me incluo nesse grupo demográfico. Ainda vou em digressão, mas o público é cada vez mais pequeno… Quer dizer, posso tocar para jovens se souberem apreciar a minha música, se tiverem algum tipo de pensamento crítico, e se forem orientados para coisas artísticas… que é a razão pela qual sou visto de uma certa forma – a minha música tem uma base artística.
Tenho uma boa noção do lado comercial das coisas, porque trabalhei em editoras discográficas, em lojas etc. Por isso, compreendo os mercados.
Fiz discos que foram êxitos, que foram ouro, e estiveram na rádio. E ainda tenho coisas que faço que são bem sucedidas. Mas a música underground não tem tantas hipóteses. Porque as massas têm jovens. A minha audiência tem jovens que têm empregos: Não andam a curtir todos os fins-de-semana, a sair de quinta a domingo e depois a levantarem-se na segunda-feira para ir trabalhar. Portanto, é uma cena diferente. Nem sequer sei quando é que mudou… talvez por volta de 2007, talvez 2010. Não sei, não estive atento a isso. Em 2010, estava um pouco farto da indústria. Pensei: Será que sou o único a fazer discos underground? Toda a gente estava a fazer tentativas comerciais. Quer dizer, eu tenho discos comerciais, mas não foram feitos para serem comerciais. Aconteceu que venderam, que é ótimo!
Depois do seu curto desabafo, Creamer ergue o copo em gesto de brinde, sorri e diz: “vodka! Não, não estou a brincar!” (ahahah)
Falta Coragem. Pessoas que arrisquem!
O que achas que falta na cena musical atual? O que gostarias que fosse, se pudesses…
Sem pensar duas vezes, Creamer responde: Coragem. Pessoas que arriscam. Há coisas interessantes, coisas muito giras mesmo. Só não há pessoas suficientes no marketing, acho. É mais fácil comercializar o que já foi comercializado de forma eficaz. Então, basta seguir um plano pré-estruturado.
Eu diria para mudar as pequenas coisas que se adequam ao plano de cada um. Mas para comercializar coisas assim, talvez seja necessário pensar um pouco mais: tanto o profissional de marketing, como no mercado em si. É importante apoiar coisas melhores, cinema sustentável. Em qualquer iniciativa artística, há este problema, ou esses problemas: há quem crie… e quem se aproveite da criação.
Ou seja, é preciso encontrar o timing entre, o que é eficaz antes que alguém roube a ideia, e assim ganhar credibilidade. Mas depois enquanto artista, já perdeste o interesse todo porque o processo de criar algo levou dois anos, por exemplo. Ouço falar de pessoas que estão a remisturar músicas antigas, porque agora é possível usar os stem cutters. E a tecnologia já existe, então é possível simplesmente tirar a voz de um disco da Pat Benatar, por exemplo. E estes discos estão a ser lançados! E eu fico a pensar, isto é um problema! É a pior forma de dance music possível. Sinto que estes discos são feitos para jovens universitários que não têm nenhuma real afinidade com a cena, simplesmente não se conectam com os criativos. Não me importo se não querem saber de mim. O que é facto, é que faço parte da evolução da house music. Houve pessoas antes de mim que, com todo o respeito, aprendi com eles. Mas sinto que os jovens de hoje em dia … passam pela cena por um tempo porque lhes dá estatuto ou assim, sabes? Entram e saem. Questiono a dedicação de muitas pessoas – dos novos artistas. Mas qual era a pergunta? Tenho tendência a divagar…
Os festivais deveriam desaparecer. Deram cabo de toda a club scene.
A pergunta era… o que achas que está a faltar no mundo da música?
Dedicação. Arte credível. Pessoas a apoiarem arte em vez de finanças. Hoje em dia, tudo é tão baseado no resultado financeiro. Os festivais deveriam desaparecer. Deram cabo de toda a club scene. Eu gosto de discotecas. As discotecas estão a começar a desaparecer. Discotecas e clubes noturnos a sério. Esse tipo de coisas andam de braço dado. A cultura dos festivais tem vindo a matar lentamente a cultura dos clubes – Mas a música também.
