Com o v(6), n(14), sigo colocando aqui alguns textos menos conhecidos (e que estavam soltos, por aí, há um bom tempo.
“Serial Killers”: Os números seriais dos demônios econométricos na terra do sol - fevereiro 10, 2015
Um grande problema aflige a segurança internacional. Não, não é o tráfico de crianças de países pobres para países ricos por meio de adoção legalmente reconhecida. Também não é a insistência das pessoas honestas em acabar com a fonte de renda extra dos políticos. Não, meu caro leitor. Trata-se dos terríveis números seriais dos programas econométricos.
Em vários departamentos de economia do mundo inteiro ocorre o mesmo problema: alunos compram programas como o Matlab ou o Eviews e professores e estudantes inescrupulosos tentam obter os números seriais (famosos serial numbers) de maneira ilegal. Há relatos de alunos que foram dopados em sessões de sanduíches durante seminários de tese para depois acordarem na banheira, cobertos de gelo, sem seus números seriais legalmente adquiridos. Os relatos variam, mas todos comungam da mesma trama central: o roubo dos ditos números.
O crime, tal como a burrice alheia, é disseminado pelo planeta. Indicadores mundiais mostram que o Brasil é o país com melhores condições de ganhar a copa da corrupção (lembre-se que Felipão não é mais o técnico querido da CBF e Joaquim Barbosa é apenas um “negro de alma branca”). Nos anos 80, os crimes não ocorriam tanto porque era fácil conseguir uma cópia do TSP (vovô do Eviews) sem muito esforço. Contudo, com a abertura neoliberal que permitiu a cada xenófobo digitar e publicar seus textos contra a globalização, a disseminação dos crimes contra o patrimônio econométrico dispararam.
Alguns leitores – que preferem, compreensivelmente, permanecer na segurança do anonimato – relatam que até discos com cópias dos microdados do Censo e da PNAD são vendidos em esquinas desertas e sombrias nos grandes centros brasileiros. É verdade que a demanda não é lá muito grande, mas todos concordam que é qualificada. Claro, é importante ter em mente que há padrões regionais. Em Campinas, em certos bairros do Rio de Janeiro e na região da Pampulha (Belo Horizonte), a demanda é baixa porque, sabe como é, “a economia não é só matemática e a econometria é apenas um capricho neoliberal” para alguns ‘supostos’ estudiosos (sigo a metodologia da Folha de São Paulo, ok?).
Mas antes que eu me perca, eis o mais recente relato, enviado a este escriba por um estudante de pós-graduação do nordeste brasileiro. Para preservação dos nomes – mas também para não cansar nosso fiel leitor – vamos criar pseudônimos. Assim, os nomes que se seguem são absolutamente diferentes dos nomes dos envolvidos e qualquer semelhança é mera coincidência (e, como diriam meus advogados, o que não for coincidência é causado por um transtorno psicótico que nunca me impediria de galgar altos postos em partidos políticos ou na Petrobrás).
Este relato é tão sério e espantoso que merece, penso eu, divulgação imediata. Portanto, vamos a ele.
Paraíba, João Pessoa, 06 de fevereiro de 2015, 13:28. Em uma sala algo isolada e deserta de certo departamento de economia, um aluno, cujo pseudônimo é Lucas, declara ter – não sem demonstrar certo orgulho – comprado licenças individuais de Matlab e Ox(metrics). Suas palavras atingiram fortemente os (lembre-se: pseudônimos…) demais supostos economistas na sala: Claudio, Erik e Francisco.
A partir daquele momento, um complexo e maligno plano começou a ser arquitetado pelas mentes destes três criminosos. O crime, como tudo no país, envolveria não apenas os três, mas também membros do poder público (pomposo, não?). Por meio de trocas de mensagens e sinalização corporal, os diabólicos economistas preparam a arapuca.
O leitor vai me perdoar, mas a segunda parte do relato ocorre após algumas horas, motivo pelo qual vamos às 21:16 do mesmo dia. Supostamente, haveria uma confraternização com mais economistas em torno de uma defesa de tese, mas o núcleo criminoso logo dissuadiu o recém-doutor de envolver mais pessoas na festa e enviaram-no para longe com uma inexplicável justificativa. A bem da verdade, a apuração dos fatos indica que outro personagem, o (pseudônimo, lembra?) suposto Lauro, iria receber, ele mesmo, os tais números seriais, posteriormente.
O que ocorre a seguir, meu caro leitor, só pode ter sido concebido por mentes para lá de diabólicas. Lucas foi convidado para um boteco no qual estavam os suspeitos Francisco, Claudio e Erik. Supostamente, haveria uma sequência de cervejas e tira-gostos. Como não conseguiram cooptar os garçons, não conseguiram inocular doses de anestésicos e outras substâncias na coxinha de camarão, na carne de sol, ou mesmo nas batatas fritas.
