Antônio Pitanga, como reza o samba de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, “envelheceu, mas continua em exposição”1 — pondo seu nome e imagem para jogo, na esteira de uma carreira que já ultrapassa os cinquenta anos de atividade. Em Malês, o ícone do cinema brasileiro interpreta Pacífico, escravizado septuagenário que é submetido a castigos cruéis; difícil não sentir uma pontada no peito vendo um homem de barbas brancas tendo o pescoço atado por grilhões. Curiosamente, após a sequência na qual é preso para ser vendido à leilão, seu personagem passa boa parte da minutagem do longa fora de cena. Isso parece indicar um gesto muito simbólico: ciente do peso de sua presença cênica, Pitanga a empresta à produção, dotando-a de certo prestígio imagético (e seu personagem, reverenciado pelos demais como mestre, é dotado de caráter simbólico), mas logo dá um passo para trás visando não apenas deixar seu elenco mais à vontade, como também assumir de fato as rédeas da direção — algo que não fazia desde 1978, quando rodou o que era então seu único projeto enquanto cineasta, Na boca do mundo.
Malês retoma a parceria com o produtor Carlos Diegues (outro nome-chave de Na boca do mundo, falecido antes da estreia comercial do novo filme) e é, conforme reza a lenda, um projeto longamente gestado — teria sido concebido originalmente a partir de conversas entre seu diretor e Glauber Rocha, à época das filmagens de A idade da Terra (1980). Após décadas buscando viabilização, Pitanga conseguiu botar seu bloco na rua com ares de reunião familiar: aqui, o pai se une aos filhos Camila (com quem havia atuado em Eu receberia as piores notícias de seus lindos dos seus lindos lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca) e Rocco (ambos haviam contracenado como pai e filho em Garotas do ABC, de Carlão Reichenbach).
Girando em torno da revolta dos chamados Malês — escravizados e ex-escravizados de religiosidade islâmica — na Bahia de 1835, a fita recua no espaço e no tempo para mostrar ao espectador suas raízes africanas no reino iorubano de Oió (palco de uma bela e trágica sequência, na qual o casamento do personagem de Rocco é invadido quando ele e sua noiva estão prestes a selar os votos sob um tremeluzente lençol branco). Feito isso, a narrativa pula para o momento no qual o levante é deflagrado, regressando novamente para alguns meses antes da fatídica noite e remontando os eventos que levaram à revolta. Se esse expediente de múltiplos prólogos que agem como “falsos começos” pode soar um tanto fragmentário e cansativo, ao menos situa bem a parcela do público de todo descontextualizada acerca do que acontece em tela — e em um país como o Brasil, no qual os levantes de escravizados por muitos anos eram (e talvez ainda sejam) ensinados nas escolas de maneira instrumental, como um dado incômodo que precisa ser mencionado en passant, isso não deixa de ter sua razão de ser. Há algo a ser redigido, talvez com maior espaço e em outra oportunidade, sobre a abordagem incontornavelmente didática que certas produções que podem ser enquadradas na rubrica dos “cinemas negros brasileiros” precisam assumir, podendo soar um tanto redundantes ao quinhão do público mais situado nos assuntos tematizados ou partidário de uma linguagem cinematográfica menos direta (o saudoso Zózimo Bulbul, contemporâneo de Pitanga nas querelas do dito “pioneirismo” cinematográfico afro-brasileiro, também rodou fitas que podem ser vistas como paradidáticas em seus últimos anos de vida e de trabalho). Caso não tenha ficado claro, é necessário frisar que o “didático”, nesse sentido, está sendo empregado aqui como um adjetivo desprovido de juízo de valor. Ainda que a imersão na fita por vezes seja prejudicada pela oscilação qualitativa na caracterização dos personagens (alguns figurinos são incríveis, enquanto certas barbas falsas beiram o visual “Papai Noel de shopping center”), Malês se sai bem ao atrelar seus propósitos educativos a uma narrativa envolvente e, em sua maior parte, bem-amarrada.
