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Daniel's Substack: Eureka! · Aug 15, 2026

Cigarro dá câncer?

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Daniel Dahis PhD, Gabriela Frajtag · Daniel's Substack: Eureka!

Bom dia, cientistas!

Conversando com seus pais ou avós, talvez alguns comentem o quão normalizado era fumar alguns anos atrás. Até as décadas de 1970 e 1980, professores fumavam dentro da sala de aula. Não era incomum ligar a TV e se deparar com propaganda tabagista.

O mundo mudou! (E que bom!)

Mas, cientista, acontece que, naquela época, os malefícios do cigarro não eram tão bem conhecidos (ou divulgados…) como são atualmente.

A história de hoje é sobre isso: como descobrimos os perigos dessa prática e o que isso pode te ensinar sobre o fazer ciência.

Cigarro dá câncer? Sim, e isso você já sabe.

Mas e o porquê? Você saberia explicar? Então vamos entender!

Primeiro, vale já começar explicando a nicotina: essa é a principal molécula responsável por tornar o cigarro viciante, mas ela não é a principal responsável por causar câncer. Isso já explica o adesivo de nicotina — um medicamento usado por aqueles que querem parar de fumar — que libera pouca nicotina no corpo para diminuir a vontade do cigarro, mas não expõe a pessoa aos riscos produzidos pela queima do tabaco.

O grande problema está na fumaça produzida por essa queima. Ela é uma mistura extremamente complexa de substâncias químicas e contém diversos compostos carcinogênicos, isto é, capazes de aumentar o risco de câncer.

Conceito Eureka

Nicotina: é a principal substância responsável pela dependência do cigarro. Ela chega no cérebro e imita um neurotransmissor natural, a acetilcolina, ligando-se aos chamados receptores nicotínicos. Essa ativação aumenta a liberação de dopamina nos circuitos de recompensa, fazendo o cérebro associar o cigarro a uma sensação de recompensa. Quando a pessoa começa a repetir o ato de fumar, o cérebro se adapta à nicotina e passa a “esperar” por ela. Quando ela para, surgem os sintomas de abstinência e a vontade de fumar novamente.

Um exemplo é o benzo[a]pireno, que, depois de ser processado pelo nosso organismo, pode originar moléculas reativas capazes de se ligar ao DNA e danificá-lo. A fumaça também contém carcinógenos como NNK e NNN, além de substâncias como formaldeído e benzeno. Se esses danos não forem corretamente reparados, podem surgir mutações em genes que controlam a divisão e a sobrevivência das células. Ao longo de anos de exposição e acúmulo de mutações, algumas células podem começar a se multiplicar descontroladamente, contribuindo para a formação de um tumor.

A história que contaremos hoje não é só sobre cigarro, mas sobre como podemos descobrir que uma coisa causa outra.

→ Pense no experimento mais óbvio: separar milhares de pessoas em dois grupos, obrigar metade delas a fumar por décadas e depois comparar quantas desenvolveram câncer.

Concorda que isso seria extremamente antiético, né?

Richard Doll e Austin Bradford Hill precisavam encontrar outro caminho.

No final da década de 1940, as mortes por câncer de pulmão estavam aumentando rapidamente no Reino Unido. Mas ainda não estava claro o que causava esse aumento. As hipóteses incluíam a poluição, a fumaça dos carros, substâncias presentes nas ruas e até a possibilidade de os médicos simplesmente estarem diagnosticando melhor a doença.

Pioneers of Medicine Without a Nobel Prize : RICHARD DOLL: THE LINK BETWEEN  SMOKING AND LUNG CANCER
Os cientistas da história de hoje!

E, claro, havia o cigarro.

Para investigar, Doll e Hill decidiram começar pelo final da história.

Entre 1948 e 1949, eles entrevistaram pacientes internados em hospitais de Londres. Um grupo era formado por pessoas com câncer de pulmão. O outro, usado como comparação, incluía pacientes que não tinham a doença.

Os pesquisadores então fizeram perguntas sobre o passado dessas pessoas:

Você fuma? Quanto? Há quanto tempo? Qual tipo de tabaco costuma usar? Já fumou e parou?

Percebe a lógica?

Em vez de selecionar fumantes e não fumantes e esperar décadas para descobrir quem desenvolveria câncer, eles começaram com pessoas que já estavam doentes e olharam para trás, procurando uma possível exposição.

Esse desenho é chamado de estudo caso-controle.

Os casos são as pessoas que apresentam a doença investigada. Os controles são pessoas sem aquela doença, escolhidas para servir como comparação. Depois, os pesquisadores verificam se determinada exposição ocorrida no passado era mais frequente entre os casos.

