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Nevoeiro · Apr 24, 2026

Nevoeiro #68

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Carol Bensimon · Nevoeiro

1.

Algumas coisas que poderiam render bons textos aconteceram nos últimos meses, mas eu não escrevi nem uma linhazinha sobre elas. Não contei que fui convocada para o júri popular de um criminoso sexual e nem sobre minha ida a um torneio de tênis onde pude ver todos os famosos e sobretudo a minha jogadora favorita, número 23 do ranking, Marta Kostyuk (meu interesse pela Kostyuk é o mais perto que já cheguei de acompanhar a vida de uma celebridade). Talvez os dois acontecimentos tenham sido dramaticamente grandes demais para ser resumidos em uma edição de newsletter; pedi dispensa do júri e o juiz a concedeu, mas pude assistir um dia inteiro de cidadãos comuns sendo interrogados sobre diversos aspectos de suas vidas, incluindo histórias pessoais de violência e abuso sexual, exatamente como se vê numa cena do excelente Sorry, baby (2025). Em uma bancada com dezoito pessoas, a metade tinha experiências horrorosas para contar. Inútil dizer que apenas isso já me tinha me quebrado inteira.

Acusado de sete crimes contra uma menina de menos de quatorze anos, o réu tinha ganhado um verdadeiro banho de loja. Bigode aparado, cabelo que viu a tesoura na véspera, o sujeito de 44 anos nos recebeu com um grande sorriso e riu de todos os comentários descontraídos do juiz (sim, houve alguns). O sujeito parecia bem diferente da fotografia de fichamento policial que encontrei em um jornal local durante o intervalo – cabelo selvagem, barba disforme, olhar vidrado de lunático ao ser capturado numa fazenda ilegal de maconha na puta que o pariu do condado depois de ter fugido da polícia por meses a fio.

Foi condenado. O julgamento durou duas semanas.

2.

O que acontece quando contamos algo que vivemos, e o que acontece quando só vivemos e não contamos?

3.

Eu contei. No telefone, para vários amigos, e as pessoas me diziam: você tem que escrever sobre isso. Um cara de uma revista disse: escreva sobre isso. E eu não escrevi. Eu fui na véspera para esse lugar onde fica o tribunal porque precisava me apresentar cedo de manhã, porque estaria chovendo cântaros, porque queria ficar sozinha. Fui na véspera e fiquei tirando fotos de lavanderias brilhando na noite.

4.

Agora estou falando sobre isso porque me apertei. Esse é um daqueles dias. Ao mesmo tempo, não dá para dizer que é o único motivo, pois nessa semana sem nenhuma razão aparente tirei A náusea (sim, Jean-Paul Sartre!) da estante e decidi relê-lo depois de, sei lá, uns dezoito anos. E daí que havia umas coisas sublinhadas e isso foi intrigante. Às vezes a gente acha certos trechos que grifou e se pergunta por que fez aquilo. Fomos nos transformando no meio da nossa jornada – nada mais existencialista do que isso – e não reconhecemos o fascínio do velho eu por aquelas frases, como se tivéssemos comprado num sebo um livro marcado por um estranho e tentássemos decifrar o que aquela leitura significou para ele.

Mas acontece que o trecho que sublinhei de A naúsea na página 64 ainda fazia sentido. Em resumo, eu teria sublinhado tudo de novo.

Eis o que eu pensei: para que o acontecimento mais banal se transforme em uma aventura, basta que alguém comece a contá-lo. É isso que engana as pessoas: todo o homem é um contador de histórias, que vive rodeado por suas próprias histórias e pelas histórias dos outros. Ele percebe tudo o que lhe acontece através delas, e busca viver sua vida como se a contasse.

5.

O parágrafo que precede esse também estava marcado, não linha a linha, mas com um grande colchete. Porque era mais longo, pode ser que eu tenha optado por esse tipo de marcação. Ou será que eu não estava plenamente de acordo com o conteúdo como estava com o do parágrafo anterior, e por isso o marquei sem a convicção empolgada do sublinhado (é isso!), como se estivesse admitindo que havia uma coisa interessante ali, mas que seria preciso voltar a ela mais tarde para pensar melhor?

6.

Você quer saber como continua. Eu vou dizer.

Mas é preciso escolher: viver ou contar. Por exemplo, quando eu estava em Hamburgo, com uma certa Erna, de quem eu desconfiava e que tinha medo de mim, eu levava uma vida estranha. Mas eu estava vivendo aquilo, não pensava muito a respeito. E então, uma noite, num pequeno café em San Pauli, ela levantou e disse que ia ao banheiro. Fiquei sozinho. O toca-discos tocava “Blue sky”. Comecei a repassar mentalmente o que tinha acontecido desde que eu chegara. Disse para mim mesmo: “na terceira noite, ao entrar num salão de dança chamado Grotte Bleue, vi uma mulher alta, meio bêbada. E é essa mulher que estou esperando agora enquanto ouço “Blue sky”, e que vai voltar, sentar à minha direita e me abraçar.” Então senti, em um ímpeto, que estava vivendo uma aventura. Mas quando Erna voltou, sentou-se ao meu lado e me abraçou, eu a odiei sem saber por quê. Agora entendo: foi porque a vida teve que recomeçar, e a sensação de aventura simplesmente desapareceu.

7.

Nos últimos anos, devo ter aprendido a não olhar para isso como se fosse a coisa mais triste do mundo, mas como um vasto mundo de possibilidades. A gente se conta todos os dias, e todo o dia escolhe como se contar (o que é bem diferente de se enganar). Felizmente, casei com uma mulher que também é muito boa nisso.

8.

A única coisa que vou contar sobre o Indian Wells, o campeonato de tênis, se resume à descrição de uma imagem. Foi capturada por uma amiga na transmissão televisiva do jogo Kostyuk vs Townsend. Ali estou eu, mais nervosa do que qualquer integrante da equipe da tenista ucraniana. É match point para a Kostyuk, Melissa me dá um apoio moral. Ao fundo, por uma distorção de imagem, as pessoas parecem duas vezes maiores do que nós, ainda que estejamos em primeiro plano. A foto, além de tudo, magicamente captura a bolinha no ponto mais alto do lançamento de saque da Marta. Ela ganha o jogo. Olho a foto, rio de mim mesma todas as vezes. Parece que conta muito mais do que fomos capazes de ver naquele momento.

Se você gosta da Nevoeiro, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso aos encontros mensais do Clube Nevoeiro, e também recebem as edições do Caderno Amarelo, focado em escrita. Os encontros acontecem via Zoom às 19h, e começam com uma introdução minha sobre a obra antes de partirmos para a discussão.

“Sargento Garcia”, conto de Caio Fernando Abreu, que está no livro Morangos mofados

A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza

“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras

O americano tranquilo, Graham Greene

“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile

Por acaso, Ali Smith

“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.

Kairos, Jenny Erpenbeck

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Read the original on carolbensimon.substack.com

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