Alguns outros detalhes saltam aos olhos e aos ouvidos: parte substancial dos escravizados e ex-escravizados retratados na produção se comunica através daquilo que a socióloga Lélia Gonzalez definia como “pretuguês”, variação da língua portuguesa redesenhada através do conflito entre a gramática lusa e a fonética natural dos idiomas africanos (que influencia na mistura de sílabas na pronúncia de algumas palavras, na troca de certas letras e em outras particularidades). Isso pode soar teatral em um primeiro momento, mas Malês banca essa escolha até o final — e, curiosamente, a junção de um elenco originário de diversos estados brasileiros, que tenta reproduzir um mesmo tipo de sotaque mas acaba, logicamente, emitindo-o com resultados variados, casa com a ideia de africanos de múltiplos reinos e grupos etno-linguísticos tentando se comunicar por meio do idioma colonizador comum. Intencionalmente ou não, tal escolha mostra-se efetiva.
O mesmo não pode ser dito acerca de boa parte dos diálogos que permeiam a produção. O roteiro assinado por Manuela Dias, conhecida por seu trabalho em telenovelas como Amor de Mãe (2019-2021) ou a refilmagem de Vale Tudo (2025), por vezes remete ao caráter necessariamente expositivo dos folhetins televisivos (que, novamente, é uma linguagem própria e não necessariamente pior do ponto de vista qualitativo) e falha em se adaptar ao ritmo de um longa-metragem: quase todas as emoções são transmitidas por meio de falas que soam como frases de efeito; dados históricos e informações de cunho prático são despejadas verbalmente aos borbotões, com um senso de gravidade e urgência incompatível com a confortável duração de duas horas do longa (pela maneira como tudo é externalizado, parece até que ele precisaria se resolver em trinta minutos). Malês opta por não assumir um protagonista claro — ainda que se balize no casal vivido por Rocco Pitanga e Samira Carvalho, separado em Oió e reunido na Bahia — e segmenta a trama em focos narrativos centrados em subnúcleos de personagens. Pitanga maneja bem essa estrutura elíptica, que em muito se beneficia das participações de atores de maior talento (para citar apenas dois, listamos Thiago Justino, do lado dos revoltosos, e Kiko Mascarenhas, do lado dos escravagistas), mas falta algo: talvez texto, talvez direção, talvez um problema da mediação de ambos… fato é que alguns personagens simplesmente não alcançam o desenvolvimento que, provavelmente, deveriam ter. Figuras importantes para a trama, como Sabina, a delatora que expõe o planejamento do levante às autoridades baianas, têm suas particularidades e motivações esboçadas de maneira um tanto quanto superficial. Camila Pitanga é inegavelmente uma estrela, e justamente por isso tendemos a esperar mais de suas personagens. Falta algo.