No estudo de Doll e Hill, a lógica era:

CASOS → têm câncer de pulmão → fumavam no passado?

CONTROLES → não têm câncer de pulmão → fumavam no passado?

Como os pesquisadores estavam olhando para uma exposição que já havia acontecido, o estudo tinha natureza retrospectiva. Em vez de acompanhar a história do começo para o final, eles começaram pelo desfecho e tentaram reconstruir o que havia acontecido antes.

E os resultados foram, pra época, impressionantes (hoje em dia não impressiona porque todo mundo já sabe, ou deveria saber, dos perigos do fumo). Mas voltando:

  • Entre os pacientes com câncer de pulmão, apenas 0,3% eram não fumantes.

  • Entre os controles, essa proporção era de 4,2%.

Também apareceu outra pista importante: os pacientes com câncer tendiam a ter fumado mais. Ou seja, quanto maior o consumo de cigarro, mais forte era a associação com a doença.

Isso é o que chamamos de relação dose-resposta: conforme aumenta a exposição, aumenta também a ocorrência do desfecho investigado.

Em 1950, Doll e Hill publicaram os resultados no British Medical Journal. A conclusão foi cuidadosa, mas bastante clara: os dados indicavam que fumar era um fator importante na causa do câncer de pulmão. E pros cientistas de plantão, olha que legal: você pode ler o artigo original de Doll e Hill.

Caso encerrado?

Ainda não!

Um estudo retrospectivo tem uma vantagem enorme: os pesquisadores não precisam esperar décadas até que uma doença apareça. Eles podem começar investigando pessoas que já estão doentes.

Mas esse método também possui limitações e vieses, como o viés de memória, quando, por exemplo, um paciente com câncer se lembra melhor de quanto fumava do que alguém saudável, e o viés de seleção, quando casos e controles são escolhidos de grupos tão diferentes que não podem ser comparados adequadamente.

Além disso, encontrar uma associação não significa automaticamente encontrar uma causa. Poderia existir, por exemplo, uma terceira característica mais comum entre fumantes que fosse a verdadeira responsável pelo câncer.

Doll e Hill sabiam disso. Por isso, decidiram investigar a mesma pergunta seguindo a história na direção contrária.

Em 1951, enviaram questionários sobre hábitos de tabagismo aos médicos britânicos. Dessa vez, registraram primeiro quem fumava, quanto fumava e quem não fumava. Depois, passaram a acompanhar essas pessoas ao longo dos anos para observar quem desenvolveria doenças ou morreria.

Agora, a lógica era:

FUMA → acompanha → o que acontece?

NÃO FUMA → acompanha → o que acontece?

Esse desenho é chamado de estudo de coorte prospectivo. Os pesquisadores começam registrando a exposição e acompanham os participantes em direção ao futuro, observando quais desfechos aparecem em cada grupo.

Os primeiros resultados foram publicados em 1954 e apontaram novamente para a mesma conclusão: as mortes por câncer de pulmão se concentravam entre os fumantes e aumentavam de acordo com a quantidade de tabaco consumida.

Esse trabalho é famosíssimo e ficou conhecido como British Doctors Study, ou Estudo dos Médicos Britânicos, e continuou por décadas, inclusive depois da morte do Hill. Cinquenta anos depois, os dados mostraram que fumantes persistentes viviam, em média, cerca de dez anos menos do que os não fumantes.

Um pequeno resumo mostrando a diferença entre os estudos.

Mas o estudo também revelou uma notícia importante: parar de fumar reduzia consideravelmente esse prejuízo. E quanto mais cedo a pessoa abandonava o cigarro, maior era o benefício.

Doll e Hill chegaram essencialmente à mesma conclusão percorrendo o problema em duas direções diferentes.

Primeiro:

doença → passado → exposição.

Depois:

exposição → futuro → doença.

Nenhum desses estudos era o experimento perfeito. Mas eles também não precisavam ser.

Aqui temos um exemplo mostrando como o caso-controle e o coorte se posicionam na pirâmide da evidência.

Nas décadas seguintes, surgiram outros estudos epidemiológicos, experimentos com células e animais, análises químicas da fumaça e pesquisas sobre os danos deixados no DNA. Métodos diferentes, com limitações diferentes, começaram a contar a mesma história.

E cientistas, como vimos aqui, boa parte do fazer ciência é investigar a mesma pergunta por caminhos diferentes e observar se, apesar das limitações de cada método, todos continuam apontando para a mesma resposta.

Nesse caso, apontaram:

fumar causa câncer e reduz a expectativa de vida.

Por isso, cientista, a conclusão de hoje é simples: não fume!

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Read the original on dahis.substack.com

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