Caro leitor
As questões filosóficas não têm de ser sempre apresentadas por meio de exposições abstractas e argumentos minuciosamente organizados. Uma história, uma situação imaginária ou uma pequena fantasia colocam-nos por vezes perante um problema filosófico de maneira mais directa e perturbadora. Os cinco textos que hoje proponho mostram como a literatura e a imaginação podem ser instrumentos poderosos de reflexão.
Em Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut, com tradução minha, somos transportados para um futuro em que todos têm de ser rigorosamente iguais. As pessoas excepcionalmente inteligentes, fortes ou belas são obrigadas pelo estado a usar dispositivos que neutralizam as suas capacidades. Com humor negro e uma sucessão de imagens absurdas, Vonnegut transforma uma sociedade aparentemente comprometida com a igualdade numa distopia opressiva. O conto obriga a distinguir a igualdade perante a lei do nivelamento coercivo das pessoas, em que a tentativa de eliminar todas as desigualdades se transforma inevitavelmente numa profunda injustiça. E que acontece à liberdade, à excelência e à individualidade, quando qualquer diferença é tratada como uma vantagem ilegítima?
Aqueles que abandonam Omelas, de Ursula K. Le Guin, também com tradução minha, apresenta-nos uma cidade próspera, pacífica e feliz. Contudo, toda essa felicidade depende do sofrimento extremo de uma única criança, mantida em condições desumanas.
Todos os habitantes acabam por conhecer o segredo e a maioria aceita-o, convencida de que libertar a criança destruiria a felicidade de milhares de pessoas. Alguns, porém, abandonam silenciosamente a cidade. Le Guin constrói um mundo e obriga o leitor a habitá-lo. Será moralmente aceitável sacrificar uma pessoa para garantir o bem-estar de muitas? Podemos beneficiar de uma injustiça sem nos tornarmos cúmplices? E abandonar Omelas será uma resposta moral suficiente?
Em O Solipsista, de Fredric Brown, com tradução de Pedro Galvão, Walter B. Jehovah acredita que é a única coisa que realmente existe e que todo o universo é apenas uma criação da sua mente. Um dia, decide levar a sua convicção a sério e começa a fazer desaparecer as pessoas, o mundo e até o seu próprio corpo. Mas, quando tenta eliminar-se a si mesmo, descobre que o solipsismo talvez tenha limites inesperados. Fredric Brown apresenta, numa história curtíssima e com um desfecho engenhoso, algumas das dificuldades de uma das posições mais radicais da filosofia. Como poderia alguém saber que existem outras mentes? Poderá o mundo depender inteiramente de um único sujeito? E será possível imaginar coerentemente a própria inexistência?
Um Dualista Desafortunado, de Raymond Smullyan, com tradução de Jônadas Techio, conta a história de um homem convencido de que a mente e o corpo são substâncias distintas. Ao descobrir uma droga capaz de destruir completamente a alma, deixando o corpo a funcionar exactamente como antes, decide experimentá-la. O corpo continuaria a falar, a trabalhar, a relacionar-se com os outros e até a afirmar que tem uma vida mental — embora, segundo a hipótese, já não existisse nele qualquer consciência. Smullyan converte o problema da mente–corpo numa pequena história simultaneamente cómica e inquietante. Se nenhuma alteração observável acompanha o desaparecimento da mente, que razões temos para acreditar que desapareceu? E que diferença poderia existir entre uma pessoa consciente e um corpo que se comporta perfeitamente como se o fosse?
Finalmente, em Uma Refutação Filosófica Universal, de Raymond Smullyan, com tradução de Pedro Galvão, um filósofo sonha que consegue refutar Aristóteles, Platão e todos os grandes pensadores da história recorrendo sempre à mesma objecção. Temendo esquecer a sua descoberta, acorda precipitadamente e escreve-a num papel. Na manhã seguinte, encontra finalmente a sua refutação universal. Qual será? Para o descobrir, leia esta pequena fantasia filosófica.
Estes textos não substituem a argumentação filosófica, mas fazem algo que uma exposição puramente abstracta nem sempre consegue: colocam-nos no seio do problema. Em vez de nos limitarmos a compreender uma posição, somos convidados a imaginar como seria viver num mundo governado por ela — e a descobrir, por vezes com algum desconforto, o que realmente pensamos.
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