Eis o v(6), n(29) da newsletter. Com a derrota do Japão, resta-me torcer pelo Brasil. Como o atual ocupante do Palácio do Planalto tem feito questão de demonizar Neymar Jr e, por extensão, a seleção, pego-me imaginando que mentira ele dirá se o escrete avançar. “Escretes e escrotos”: eis um título de livro para um compilado entre políticos e futebol no Brasil.
Continuando com a terceira parte…
Noboru, não tão feliz - As semanas seguintes foram de uma agradável intensificação da amizade entre ele, Noboru, e Leila. Tudo parecia se encaminhar para uma encruzilhada na qual sempre se encontram as paixões, qual seja, aquela em que a decisão final será entre o namoro ou a amizade.
Muitas convergências entre eles: do futebol até a política passando pela literatura e pelos filmes (ambos adoravam comédias). Outros terrenos permaneciam inexplorados, mas com potencial (como o gosto musical de ambos) para maior aproximação entre o casal.
A lanchonete passou a ser um ambiente familiar para Noboru. Não era mais apenas um ponto de parada para um lanche rápido ou para atender ligações. Agora, a lanchonete era o início e o fim de seus pensamentos. Não concebia não passar por lá e se inquietava caso não visse Leila por trás do balcão (e imaginava, claro, mil e uma tragédias que se desfaziam rapidamente ao vê-la).
O coração de Noboru batia mais forte mas, como sabemos, na paixão, um coração não ouve o outro e só se consegue ter alguma noção do interesse alheio por meio da convivência (e nisto, ambos trabalhavam bem).
Leila, que há algum tempo havia abandonado um namorado, via no cliente-amigo um confidente, uma companhia agradável, mas seus olhos não se enchiam de paixão por ele. Talvez, quem sabe, em algum momento, isto pudesse mudar, mas o desabrochar das paixões não segue uma receita geral. A seu modo, seguem caminhos tortuosos, nem sempre óbvios e particulares. Era o que sempre dizia a falecida mãe de Leila à filha, quando das angústias da adolescência.
A quinta-feira amanheceu nublada, com promessa de chuva conforme o programa da estação de rádio sintonizada na lanchonete. Leila amarrou seu avental, lamentou-se de não ter trazido o guarda-chuva e checou a máquina de café. Pegou seu caneco de porcelana enfeitado com um desenho de um gatinho e com seu nome - presente de Noboru - e serviu-se de um pouco do café para verificar se precisava ou não adicionar mais pó. Concluiu que estava bom. Deixou o caneco na pia e foi ao balcão checar os salgados e doces.
Na rua, alguns carros e poucos pedestres. Caminhando de forma comedida, tentando não se apressar para não suar e não desacelerar muito para não ter pouco tempo com Leila vinha Noboru e seu coração ansioso. Encontrar Leila antes do trabalho, esta era sua meta diária. Foi assim que quase tropeçou e beijou um poste. Assustado e aliviado, agradeceu silenciosamente por não ter se esborrachado ali, tão perto de seu destino. Teve devaneios de imaginar-se socorrido por uma preocupada e igualmente apaixonada Leila.
Abriu a porta da lanchonete e o sorriso em seu rosto ficou mais radiante. Leila, como sempre, pareceu-lhe a mais linda das mulheres. Sentou-se em frente ao balcão e a cumprimentou recebendo um sorriso igualmente sincero. Logo recebeu também o café com misto quente que Noboru se acostumara a pedir (até para fixar sua presença na memória da amada garçonete e, quem sabe, também em seu coração).
Feliz com seu lanche matinal, Noboru puxou uma conversa sobre um tema qualquer (quase qualquer, né?) com Leila e, se alguém pudesse observá-los, veria mais sorrisos. Noboru já se sentia confiante o suficiente para fazer a pergunta que eu e você esperamos dele. A ansiedade aumentou e ele quase derrubou - novamente - o café na mesa.
Em meio a uma comparação entre filmes de Mel Brooks e Jerry Lewis, Noboru, bem discretamente, lançou o que mais próximo de um pedido de namoro ele poderia formular: um convite para um passeio a dois no parque da praça do bairro no sábado, no horário do almoço, seguido, claro, de um almoço a dois no restaurante do outro lado da rua, já mencionado por Leila de forma positiva em algumas de suas conversas.