Foi assim que um dos suspeitos resolveu puxar conversa com Lucas sobre cadeias de Markov (golpe clássico, como sabemos nós, estudantes de economia, utilizado para a obtenção de programas econométricos de forma ilegal) enquanto os outros dois colocavam substâncias de efeito relaxante em sua cerveja. Em seguida, como combinado, Erik (acompanhado de sua esposa, cujo pseudônimo é Luciana, e que havia chegado no meio da festa, para não levantar suspeitas) disse que tinha que ir embora. Sexta-feira, 22:00 e o povo vai para casa dormir? Só poderia ser um golpe (com alfa de 0.05, ok?).
Como esperado (com média zero e variância sigma ao quadrado), todos resolveram ir embora. Como apenas Erik e Lucas tinham automóveis, combinou-se que Lucas levaria Francisco e Claudio para o hotel (suspeito de ser o centro de distribuição de números seriais de pacotes econométricos, segundo fontes anônimas da polícia). Durante o caminho, várias barreiras nas ruas, previamente combinadas com os elementos da polícia, alongavam o tempo do percurso da volta, o que poderia ajudar na obtenção dos famigerados números.
A despeito das substâncias despejadas na cerveja, Lucas conseguiu dirigir de maneira sóbria e as barreiras policiais não foram suficientes para que Francisco e Claudio conseguissem arrancar dele os números. Parece que um dos policiais, que faria uma parada para inspecionar o carro com a desculpa de investigar um suposto tráfico de bases de dados de gêmeos monozigóticos desistiu de participar do esquema.
Assim, por volta das 23:19, encerrava-se, como um fracasso total, a operação que visava disseminar o uso de dois pacotes computacionais de suma importância nos mestrados e doutorados da América Latina. Ainda bem.
Oswaldo ou Osvaldo? - Este, de 16/jan/2020, quando eu já pensava em migrar para esta nossa plataforma…
Apavorado com o esquecimento do aniversário da esposa – um doce de pessoa, exceto quando esquecem o aniversário dela – o marido foi informado que havia uma saída: a internet. Não exatamente, mas a internet tem o milagre das compras online com entrega no mesmo dia. Foi o caso da loja de flores.
Em uma luta contra o tempo que poderia lhe custar a vida (ah, se Suleimani tivesse esperado a carona…), concluiu o pedido no site. Em seu parco romantismo (ou parca inteligência), enviou um cartão sem seu nome.
– Quando eu ligar, será uma surpresa!
Horas depois, preocupado, liga para a esposa. Ela imediatamente lhe pergunta, em ríspido tom de voz:
– Foi você quem mandou isso?
– Isso o que?
– Olha aí a foto no seu celular, desmemoriado!
Instantes se passam.
– Sim, sim. Gostou?
– Quase não recebi.
– Como assim?
– O entregador falou que eram de um tal Oswaldo…
O marido se transformou.
– Como assim, Osvaldo?
– Pois é, Oswaldo.
– Peraí, Osvaldo ou Oswaldo?
– Como assim?
– Osvaldo com “v” ou com “w”?
– Faz diferença? Enlouqueceu?
– Você está se evadindo da pergunta!
– Sei lá se é com “v” ou com “w”?
– Você recebe flores de um cara e nem sabe como escrever o nome dele?
– Espere, eu disse que o entregador é qu…
– Eu aqui, enviando flores, mas você só pensa no Osvaldo, ou Oswaldo…já nem sei…
– Não, espere, você está exag…
– Não acredito que você não checou a grafia do nome…
– Claudio, você teve problemas com sua professora de Português no jardim?
– Osvaldo, Oswaldo…tanto faz…nada mais faz sentido…
– Cláudio, acorda!
– O que foi?
– Estou falando com você, Cláudio!
– Cláudio ou Claudio?
Enfurecida, a esposa desligou o telefone. O divórcio foi negociado uma semana depois por Dione. Ou pela Dione? Já não tenho certeza.
A necessidade imperativa do céquissô - Este, de 23/dez/2014.
Esperando por uma consulta, parei em uma banca de jornal. Hoje elas são raras, mas ainda existem. Comprava uma revista sobre neurociências e meditação (também tenho meus momentos de fraqueza, né?) quando um senhor apareceu. Ele olhava meio sem jeito para a vendedora – que é uma mulher muito paraíba, se é que vocês me entendem (eu tenho até medo de apanhar quando compro algo e não levo o dinheiro trocado) – e pensei que fosse este o motivo.
De repente ele a chama pelo nome. Eu já me preparava para avançar uns passos para o outro lado da rua quando ouvi o distinto senhor:
– Você tem a sequissí?
– Não.
Pensei comigo mesmo por uns segundos: “sequissí”? Aí a ficha caiu: é a necessidade imperiosa do céquissô em ação.
Até mais ler.
(*) até mais ler” foi plagiado do Orlando Tosetto, cuja newsletter, aliás, você deveria assinar.
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