Só estive em dois festivais onde toquei. Não costumo ir a festivais. Gosto de discotecas sujas: paredes molhadas, tetos baixos, não se consegue ver nada. Se me pagassem uma quantia absurda para tocar num festival e eu pudesse tocar o que quisesse, claro. Sem problemas. Mas entrava e ia-me embora. Faço isso nas discotecas de qualquer das formas. Entrava, fazia o meu trabalho e ia-me embora.
Mas, sim, integridade, seria a palavra-chave para a toda a cena. Integridade artística. Há muita integridade quando se trata de ganhar dinheiro. É ótimo ganhar dinheiro, mas não à custa do futuro das coisas, sabes? E as pessoas dizem, ah, tudo está a mudar. Bom claro que está a mudar! Mas a mudança é completamente deturpada! Dizem-me tens de acompanhar as mudanças. Tenho? Na verdade não, não tenho. Posso apenas fazer o que faço e não serei a estrela aos olhos da cena, do mercado ou da editora porque estou a vender menos do que alguém para fazer algo que já fiz há cinco, dez anos.
Ouvi uma música da Pat Benatar. Por isso é que falei na Pat Benatar. Estava no ginásio e pensei, oh, não. Oh, não, não. Saí do ginásio. Era uma versão house de ‘I love rock and roll’ e eu fiquei tipo, isto é ridículo!
Devo dizer que a ironia da situação me fez rir.
…Sobre Inteligência Artificial e gosto…
Aliás, até parecia ter sido IA a fazer a remix, e provavelmente foi. Agora, eu compreendo a utilização da IA, quer dizer, a IA é okay, mas só faz coisas que já foram feitas antes. Isto é apenas um facto. Não pensa por si própria. Faz coisas que já existiram e com as quais se consegue relacionar – baseia-se em estatísticas. Mas se disseres, ah, faz um remix como esta ou aquela – isto é um problema grave para mim – e para a cena. Porque são apenas mais músicas descartáveis. É também uma perda de tempo. Agora tenho de ouvir 800 músicas por dia só para encontrar uma. Deviam ter uma secção no Beatport: isto é mau e isto é bom. Entendes? Assim perdia menos tempo.
Às vezes tento ser justo: será que o que eu acho que é mau, é mau? E de certa forma é. Há coisas de que não gosto que não são más. E há algumas coisas de deep house que não estão nem perto do meu gosto. Aí penso: isto está bem feito. Mas depois há coisas como a da Pat Benatar. Preferiria ir ao dentista enquanto faço o IRS do que ouvir aquilo. É irritante. Faz-me não querer estar vivo tanto tempo quanto tenciono estar. Tás a ver? Quando ouço coisas assim. Estou a ser dramático, mas é verdade!
A próxima questão era sobre a direção que a música está a tomar… Mas acho que já não vamos entrar por aí… (risos malandros!)
Ah, sim. Está só a ficar cada vez pior. E acho que vai continuar a piorar — cada vez mais. Acho que neste momento já há alguma reação ao quão miserável anda a cena de clubes. Agora vêm todos com a conversa dos telemóveis: “Ah, estamos a proibir os telemóveis!” E eu fico tipo… vocês é que começaram com isto, não foi? E agora, de repente, querem fazer de conta que são underground só porque agora é cool? Desculpa, mas não são. Ser underground envolve muita coisa. E não quero parecer que estou só a reclamar — estou um bocadinho, sim, mas não é raiva.
Eu tenho o meu nicho, e a vida corre-me bem. Isso nunca vai mudar. Em 30 anos, nunca mudou. Para mim, o futuro é continuar a fazer sons vocais underground fixes, diferentes, mais experimentais. Não é necessariamente o que os outros estão a fazer. Por exemplo, quando me convidam para fazer um remix, muitas vezes dizem: “Há mais três produtores a fazer remixes também.” E eu: “Ok… quem são?” Porque se forem todos do mesmo circuito, eu passo logo.
Agora, se forem de mercados diferentes, aí já penso: “Ok, o que é que faz sentido fazer no meu estilo — naquele espaço onde eu sou reconhecido — que seja diferente do que os outros fariam?” A ideia é sempre tentar puxar a coisa mais um bocadinho para a frente, mas com intenção artística.