Algumas escolhas de direção possuem resultados variados. A infame câmera na mão, epidemia que assola as sequências de ação desde o cinema hollywoodiano dos anos 2000, funciona bem para alguns momentos — a invasão do casamento em Oió, por exemplo — e não tanto em outros — como, infelizmente, a revolta dos Malês que é o grande momento da história. A própria escolha de dividir a noite de levante em duas partes (um trecho no prólogo, o restante no apogeu do longa), claramente calcada para gerar expectativa, pode acabar sendo anticlimática: mesmo os espectadores de todo não-familiarizados com a revolta atravessam as quase duas horas completas de minutagem sabendo, desde o princípio, que o levante havia sido denunciado antes mesmo de ser efetuado, como também sabe ser a personagem de Camila Pitanga uma “dedo de seta” digna dos discos de Bezerra da Silva2. Um dos desafios de Malês, a partir de então, passa a ser: como construir, em tela, a escalada de eventos que leva ao levante? Nisso, Pitanga atinge o êxito através de seu comando dos subnúcleos, alçado nos momentos mais bem-resolvidos do texto. O outro desafio surgido desse prólogo: como construir uma personagem que, desde o princípio, é apontada como traidora, e fazer com que o público entenda suas motivações e se importe com ela? Este, enfim, acaba dando com os burros n’água. Certo, a dedo-duro é devota aos orixás, na prática religiosa hoje conhecida por Candomblé, em oposição aos Malês islâmicos… mas o filme dedica toda uma sequência a mostrar que a própria ialorixá3 do terreiro de Sabina endossa enfaticamente o levante e prega a união de credos por um bem maior. Outra de sua principal motivação seria demover o marido, influenciado por seu irmão a tomar parte do movimento (“má influência”, como se insurgir-se contra a escravidão fosse algo à nível de tomar uma cachaça no boteco)... mas denunciar o grupo ao qual seu esposo (e pai de seus filhos) está filiado à polícia do império escravagista definitivamente não parece a maneira mais efetiva de se salvar uma família. Enfim, Sabina é uma figura histórica, e traduzir as motivações, pensamentos e atitudes de alguém que de fato existiu, ainda por cima há quase dois séculos, pode ser uma tarefa difícil. E, como costuma ser o caso com tarefas difíceis, nem sempre havemos de realizá-las com êxito.
Se nos apegamos tanto às questões relativas a uma personagem que “não deu certo”, nada mais justo do que frisar um que “vingou”: Ahuna (ou “Pedro de Luna”, conforme seu “nome de branco”), um dos cabeças do levante, vivido por Rodrigo dos Santos. Inteligente e articulado, frio e destemido, ele acaba por se impor como um dos personagens centrais do longa. É um dos tantos escravizados da trama de Malês a serem submetidos a severos castigos corporais; nestas sequências, Pitanga opta por uma abordagem sutil (dentro do possível): jamais mostra a chibata efetivamente estalando sobre as costas dos subjugados e abrindo os lanhos sangrentos. Direciona sua câmera momentaneamente aos rostos dos castigados ou de seus algozes, a gestos ou detalhes: ouvimos, entendemos e sentimos o que está acontecendo, e isso basta. Um filme dirigido por, protagonizado pelas e direcionado às sensibilidades afro-brasileiras não teria muito a ganhar com a exploração visual crua da tortura sistêmica de um povo à guisa de gore cinematográfico.
Irregular e imperfeito, como todo grande projeto cinematográfico tende a ser quando se materializa após décadas existindo apenas como sonho (basta ver o que Francis Ford Coppola fez de seu Megalopolis [2024]), Malês ainda assim é um filme sólido e bem-acabado. Os que temiam que fosse sair à moda do canhestro Medida Provisória (2020) de Lázaro Ramos (como se os cinemas negros brasileiros pudessem ser comparados e nivelados apenas pelos produtos de seus artífices mais conhecidos pelo público geral) podem ficar descansados. E os que estão curiosos para ver à que pé anda a força e o talento de Antônio Pitanga, podem correr para conferir em tela grande, antes que o filme desapareça do circuito exibidor.
MALÊS, dir. Antônio Pitanga.
Sinopse: Um casal é separado após serem arrancados de sua terra natal na África e trazidos para o Brasil à força como escravizados. Enquanto lutam para sobreviver e tentar se reencontrar, ambos se envolvem no levante dos Malês.
Hoje nos cinemas.
Duração: 1h54. Assista ao trailer.
Entre o torresmo e a moela, do disco Aldir Blanc e Maurício Tapajós, 1994.
Ver Malandragem Dá um Tempo, samba gravado por Bezerra da Silva no disco Alô alô malandragem, maloca o flagrante, de 1986; ou ainda Fofoqueiro é a imagem do cão, lançado no disco Justiça Social, de 1987.
Sacerdotisa do Candomblé, é figura de autoridade nas cerimônias da religião. Também conhecida pelo desígnio de “mãe-de-santo”.

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