1.
É difícil assistir ao quase irretocável O Agente Secreto e não pensar em Retrato Fantasma (2023), um documentário memorialístico sobre a relação de Kleber Mendonça Filho com as salas de cinema e, em última análise, com as transformações da cidade de Recife. A cada detalhe da perfeita reconstituição de época de O Agente Secreto, fico imaginando os compartimentos nostálgicos da mente de Mendonça brilhando como uma máquina de pinball; a emoção de fazer os personagens ligarem de um orelhão e um deles dizer minhas fichas vão acabar; recriar o menino dos telegramas com os papéis dobrados entre os dedos entrando em uma repartição pública; colocar na rua as velhas fantasias de um Carnaval que eu nunca vivi; pendurar em uma galeria os letreiros dos comércios extintos, encher as ruas de carros coloridos, fazer uma sala de cinema ficar lotada de novo. Como brasileira, quero agradecer a Kleber Mendonça por oferecer esse presente à nossa memória nacional estropiada.
2.
O único defeito de O Agente Secreto é não se satisfazer com 1977. As cenas das duas meninas no tempo presente que trabalham nos arquivos sobre Marcelo-Armando é tão corta clima quanto um interfone tocando no meio do sexo. A impressão que eu tenho – eu ainda com Retrato Fantasma na cabeça, portanto sem conseguir, vergonhosamente, dissociar autor e obra – é que Kleber Mendonça não conseguiu se segurar. Precisava colocar o apagamento da memória, da cidade, a transformação radical dos grandes centros urbanos brasileiros, como uma camada extra do filme. Nem que para isso tivesse que sacrificar o andamento da história. Sacrificou. Passei o longa inteiro enfeitiçada pela qualidade da narrativa – que coisa primorosa aquela sequência de abertura! – para então, nos últimos quinze minutos de projeção, me ver sussurando em desespero à minha esposa: show, don’t tell. O corte para a menina do presente, as tiradinhas de onda sobre a geração Z – não achei nada no Google – e a longa cena no Banco de Sangue cortaram minha catarse pela raiz.
Me senti ejetada à força de uma sequência de cenas que vinha se construindo em uma tensão progressiva e bem costurada. Queria ficar em 1977 e só voltar pro mundo de hoje quando as luzes da sala de cinema se acendessem.
3.
Achei fascinante o maximalismo do Kleber Mendonça. Em alguns momentos, me lembrou Robert Altman e sua atenção para o detalhe, o segundo plano, os quadros cheios de coisas acontecendo. Em outros, cometi o crime de pensar em Paolo Sorrentino, mas só porque as cenas pareciam unidades independentes e isso deixa qualquer filme estranho. Mais parecido com um romance.
4.
Estou lendo A autobiografia do algodão, da mexicana Cristina Rivera Garza. Senhoras e senhores, que livro!
5. Não há condições térmicas ou psíquicas nessa Porto Alegre às portas do Natal para eu escrever uma edição maior ou mais sofisticada do que essa. Mas gostaria de aproveitar essa última comunicação do ano para pré anunciar o Clube Nevoeiro de 2026. Vem comigo.
Não é um curso, mas uma jornada. Para quem quer escrever, tirar um projeto da gaveta, ou simplesmente ler mais. Para quem quer conversar sobre livros com outras pessoas. Em 2026, vamos ler no clube seis romances e seis contos. Os encontros sobre romances seguem a mesma toada dos últimos anos: descontraídos, minuciosos, abrindo mil direções de leitura. Os sobre contos terão um modelo mais “aula”: começo destrinchando o texto, depois partimos para a discussão em grupo. Online, sempre às 19h, com gravação disponível para quem não puder assistir ao vivo.
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O Caderno Amarelo – edições mensais exclusivas para assinantes pagos – passa a focar em tópicos de escrita criativa, rotinas, dicas de leitura.
A ideia é que tudo isso funcione como um conjunto harmônico.
Nosso primeiro encontro será dia 26 de janeiro. Falaremos sobre “Bem-vinda `comunidade”, conto de Samanta Schweblin que abre a antologia O bom mal.
Depois do Ano Novo, vou divulgar a lista das nossas doze obras.
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Boas Festas!
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