Algumas coisas é tipo: “Olha, que se lixe. Bora fazer uma bomba.” Mas isto não quer dizer fazer uma música medíocre, igual às outras. É mais naquela de: esta vocal é um banger nos clubes. Tenho de fazer um grande tema com isto. Porque este tipo de som, quando acerta, é gratuito — no sentido em que se espalha sozinho. “Alternate” é gigante, percebes? ‘Hey hey hey’. ‘Rapture’, ‘iJuke’… Isso são aqueles club bangers — Bucketheads — discos mesmo pesados, incríveis. Só que a maioria não é assim. Em relação à IA e isso tudo… Olha, na cena onde eu me movo, isso ainda não entrou. Mas já é óbvio que está a dominar tudo. Os programas de produção estão montados de forma a que puxas uns acordes e aquilo compõe tudo por ti. Sim, podes mexer e personalizar, mas a parte criativa está a desaparecer cada vez mais. E depois há uma reação a isso — há quem esteja a tentar ser mais criativo. Mas ainda é pouco, não chega. Por isso, acho que é aí que estamos. Aliás, acho que estamos assim desde 2010. Mas agora chegámos mesmo ao limite.
Hoje em dia, com estes programas, consegues isolar vocais, tirar linhas de bateria, separar tudo… É tudo muito eficaz — o que até é bom, desde que não abuses. Mas depois vês malta a fazer remix de Pat Benatar ou “I Love Rock and Roll” em versão house… E ficas tipo: o que é isto, pá? Dá para ver que há muita gente que simplesmente não pensa no que está a fazer. E pronto, esse é o futuro, na minha opinião. Ou seja: vai haver muita porcaria.
… Sobre Arte vs Dinheiro…
Ainda assim, há quem esteja a fazer cenas mesmo fixes, artísticas, com cabeça. Mas esses quase sempre já o faziam desde o início. Alguns acabam por mudar e ir “para o outro lado”. E esse “outro lado” nem é só a cena do dinheiro — é mais quando começas a desrespeitar a arte. Se estiveres a fazer algo artístico e ainda assim estiveres a faturar milhões? Pá, força. Vai com tudo. Só que isso… raramente acontece. A maioria escolhe os milhões, em vez de tentar levar a arte mais longe. Enfim. Esperemos que a febre do “Afro House” passe — porque aquilo nem é Afro House. Se for para o Afro House real subir ou manter-se, ótimo. Agora esse “Afro House” que andam a vender por aí, ou “techno” que nem é techno… Era bom que acabasse. É tipo: “Olha, ouve o meu novo Afro House!” E eu fico tipo: “Mas o que é que te fez achar que isto é Afro House?” Vai ao Google. Há montes de exemplos do que Afro House realmente é. E isto não tem nada a ver, percebes? Com o techno é a mesma coisa. “Olha, ouve aqui o meu techno.” E eu fico tipo… hmm, tá bem. Quem chama “techno” a tudo são aquelas pessoas que nos anos 2000, no avião, te perguntavam:
— O que fazes da vida?
— Faço música house.
— Ah, tipo techno?
— Não, não. House.
Sabes? A música hoje em dia está meio assim. Tudo é “techno” ou “eletrónica”. Mas eu sei bem o que é techno. É só… engraçado. Por isso, o que espero mesmo é que as pessoas com projetos artísticos comecem a ter mais reconhecimento. Resumindo numa só frase? Valorização da arte na música — e não só o dinheiro como motivação.
Fiz discos sob efeito de cogumelos, ácido, ou sóbrio — tanto faz! Com álcool ou sem. Era o que fosse. O que interessava era: “o que é que esta música pede neste momento?
Concordo totalmente. Sinto que a tua música tem uma vibe super hipnótica. Leva-nos mesmo numa viagem. Tens algum processo específico? O que te inspira? Como chegas a esse ponto?
É uma cena super simples — sinto que quando eu começo a ficar aborrecido com um som repetido, então é porque a plateia também vai começar a ficar. É aí que adiciono outra coisa.
