Caro leitor
A palavra “metafísica” continua a provocar alguns equívocos. Para muitas pessoas, sugere espiritualismo, ocultismo ou especulações desligadas da investigação racional. Na filosofia, porém, a metafísica procura compreender a estrutura mais geral da realidade: que coisas existem, que tipos de coisas podem existir, como se relacionam entre si e que características fundamentais têm. Proponho hoje um percurso de cinco leituras disponíveis na Crítica. Começamos por esclarecer a natureza da disciplina e terminamos perante a mais radical das suas perguntas: por que existe alguma coisa?
O melhor ponto de partida é A Natureza da Metafísica, de E. J. Lowe. O artigo desfaz desde logo a associação vulgar entre metafísica, misticismo e magia, mostrando que a disciplina investiga racionalmente a estrutura fundamental da realidade. A metafísica cruza-se com a física quando pergunta o que são o espaço, o tempo e a causalidade, mas não se limita ao mundo estudado pelas ciências naturais. Interroga-se também sobre pessoas, estados mentais, entidades sociais, números, conjuntos e proposições. Lowe apresenta ainda uma ideia particularmente importante: mesmo quem procura rejeitar a metafísica acaba normalmente por defender uma tese metafísica acerca daquilo que existe ou daquilo que podemos conhecer. A disciplina é difícil de evitar porque qualquer concepção geral da realidade já constitui uma posição metafísica.
Depois de sabermos aproximadamente o que se estuda em metafísica, podemos começar pela sua noção mais elementar:
a Existência. À primeira vista, existir parece a coisa mais simples do mundo. Ou uma coisa existe ou não. Michael Nelson mostra, contudo, que esta aparente simplicidade esconde problemas profundos. Será a existência uma propriedade, como ser vermelho, estar com fome ou ser humano? Quando afirmamos que Sócrates existiu, estamos a atribuir-lhe uma propriedade? E podemos falar coerentemente de coisas que não existem, como Pégaso ou uma montanha de ouro? O artigo percorre uma longa controvérsia que passa por Aristóteles, Tomás de Aquino, Hume, Kant, Frege e Russell. Compreendemos assim que perguntar “o que existe?” exige primeiro esclarecer o que queremos dizer quando afirmamos que algo existe.
As coisas existem, mas também mudam. Uma pessoa envelhece, muda de penteado e pode perder um membro, continuando apesar disso a ser a mesma pessoa. Um móvel pode ser pintado sem deixar de ser o mesmo móvel. Mas como pode uma coisa adquirir propriedades diferentes e conservar a sua identidade? Em Será Alguma Coisa Alguma Vez a Mesma?, Graham Priest parte desta pergunta bem conhecida para introduzir a distinção lógica entre atribuir uma propriedade a um objecto e afirmar a identidade entre dois objectos. O problema torna-se progressivamente mais desconcertante quando consideramos casos de divisão: se uma ameba se divide em duas, qual das novas amebas é idêntica à original? Ambas? Nenhuma? O texto mostra exemplarmente como uma pergunta aparentemente simples sobre mudança conduz a dificuldades profundas acerca da persistência e da identidade ao longo do tempo.
O passo seguinte consiste em distinguir aquilo que existe por acaso daquilo que não poderia deixar de ser como é. Agatha Christie poderia ter sido matemática e nunca ter escrito romances policiais. Já a verdade de que um mais um é igual a dois não parece depender das circunstâncias. Em Necessidade, Tim Crane e Katalin Farkas explicam as diferenças entre o possível, o contingente e o necessário. Uma afirmação contingente é verdadeira, mas poderia ter sido falsa; uma afirmação necessária não poderia ser falsa; uma afirmação possível é verdadeira em pelo menos uma maneira de ser das coisas. Estas noções, conhecidas como modalidades aléticas, são essenciais para compreender muitos outros problemas metafísicos. Não perguntamos apenas como o mundo é: perguntamos também como poderia ter sido e que aspectos da realidade não poderiam ser diferentes.
O nosso percurso — quase um minicurso! — termina com uma das perguntas mais ambiciosas da filosofia: por que há algo, em vez de nada? Em Por Que Existe o Universo?, Derek Parfit distingue duas questões. Podemos perguntar por que existe de todo em todo um Universo, mas podemos também perguntar por que existe precisamente este Universo, com estas características, em vez de qualquer outro. Parfit considera várias respostas possíveis: a criação divina, a existência de todos os universos possíveis, a existência necessária de alguma realidade ou até a hipótese de não haver qualquer explicação última. Cada resposta resolve uma dificuldade apenas para dar origem a outra. Se Deus explica o Universo, o que explica Deus? Se todos os universos possíveis existem, por que existe essa multiplicidade? E se alguma coisa existe necessariamente, que sentido exacto damos a essa necessidade? Este breve artigo não encerra a discussão, mas mostra por que razão a pergunta não pode ser afastada como uma simples curiosidade sem sentido.
Estas cinco leituras formam um percurso que vai do geral para o particular, regressando depois à totalidade. Começamos por esclarecer o que é a metafísica; perguntamos o que significa existir; examinamos como as coisas podem persistir ao longo da mudança; distinguimos o necessário do meramente contingente; e terminamos perguntando por que existe a própria realidade.
A metafísica começa quando deixamos de tomar como evidentes as ideias de existência, identidade, possibilidade e explicação. São noções que usamos todos os dias. Mas, quando tentamos compreendê-las rigorosamente, descobrimos que o mundo é muito mais estranho do que parece.
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