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Casa Dinamarca · Jun 9, 2026

Da participação à influência

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Casa Dinamarca · Casa Dinamarca

Do *Marcelo Egéa

Imagem criada pelo autor, com a ajuda do ChatGPT.

No dia 28 de janeiro de 2026, um grupo de veteranos dinamarqueses realizou um protesto incomum diante da embaixada dos Estados Unidos em Copenhague. Em homenagem aos 44 soldados da Dinamarca que perderam a vida na guerra do Afeganistão, eles colocaram 44 bandeiras dinamarquesas em frente ao edifício. A ação surgiu como resposta a declarações que pareciam minimizar a contribuição dinamarquesa para aquela missão internacional. Não houve discursos, carros de som nem manifestações agressivas. Havia apenas bandeiras. Ainda assim, o gesto ganhou repercussão nacional e internacional. Quando as bandeiras foram removidas, o debate se ampliou e novas bandeiras surgiram em outros locais. Algo aparentemente simples havia mobilizado a atenção de milhares de pessoas.

Ao ler essa história, lembrei-me imediatamente de Václav Havel. Dramaturgo, dissidente político e, posteriormente, presidente da Tchecoslováquia e da República Tcheca, Havel escreveu, em 1978, um ensaio que se tornaria um clássico da reflexão política contemporânea: O Poder dos Sem Poder. Seu argumento desafiava uma ideia amplamente difundida: a de que a influência pertence apenas àqueles que ocupam posições de autoridade. Para Havel, os sistemas de poder dependem não apenas de governos, instituições e estruturas formais, mas também da participação cotidiana das pessoas que lhes conferem legitimidade. Quando indivíduos ou grupos encontram maneiras de agir de acordo com seus valores e de revelar aquilo que permanecia oculto, podem produzir mudanças muito maiores do que seu tamanho ou posição sugeririam.

As 44 bandeiras não mudaram uma política pública, não alteraram acordos internacionais nem produziram novas leis. Seu impacto veio de outro lugar. Elas transformaram uma percepção coletiva em um símbolo concreto. E símbolos possuem a capacidade singular de condensar significados complexos em imagens simples. Ao olhar para aquelas bandeiras, não se viam apenas pedaços de tecido, mas uma história compartilhada, um reconhecimento coletivo e uma afirmação de valores. O gesto deu forma a algo que muitas pessoas já sentiam, mas que ainda não havia encontrado uma expressão pública clara. Talvez seja exatamente isso que Havel procurava descrever ao falar sobre o poder daqueles que aparentemente não possuem poder.

A tradição democrática escandinava sempre atribuiu grande valor à participação. Não apenas nas eleições ou nas instituições públicas, mas também na vida cotidiana, nas comunidades e nos locais de trabalho. Existe uma compreensão amplamente compartilhada de que as decisões tendem a ser melhores quando as pessoas afetadas por elas podem contribuir para sua construção. Essa lógica contrasta com modelos excessivamente centralizados, nos quais poucos decidem e muitos apenas executam. O episódio das bandeiras pode ser visto como uma expressão dessa cultura: cidadãos comuns encontrando uma forma respeitosa, simbólica e profundamente humana de participar de uma conversa que consideravam importante.

Emil Helms/Ritzau Scanpix/AFP

À primeira vista, pode parecer estranho relacionar um protesto silencioso em Copenhague ao campo da facilitação profissional. No entanto, existe uma conexão profunda entre eles. Ao longo das últimas décadas, facilitadores em todo o mundo têm se dedicado a uma questão fundamental: como criar condições para que mais pessoas participem das conversas, decisões e processos que afetam suas vidas? Em vez de concentrar a influência em poucas vozes, a facilitação procura trazer à superfície perspectivas, experiências e conhecimentos que, em situações normais, permaneceriam à margem. Seu objetivo não é eliminar diferenças nem produzir consensos artificiais, mas ampliar a qualidade da participação e da inteligência coletiva.

Dentro desse movimento surgiram diversas abordagens, métodos e práticas. Uma que tem ganhado espaço nos últimos anos é a Liberating Structures (Estruturas Libertadoras), desenvolvida por Henri Lipmanowicz e Keith McCandless no início dos anos 2000. Reunindo microestruturas simples e adaptáveis, são utilizadas hoje em empresas, hospitais, universidades, organizações sociais, governos e comunidades ao redor do mundo, buscando responder a uma pergunta essencial: como permitir que mais pessoas contribuam verdadeiramente, de forma significativa, para desafios compartilhados? Disponibilizadas livremente por meio do site LiberatingStructures.com, as Estruturas Libertadoras representam um exemplo concreto de como a facilitação pode transformar participação em influência.

Talvez essa discussão seja ainda mais relevante hoje do que quando Havel escreveu seu ensaio.

Vivemos em uma época marcada pela ascensão da inteligência artificial, da automação, dos algoritmos, das redes sociais, dos drones e de sistemas cada vez mais sofisticados de processamento de informação. Grande parte do debate contemporâneo gira em torno daquilo que as máquinas conseguem fazer melhor do que os seres humanos. Paralelamente, porém, observa-se um fenômeno igualmente importante: a revalorização daquilo que é exclusivamente humano.

Escutar. Dialogar. Construir confiança. Compartilhar significado. Criar pertencimento. Nenhuma dessas capacidades pode ser reduzida a linhas de código ou delegada integralmente a algoritmos. Quanto mais avançam as tecnologias, mais percebemos o valor desses elementos. Não por acaso, cresce o interesse por abordagens que ampliem a participação, fortaleçam a colaboração e permitam que as pessoas contribuam de forma mais plena para as decisões que as afetam. Tecnologias processam informações, mas são os seres humanos que atribuem significado. E, em última análise, é o significado compartilhado que continua movendo sociedades, comunidades e organizações.

As bandeiras tornaram concreta uma memória coletiva. Havel revelou uma forma diferente de compreender o poder. As Estruturas Libertadoras procuram evidenciar a inteligência que já existe dentro dos grupos e organizações. Em todos os casos, a transformação começa quando pessoas comuns encontram maneiras de participar da construção de significado compartilhado.

Mais de quatro décadas depois de O Poder dos Sem Poder, a reflexão de Václav Havel permanece surpreendentemente atual. Afinal, a pergunta central continua a mesma: como pessoas comuns podem influenciar sistemas muito maiores do que elas próprias?

As 44 bandeiras em Copenhague nos oferecem uma possível resposta: participando.

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* Marcelo Egéa é psicólogo, mentor, facilitador e consultor. Atualmente preside o capítulo Brasil da IAF - International Association of Facilitators, organização com 32 anos de história e presente em mais de 100 países.

Saiba mais sobre o autor: https://www.linkedin.com/in/marceloegeam/
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