Quando a coisa começa a cansar, muda — tão óbvio… Se quiseres descobrir a “receita” dos sets de Creamer, presta atenção.
Quer dizer, quando fazíamos os remixes de Creamer & K, havia músicas que duravam 12 minutos. Agora, a média dos meus temas é mais curta — seis, sete minutos. Nove no máximo, talvez dez se a parte vocal for longa. Gosto de usar os vocais tal como foram originalmente arranjados, no geral. Portanto, se tens um vocal longo, vais precisar de tempo para que as partes sem vocal se conectem com as que o têm. Meter tudo à bruta de uma vez… é difícil. É preciso construção, camadas. Hoje em dia produzo de forma um bocadinho diferente, menos matemática, digamos. As progressões agora são mais rápidas.
Mas essa cena hipnótica vinha mesmo de forma natural. Tenho algumas faixas em que estou a trabalhar agora que são assim. Na semana passada estava a fazer um tema que tinha um loop de 16 compassos… E podias ficar ali a ouvir 5, 6, 7 horas. Não vai ter essa duração, claro, mas o groove é tão bom que dava. Há músicas assim: merecem ser tocadas mais tempo, com desenvolvimentos mais lentos — porque o que não está a acontecer é tão importante quanto o que está.
Nunca houve uma intenção tipo “vamos fazer isto assim ou assado”. Era mais: quanto tempo é preciso para que uma parte cause uma reação emocional? E se funcionava connosco, achávamos que com os outros também ia resultar. Então seguíamos por aí. E naquela altura também estávamos numa vibe muito “hipnótica”: grooves repetitivos, mas subtis, meio trippy, com sons cinemáticos. Nada de grandes melodias — era tudo mais sugestivo, sensual, ambiental. Não muito tradicional, até um bocado aleatório — mas com estrutura.
E não foi propositado tipo “vamos entrar nesta onda”. Quer dizer, sim, tomávamos coisas. Isso era ótimo. Fiz discos sob efeito de cogumelos, ácido, ou sóbrio — tanto faz! Com álcool ou sem. Era o que fosse. O que interessava era: “o que é que esta música pede neste momento?” A Love & Traffic tem 10 minutos. Mas não é uma fórmula de “temos de preencher X minutos”. Se funciona naquele momento, está feito. Depende do teu estado de espírito nesse dia… Mas o meu mood era quase sempre o mesmo. Sobretudo quando trabalhava com vocais de outras pessoas, em que tinha de compor algo que respeitasse a emoção original —alguém escreveu aquilo, cantou com sentimento, fez tudo com intenção. É um tema credível. Então o meu papel ali tem de estar à altura. A minha parte também tem de ser credível.
️…Sobre o presente (e o que vem aí)…
Trabalhei no último single da Lula. Estou num projeto com o Mike Kings, também com o Wally Lopez… uma data de gente. Estou meio que a voltar ao ritmo outra vez. Tirei algum tempo, mas nunca deixei de fazer música. Só não a lançava. Estava só a fazer cenas fixes por diversão. E agora quero lançar coisas — mas tenho tanto material acumulado. São muitos, muitos discos… ou músicas.
… Agora até fico a pensar se não devia ter respondido de outra forma — mas não estou arrependido. Eu atiro-me e crio. E tenho bons parceiros: trabalho com engenheiros e com outros produtores.
Eu e o Leo Falfán estamos agora a lançar uma série de coisas. Não gosto da parte da engenharia, tipo estar a carregar em todos os botões. Por isso há sempre alguém a fazer isso — mas são sempre pessoas muito envolvidas artisticamente. É mesmo uma parceria. A intenção é fazer algo credível, só isso. O que, pronto, é sempre subjectivo, claro. Mas não há uma tática específica — só vais atrás do que tu achas que é isso.
