“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
Em 1972, Guilherme Paulus, na época com 22 anos, abriu uma pequena agência de viagens em Santo André, no ABC paulista, com apenas dois sócios e um catálogo de pacotes nacionais. Cinco décadas depois, a CVC se tornaria a maior operadora de turismo da América Latina, com mais de 1.200 lojas franqueadas e presença em todo o território nacional.
O IPO de R$ 1,7 bilhão na B3 em 2013 foi um dos maiores do setor de serviços no Brasil até então. A empresa que Paulus havia construído era, por qualquer métrica razoável, um sucesso.
O modelo que funcionou até deixar de funcionar
A CVC foi construída sobre uma vantagem que parecia permanente, a sua capilaridade física. Em uma época em que viajar exigia uma agência de viagens, um atendente e um catálogo impresso, a CVC tinha o melhor produto disponível.
A rede de franqueados garantia presença em cidades que nenhuma operadora alcançava, e a escala permitia negociar com hotéis e companhias aéreas em condições que agências menores não conseguiam. Era realmente um grande diferencial competitivo. Afinal, quem não lembra de passear nos shoppings centers e se deparar com uma bela loja da CVC?
O problema é que a internet destruiu a principal barreira de entrada do setor. Decolar, Booking, Expedia e Google Flights eliminaram a necessidade de intermediação física para a maior parte das viagens que a CVC vendia.
O viajante que antes precisava ir até uma loja agora compara preços em tempo real, fecha o pacote pelo celular e recebe a confirmação por e-mail em minutos. A vantagem competitiva da CVC, que era o acesso físico ao cliente, virou um custo fixo em uma era em que o custo variável digital é praticamente zero.
A resposta da empresa foi uma estratégia batizada de “figital”, a mescla do offline com o digital, com foco em gerar e capturar leads em canais digitais redirecionados às franquias da rede. Como parte dessa aposta, a CVC abriu cerca de 480 lojas nos últimos três anos, investindo agressivamente em expansão física no interior do Brasil.
Mesmo assim, o mercado não concordou. Especialistas apontam que a estratégia só serviu para aumentar custos sem ganhos de eficiência, uma vez que a empresa vende à distância mas segue remunerando o franqueado da mesma forma.
Quatro CEOs em sete anos
O quadro de gestão também não ajudou. Fabio Mader, que assumiu em janeiro de 2026, é o quarto CEO da CVC em uma janela de sete anos. Cada troca de comando vinha acompanhada de um novo discurso estratégico, o que foi corroendo progressivamente a confiança do mercado.
Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, resumiu o sentimento:
“Houve trocas muito frequentes no comando e a empresa foi alternando entre diversas novas estratégias e discursos. E o fato é que, passados esses últimos quatro, cinco anos, o resultado não melhora e não muda em nada.”
Vale lembrar que Guilherme Paulus, o próprio fundador, havia deixado a gestão e vendido sua participação em 2018. Voltou em 2023, na esteira de um aumento de capital de R$ 226,2 milhões, com um plano de reestruturação baseado no discurso de “volta às origens.”
Os números do primeiro trimestre de 2026 materializaram o que o mercado já desconfiava. A CVC apurou um prejuízo líquido de R$ 72,3 milhões, contra uma perda de R$ 7,4 milhões no mesmo período do ano anterior.
A receita líquida cresceu 0,5%, para R$ 377,8 milhões, enquanto o Ebitda ajustado recuou 10,5%, para R$ 93,7 milhões. O consumo de caixa operacional saltou de R$ 53,2 milhões para R$ 121,6 milhões. A dívida líquida avançou R$ 140 milhões em relação ao fim de 2025. A divulgação do balanço foi seguida de uma queda de 11,27% nas ações em um único dia.
A mínima histórica
No pregão da última sexta-feira, dia 21 de agosto de 2026, as ações encerraram cotadas a R$ 1,56, ligeiramente acima da mínima história de R$ 1,32 em 11 de junho de 2026, a menor cotação desde o IPO em dezembro de 2013.
As ações acumulam queda de 35,6% em 2026 e de 44,8% em 12 meses. A empresa está avaliada em R$ 723,9 milhões. Para comparação, o IPO de 2013 levantou R$ 1,7 bilhão e chegou a valer mais de R$ 10 bilhões, ou seja, a empresa vale hoje menos da metade do que captou ao abrir capital.
O futuro
Circula no mercado a informação de que a Prosus, controladora da Decolar, estaria avaliando uma OPA da CVC. A empresa negou ter recebido qualquer proposta formal e o CEO Fabio Mader confirmou apenas que houve “uma conversa construtiva” com a Prosus em setembro de 2025, mas que nenhuma oferta foi formalizada desde então.
A CVC construiu um dos maiores negócios de turismo da história brasileira sobre um modelo que o tempo tornou obsoleto. Apesar do entendimento de que há uma grande parcela da população que ainda prefira o contato físico para reservas de viagens, o mercado vem percebendo que esse volume não é suficiente para estancar a crise da empresa.
O desafio agora é existencial. Em um mercado onde Decolar e Booking crescem porque nasceram digitais, a CVC responde abrindo lojas físicas. Para fins de comparação, as ações da Booking subiram 127,30% nos últimos cinco anos, enquanto as ações da CVC caíram 92,18%. Mesmo mercado, estratégias completamente diferentes, resultados opostos. E agora, qual será o futuro da CVC?
📹 Youtube, com versões mais detalhadas das curiosidades de negócios.
📱 Instagram, com curtinhas, reels com histórias de negócios e muito mais!
📖 Biblioteca do Curioso, com livros sobre as melhores histórias do mundo dos negócios.
📞 Canal no WhatsApp, com notícias e curiosidades diárias para você ficar por dentro de tudo.
🎁 BTG e C6 entram na disputa por mercado de benefícios que movimenta R$ 150 bi ao ano
🚀 Mais um mega-IPO à vista? Anthropic espera igualar ou superar oferta da SpaceX
📈 Braskem recebe propostas de credores, mas segue sem acordo a três dias de prazo final
☕ Café colombiano vive fim da bonança de dois anos. No Brasil, previsão é de safra recorde
📖 Livro da semana: Batendo o Mercado: Histórias e estratégias vencedoras
“Batendo o Mercado” apresenta a filosofia de investimento de Peter Lynch, um dos gestores mais bem-sucedidos da história. O livro ensina como o investidor comum pode encontrar boas oportunidades a partir de empresas que conhece, realizando pesquisas simples e desenvolvendo uma estratégia própria de seleção de ações e construção de carteira.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.