Nessa semana, a conversa sobre o poder da influência esteve muito forte, com o vídeo do youtuber Felca sobre adultização de crianças mobilizando uma discussão gigante (e essencial) no país. Além do tópico central, o vídeo também acendeu o papo sobre o uso positivo da influência, a partir do exemplo super legal dado pelo Felca. Será que podemos esperar mais exemplos positivos como esse da cultura de criadores?
A Geração Alfa classifica "YouTuber" e "TikToker" como seus dois principais empregos dos sonhos. E como aponta o pesquisador Matt Klein, a confiança está no centro da discussão quando pensamos no crescimento da cultura de criadores. Conforme as pessoas diminuem suas esperanças na mídia tradicional, no governo e até na religião, os criadores surgem como novas vozes de confiança e construção de sentido.
No Brasil, 82% das pessoas dizem não confiar no Congresso. As instituições tradicionais se atrapalharam com a honestidade, a respeitabilidade e a autoridade, custando a si mesmas bilhões e à democracia. Dados da Edelman Trust revelam (especialmente para a Geração Z) que as pessoas são mais propensas a confiar no que um criador diz sobre uma marca do que no que o próprio CEO da marca diz sobre ela.
Seres humanos confiam em outros seres humanos, e enxergam nos influenciadores a autenticidade que deixam de enxergar na mídia tradicional. Porém, enquanto vemos a sociedade depositar a sua confiança para influenciadores, não podemos esquecer o controle que as plataformas de mídia social têm sobre o que é veiculado. Será que podemos confiar nas empresas por trás do conteúdo que vemos?
Neste ano mesmo, a Meta encerrou o seu programa de verificação de fatos, política que existia para evitar a veiculação de notícias falsas e desinformação. Como parte da reformulação da moderação de conteúdo, a empresa também eliminou regras de proteção à população LGBTQ+, mulheres e imigrantes, dizendo que essas questões estão “fora de sintonia com o discurso dominante”.
Como aponta o NYT, medidas assim fazem com que a verdade seja vista apenas como mais um debate tóxico entre lados opostos nas redes sociais. Para Matt Klein, estamos lidando com um cenário de fragilidade profunda, e precisamos considerar essa fragilidade. Precisamos buscar e defender um caminho real para tornar as redes sociais realmente um lugar mais seguro e confiável para todos.
Quantos livros você leu no último ano? E quanto tempo você passou online? Cada vez mais, estamos percebendo que existe uma relação direta entre essas duas coisas.
A discussão sobre como a tecnologia pode estar alterando nossa capacidade não apenas de concentração, mas também de leitura e raciocínio está crescendo. Como apontou o NYT, de acordo com um relatório recente, as pontuações de alfabetização de adultos se estabilizaram e começaram a declinar na maioria dos países da OCDE na última década, com alguns dos declínios mais acentuados sendo visíveis entre os mais pobres.
Crianças também apresentam declínio na alfabetização. Em um artigo no The Financial Times, John Burn-Murdoch associa isso à ascensão de uma cultura pós-alfabetizada, na qual consumimos a maior parte de nossas mídias por meio de smartphones, trocando textos densos por imagens e vídeos curtos.
Um estudo liderado pelo Fluid Focus, um aplicativo que recompensa hábitos mais saudáveis de tempo de tela e produtividade, descobriu que os estudantes passam, em média, cinco horas e 30 minutos por dia em seus celulares. Esse tempo aumenta com a idade, com alunos do ensino médio tendo uma média de cinco horas e 12 minutos, em comparação com alunos universitários com seis horas e 12 minutos.
O estudo descobriu que menos de um em cada 25 estudantes consegue estudar por uma hora sem pegar o celular, com cerca de 40% verificando o celular a cada cinco a 10 minutos. No entanto, o estudo observou que 94% dos estudantes universitários querem reduzir o tempo gasto no celular, com a grande maioria sentindo que reduzir o tempo de tela pode melhorar o bem-estar (96%) e o desempenho acadêmico (92%).