Como é que geres isso com os teus parceiros? Como é que se alinham criativamente? Porque, cada um tem o seu humor em dias diferentes…
Pois. É isso. Tu simplesmente percebes, se não está a funcionar, não está a funcionar. Às vezes é só tipo, olha, cada um vai à sua vida. Ou então: “um de nós sai daqui, agora.” Depois eu fico ali a vasculhar, tipo quatro, cinco, seis, setecentos sons… Tomo nota de tudo, organizo num ficheiro… E depois: “vá, agora ouves tu. Vamos reduzir isto. Vamos brincar.” Quando começa a funcionar, entra o momento certo — e isso inspira-te a continuar. Ter um projeto fixe a correr bem faz-te querer fazer mais coisas fixas, certo? Quando encontras ali um bocadinho de impulso dentro do projeto, percebes: “isto está a dar, não o percas — segue com isso.”
Eu e o Falfán temos mesmo uma parceria a sério. Os dois ficamos rabugentos, os dois temos cenas a acontecer ao mesmo tempo. Agendas cheias, ele está num país, eu noutro. Agora em Agosto vou ter com ele, fico lá umas quatro semanas, e vai ser estúdio todos os dias. Estive no estúdio quatro meses seguidos agora. E no fim… já estava a ficar saturado. Só queria ir para casa e usar outros sapatos, ‘tás a ver? Mudar só. Eu nem sequer tenho um guarda-roupa gigante, mas parecia que estava a viver num hotel há quatro meses. Claro que tenho roupa, mas eram sempre os mesmos três pares de calças, os mesmos calções para o ginásio, os mesmos seis pares de ténis… E eu já só pensava: “Não, não, não. Está na altura.” Isto mexe contigo, com o teu estado de espírito. Ficas tipo: “Olha, acabamos isto quando eu estiver melhor da cabeça.” Não é que eu te odeie — só não quero estar aqui agora. Quero só sentar-me no sofá três dias seguidos a ver TV e não ter de ser tão responsável pelo resultado de um trabalho criativo. Nas minhas parcerias sou bastante direto. Se acho que uma coisa é lixo, é lixo. Usa-se para outra coisa qualquer. Mas para algo avançar, temos os dois de gostar. Senão, não vale a pena.
Que conselho darias a novos DJs? Tendo em conta a tua experiência, o que achas que se deve fazer quando se está a começar?
Pesquisa.
Desenvolve uma personalidade antes de tentares expressar-te. Mesmo que essa personalidade vá mudando — porque todas mudam com o tempo. Uma personalidade ou uma convicção sobre aquilo em que acreditas. Mesmo que isso vá sendo ajustado — porque isso vai transparecer em praticamente tudo o que fizeres. Seja no styling, no design de moda, a fazer música ou cinema. Ter algum tipo de dedicação e convicção e personalidade, mesmo. E depois… Não dá para simplesmente pedir às pessoas para “serem únicas” — mas tenta. (risos) Tenta não ser igual a toda a gente. Porque já há muitos assim. Não há assim tanta gente a fazer coisas interessantes. Ou a ter um som próprio — eu tenho o meu som. Quando ouves um disco meu, as pessoas sabem que sou eu. E isso é bom.
Quando alguém se preocupa com o que está a fazer, é tipo: wow, isto é interessante. Nunca tinha pensado nisto assim. Então a maneira como apresentas as coisas também é importante. Há pessoas, tipo o DJ Premier no hip-hop — bastam dois beats e já sabes que é dele. Ter isso, acho que está mesmo ligado à personalidade. E isso precisa de ser desenvolvido antes de andares por aí a dizer “sou isto ou aquilo”. Faz, em vez de dizer. E isso… tens de desenvolver. A não ser que o que estejas a tentar dizer seja: “eu sou péssimo.” Nesse caso: missão cumprida. (risos) Ganhaste!!
(risos dos dois lados, confesso.)
Pronto, acho que passámos por tudo.
Sim, a maioria do que faço está no SoundCloud. No Spotify não mexo muito. Não mostra bem o que já fiz nem o que estou a fazer. Os algoritmos simplesmente não funcionam!
J. Creamer no soundcloud
J. Creamer no instagram
Clássicos:
Celeda – The Underground (John Creamer & Stephane K. Mix)
I Wish You Were Here (John Creamer & Stephane K feat. Nkemdi – Main Mix)
iiO – Rapture (Remix by John Creamer & Stephane K)
Kosheen – Hide U (John Creamer & Stephane K Remix)Texto: Mafalda Paínho
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