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Curioso Mercado · Aug 24, 2026

A viagem interminável da CVC

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“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

Guilherme Paulus, fundador da CVC.

Em 1972, Guilherme Paulus, na época com 22 anos, abriu uma pequena agência de viagens em Santo André, no ABC paulista, com apenas dois sócios e um catálogo de pacotes nacionais. Cinco décadas depois, a CVC se tornaria a maior operadora de turismo da América Latina, com mais de 1.200 lojas franqueadas e presença em todo o território nacional.

O IPO de R$ 1,7 bilhão na B3 em 2013 foi um dos maiores do setor de serviços no Brasil até então. A empresa que Paulus havia construído era, por qualquer métrica razoável, um sucesso.

O modelo que funcionou até deixar de funcionar

A CVC foi construída sobre uma vantagem que parecia permanente, a sua capilaridade física. Em uma época em que viajar exigia uma agência de viagens, um atendente e um catálogo impresso, a CVC tinha o melhor produto disponível.

A rede de franqueados garantia presença em cidades que nenhuma operadora alcançava, e a escala permitia negociar com hotéis e companhias aéreas em condições que agências menores não conseguiam. Era realmente um grande diferencial competitivo. Afinal, quem não lembra de passear nos shoppings centers e se deparar com uma bela loja da CVC?

CVC apresenta nova marca e novo conceito de loja; conheça
Loja da CVC em ponto comercial.

O problema é que a internet destruiu a principal barreira de entrada do setor. Decolar, Booking, Expedia e Google Flights eliminaram a necessidade de intermediação física para a maior parte das viagens que a CVC vendia.

O viajante que antes precisava ir até uma loja agora compara preços em tempo real, fecha o pacote pelo celular e recebe a confirmação por e-mail em minutos. A vantagem competitiva da CVC, que era o acesso físico ao cliente, virou um custo fixo em uma era em que o custo variável digital é praticamente zero.

A resposta da empresa foi uma estratégia batizada de “figital”, a mescla do offline com o digital, com foco em gerar e capturar leads em canais digitais redirecionados às franquias da rede. Como parte dessa aposta, a CVC abriu cerca de 480 lojas nos últimos três anos, investindo agressivamente em expansão física no interior do Brasil.

Mesmo assim, o mercado não concordou. Especialistas apontam que a estratégia só serviu para aumentar custos sem ganhos de eficiência, uma vez que a empresa vende à distância mas segue remunerando o franqueado da mesma forma.

Quatro CEOs em sete anos

O quadro de gestão também não ajudou. Fabio Mader, que assumiu em janeiro de 2026, é o quarto CEO da CVC em uma janela de sete anos. Cada troca de comando vinha acompanhada de um novo discurso estratégico, o que foi corroendo progressivamente a confiança do mercado.

Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, resumiu o sentimento:

“Houve trocas muito frequentes no comando e a empresa foi alternando entre diversas novas estratégias e discursos. E o fato é que, passados esses últimos quatro, cinco anos, o resultado não melhora e não muda em nada.”

Vale lembrar que Guilherme Paulus, o próprio fundador, havia deixado a gestão e vendido sua participação em 2018. Voltou em 2023, na esteira de um aumento de capital de R$ 226,2 milhões, com um plano de reestruturação baseado no discurso de “volta às origens.”

Os números do primeiro trimestre de 2026 materializaram o que o mercado já desconfiava. A CVC apurou um prejuízo líquido de R$ 72,3 milhões, contra uma perda de R$ 7,4 milhões no mesmo período do ano anterior.

A receita líquida cresceu 0,5%, para R$ 377,8 milhões, enquanto o Ebitda ajustado recuou 10,5%, para R$ 93,7 milhões. O consumo de caixa operacional saltou de R$ 53,2 milhões para R$ 121,6 milhões. A dívida líquida avançou R$ 140 milhões em relação ao fim de 2025. A divulgação do balanço foi seguida de uma queda de 11,27% nas ações em um único dia.

A mínima histórica

Desempenho das ações da empresa desde 2021.

No pregão da última sexta-feira, dia 21 de agosto de 2026, as ações encerraram cotadas a R$ 1,56, ligeiramente acima da mínima história de R$ 1,32 em 11 de junho de 2026, a menor cotação desde o IPO em dezembro de 2013.

As ações acumulam queda de 35,6% em 2026 e de 44,8% em 12 meses. A empresa está avaliada em R$ 723,9 milhões. Para comparação, o IPO de 2013 levantou R$ 1,7 bilhão e chegou a valer mais de R$ 10 bilhões, ou seja, a empresa vale hoje menos da metade do que captou ao abrir capital.

O futuro

Circula no mercado a informação de que a Prosus, controladora da Decolar, estaria avaliando uma OPA da CVC. A empresa negou ter recebido qualquer proposta formal e o CEO Fabio Mader confirmou apenas que houve “uma conversa construtiva” com a Prosus em setembro de 2025, mas que nenhuma oferta foi formalizada desde então.

A CVC construiu um dos maiores negócios de turismo da história brasileira sobre um modelo que o tempo tornou obsoleto. Apesar do entendimento de que há uma grande parcela da população que ainda prefira o contato físico para reservas de viagens, o mercado vem percebendo que esse volume não é suficiente para estancar a crise da empresa.

O desafio agora é existencial. Em um mercado onde Decolar e Booking crescem porque nasceram digitais, a CVC responde abrindo lojas físicas. Para fins de comparação, as ações da Booking subiram 127,30% nos últimos cinco anos, enquanto as ações da CVC caíram 92,18%. Mesmo mercado, estratégias completamente diferentes, resultados opostos. E agora, qual será o futuro da CVC?

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