Aqui no Brasil, a ‘lei do celular’ proibiu o aparelho nas salas de aula, e foi recebida com bons olhos por pais e professores. Os alunos que começaram no início resistindo às medidas, relatam as melhorias depois de um tempo. Uma reportagem do G1 mostra o processo de adaptação de uma aluna: “A gente passou a ficar mais juntas. Todo mundo está mais junto. Porque não tem muito o que fazer, né? Agora, acabo não sentindo mais tanta falta do celular”.
E o hábito da leitura, será que dá para retomar, ou até mesmo começar do zero, para jovens que já cresceram substituindo os livros e gibis pelas telas? Retomar o prazer da leitura é mais demorado para uma mente já acostumada com estímulos infinitos e muito mais rápidos das telas, mas não é impossível.
O importante é começar, nem que seja para ler uma página por dia. Escolher gêneros de leitura mais fáceis de ler também é uma boa - ficções costumam funcionar, já que nos prendem mais para saber o final. Outra coisa importante é lembrar que não estamos numa competição. Hoje, tudo vira performance, e se comparar para tentar bater uma “meta” não vai ajudar. Leia no seu ritmo, no tempo que tiver e na velocidade que conseguir.
E por falar em leitura, vale muito a pena ler esse artigo da Mapu, dando muitas dicas valiosas para encontrar bom conteúdo online para substituir a rolagem infinita de conteúdos apocalípticos. A lista é extensa, então fica aqui só um gostinho do que ela sugere:
Ler publicações e revistas online
Buscar leituras mais densas sobre mundo, em vez de opiniões curtas
Consumir mais de literatura online (ela indica muitos blogs para caçar reviews de livros e encontrar a próxima leitura)
E por falar em blogs, eles seguem a todo vapor - inclusive as newsletters são uma forma de manter os blogs vivos para muitos criadores. Encontre e salve aí na sua barra de favoritos os escritores dentro do seu tema de interesse. E não deixa de me contar a sua dica de leitura preferida, vou adorar saber.
Esses dias fui ao Maranhão conferir a abertura da exposição “Cosmogonia Colérica”, de Thiago Martins de Melo, artista brasileiro de renome internacional, que apresenta a sua primeira individual, celebrando a sua trajetória e a potência do lugar que o formou. Com curadoria de Germano Dushá e patrocínio do will bank, a mostra reúne 21 obras — pinturas, esculturas, vídeos e instalações — que propõem uma experiência imersiva, visceral e visualmente impactante.
O universo estético de Thiago, nortista de identidade latina e ancestral, convoca mitologias afro-indígenas, cenas de resistência popular, corpos em transição e espiritualidade ancestral em uma explosão de fúria criativa — como sugere o título "Cosmogonia Colérica", um choque entre gênese e enfrentamento histórico. Suas narrativas visuais são intensas, feitas de símbolos que dialogam com a nossa realidade, e celebram o retorno ao lugar de origem como território criativo e vital.
A exposição celebra dois espaços significativos do circuito cultural local: o antigo Convento das Mercês e o inovador Chão SLZ, onde também acontecem oficinas — "Pintura como meio" com o artista, “Curadoria como pesquisa ativa” com Germano Dushá e “Expografia como pensamento espacial” com Alberto Rheingantz. Além disso, há visitas mediadas e ações de formação cultural voltadas para estudantes e comunidade.
Mais que um panorama retrospectivo, “Cosmogonia Colérica” é um retorno simbólico e afetivo: a obra de um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira volta às suas raízes para reafirmar que o Maranhão é, para ele, matéria viva, ancestral, luz, cor e força — agora revelada ao mundo, com o apoio de parceiros e patrocinadores que acreditam na potência da cultura.
A entrada é gratuita, e está aberta ao público até 10 de outubro. Se puder, não perca :)
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