Leila parou de sorrir e, com um ar mais sério, porém educado, disse-lhe que não poderia aceitar o convite. Noboru apostou mais alto (o não ele já parecia ter) fez-se mais claro, agora com a voz trêmula. Leila lhe disse que eram amigos, que gostava muito dele, mas a amizade era tudo o que ela poderia lhe oferecer naquele momento. O não, então, ele teve (só faltou vir carimbado e em três vias).
Por dentro, Noboru congelou ao mesmo tempo em que seu café esfriava. Leila continuava radiante em seu coração, viva como uma alma dentro da sua, dando-lhe motivos para querer viver mil anos. Contudo, tudo isso também parecia estar congelado. Buscando forças, manteve a mesma expressão feliz e suas lágrimas ficaram presas. Disse a ela que estava tudo bem, que ele não se importava e que a amizade dela valia muito para ele (mas muito mesmo…e agora ela sabia disso).
Leila foi gentil e disse-lhe as palavras que se diz quando se decepciona alguém de quem se gosta muito, o que deixou Noboru mais apaixonado, embora já em modo glacial, com sua poker face inabalável que não aprendera jogando pôquer, mas sim ao colecionar decepções amorosas. Era difícil para Leila mensurar o tamanho do estrago, mas, alma boa que sempre fora, buscou ser carinhosa com o triste amigo.
Noboru conversou mais um pouco, mantendo um ar animado (como lhe doía manter a calma…) e, então, disse que já era a hora de ir-se, que o trabalho urgia e que voltaria no dia seguinte. Leila sorriu-lhe o mesmo sorriso de sempre (embora um pouco mais contido) e que seria bem-vindo (embora Noboru soubesse que poderia ter perdido mesmo a guerra, não apenas a batalha).
Ao abrir a porta, Noboru viu que o sol havia se manifestado, assinado sua presença na lista de chamada, deixando sombras por toda a paisagem urbana e uma temperatura ligeiramente mais quente. Olhou para o chão, sorriu e notou que, de algum modo, sua sombra parecia mais pesada e cansada do que as outras. Levantou o pescoço, viu que havia ainda uma caminhada a ser feita e foi para o trabalho liberando algumas lágrimas porque, afinal, estava novamente sozinho.
(continua)
Copa do Mundo - Um bom exemplo de externalidades (no caso, negativas) aqui.
IA e os Custos de Transação - Um texto interessante do prof. Nicolai Foss.
Evidências não bastam - Não adianta falar que obteve evidências com experimentos aleatórios controlados. É preciso ir um pouco além. Texto important de Todd Moss.
Um longo, mas informativo trecho:
RCTs are not built for the questions that actually move ministers -- or members of the US Congress. Which brings me back to the misguided rationale in some circles that more rigorous randomized studies can save smart development policy in Washington DC and help us rebuild something akin to USAID again. I don’t buy it.
I have seen nothing to suggest that what allowed USAID to be burned to the ground is a lack of peer-reviewed evidence. Does anyone believe that Republicans on Capitol Hill would have defended USAID from DOGE if they had 100 (or even 1000) more academic studies showing the positive impact of aid spending? Of course not. So the way to rebuild a durable political constituency for US development policy is not to double down on randomized experiments.
We need evidence, but not that kind. I would start with old school qualitative research that is way out of fashion. We should be asking all of the old congressional champions what happened, what went wrong, and how did the political incentives shift. Only by understanding the motivations and actual priorities of legislators, senior executive branch officials, and the multitude of external forces that influence them, will we ever come to a new, better understanding of how to rebuild. One good oral history would be far more valuable than a mountain of new impact studies.
Não sou lá fã de análises qualitativas, mas nem por isso acho que as análises quantitativas não têm problemas.
Aniversário (breves) - Ganhei um almoço incrível e dois livros (em companhias ótimas, mas distintas: algumas no almoço e outra com os dois livros). A vida é menos solitária quando se tem amigos e amigos não precisam concordar com você em tudo (estes são os puxa-sacos). Só precisamos mesmo de sua amizade e, o mais importante, retribuí-la com, no mínimo, a mesma amizade.
Até mais ler!
(*) até mais ler” foi plagiado do Orlando Tosetto, cuja newsletter, aliás, você deveria assinar.
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Talvez você seja novo por estas bandas. Rapidamente: publico geralmente às quartas. Eventualmente há algumas edições extraordinárias. Assinar (custo = R$ 0.00 + valor do seu tempo para apertar o botão subscribe com seu endereço de e-mail lá…) me ajuda bastante. A temática? De tudo um pouco.
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