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Nevoeiro · Mar 17, 2026

Nevoeiro #67 – Rivalidade ardente e a crise do amor

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Carol Bensimon · Nevoeiro

1.

Por recomendação de uma assinante da Nevoeiro – que mais tarde confessaria ter comprado uma camiseta do Rozanov para ir à academia –, fui assistir à Rivalidade ardente. Meu lugar de fala aqui para discorrer sobre esse soft porn gay é de uma mulher casada há quase dez anos com outra mulher, e que portanto não é diretamente tocada pelo heteropessimismo e pela luta constante que deve ser ter valores progressistas e, ao mesmo tempo, desejar homens. Ou, mais do que desejar homens: querer construir uma história de amor com um homem.

A trama dos dois jogadores de hóquei, rivais na quadra mas queimando de desejo um pelo outro, é a série de maior audiência da HBO desde 2020. Que tenha despertado tanto interesse do público feminino heterossexual é certamente um fenômeno cultural a ser estudado. Não vou ser a primeira nem a última pessoa a falar disso. Mas tentarei ligar uns pontos e oferecer alguma coisa de original.

2.

Sim, há muito sexo entre dois homens gostosos na série, em uma narrativa que sacrifica a verossimilhança por um “bem maior”; nunca vemos Hollander e Rozanov treinando no gelo com todo aquele equipamento pesado do hóquei, mas somos bastante expostos a seus corpos suados de regata correndo na rua e na esteira, como se isso fosse realmente a base do treinamento de um jogador profissional.

Embora exerça um papel importante, o apelo erótico, no entanto, não explica sozinho o fenômeno que a série se tornou. Baseada na obra da canadense Rachel Reid, Rivalidade ardente integra o subgênero conhecido no mundo anglo-saxão como romance, o que em bom português poderíamos chamar de romance água com açúcar. Em outras palavras, o amor está lá, e vai ficar mais explícito à medida que os personagens conseguirem lidar com seus próprios sentimentos e considerarem tirar sua relação da esfera do proibido.

3.

Uma boa história de amor tem um – ou muitos – obstáculos. E aqui estou falando de obras de ficção, mas que obviamente precisam se alimentar do mundo real e dos valores que regem esse mundo. Em outros tempos, já foi proibido por lei, ou socialmente inaceitável, ou ambos, um aristocrata ter um relacionamento com uma plebeia, uma mulher branca se casar com um homem negro, um católico com uma judia, um homem ter uma história de amor com outro homem etc etc. Felizmente para o mundo, as dinâmicas sociais mudaram, todos esses cenários se tornaram possíveis, e processos de divórcio, além de serem permitidos por lei, certamente não maculam para sempre a vida das mulheres como outrora. Para a ficção, no entanto, nossa evolução sociocultural é um desastre. Onde estão agora os obstáculos? Existe algum obstáculo? Minha teoria é que de vivemos uma crise das histórias de amor. E o sucesso de Rivalidade Ardente é uma prova disso.

4.

A série mostra que queremos essas histórias, mas que, ao mesmo tempo, a ficção tem tido dificuldade de entregá-las. O que segura Rivalidade ardente por seis capítulos é um desejo proibido que demora a ser plenamente realizado não porque Hollander e Rozanov são gays, mas porque são gays e famosos e jogadores de hóquei e rivais um do outro. É a combinação dessas coisas que gera o grande obstáculo. Sair do armário no esporte ainda é um tabu. Uma das últimas fronteiras do proibido.

5.

Na New Yorker, a jornalista Noami Fry nos conta o que Connor Storie [Rozanov] respondeu quando perguntado sobre a popularidade de Rivalidade ardente entre mulheres hetero. “Há algo nesse tipo de história”, sugere Storrie, “nesse tipo de amor e nesse tipo de sexo que tem tudo a ver com um anseio prolongado e com preliminares demoradas. Acho que é isso o que tanto atrai o público feminino.”

6.

Dorothy Fortenberry, roteirista que trabalhou na adaptação de Handmaid’s Tale, disse ao New York Times em janeiro desse ano: “É interessante que atualmente muitas coisas consideradas sexy pelas mulheres hetero não envolvem homens hetero.”

7.

Hoje as mulheres estão cínicas e pessimistas demais para acreditar em contos de fada entre um homem e uma mulher. Há a estatística avassaladora dos feminicídios. Os estupros coletivos. Os sucessivos relacionamentos que não deram certo. Filmes de amor de algumas décadas atrás nos horrorizam quando, no meio de uma discussão, o marido dá um tapa na cara da esposa. Então surge uma narrativa como Rivalidade ardente, deslocada de tudo isso, livre de toda essa carga, de todo esse desequilíbrio, que não exije um julgamento minucioso de nosso eu-progressista. Alguns acontecimentos da trama, inclusive, seriam muito menos aceitáveis em uma relação homem-mulher – estou pensando no ghosting de Rozanov ou na dinâmica de dominação sexual que aparece no segundo episódio. É o mesmo caso de Me chame pelo seu nome, outra história de amor que fez um enorme sucesso nas últimas décadas (e mais uma entre dois homens); se o adolescente de 17 anos fosse uma menina seduzida por um cara mais velho, nossos valores de hoje dificilmente veriam aquilo como amor.

8.

Comunhão é o segundo volume da Trilogia do Amor da estadunidense bell hooks. Foi lançado em 2002, mas não tenho nenhum motivo para acreditar que suas considerações estejam defasadas. Recapitulando sua participação de décadas no movimento feminista, hooks argumenta com pesar que “as mulheres feministas pararam de falar de amor porque descobriram que ele era mais difícil de alcançar do que o poder.” Segundo ela, homens e mulheres que operam em uma lógica patriarcal estavam mais dispostos a oferecer empregos, poder ou dinheiro do que a oferecer amor.

Não ajudou em nada o fato de que, ainda de acordo com bell hooks, a maioria das feministas não tenha tido coragem de admitir publicamente que, embora as mulheres tivessem conquistado uma almejada igualdade em muitas esferas, o homem ainda exercia sua dominação na intimidade do quarto. Isso era simples de entender. Era uma questão anatômica. O homem tem um pau. A ereção ditava a hora do sexo, e ou a mulher que não estava a fim acabava cedendo, ou dizia não com o risco de enfurecer o parceiro.

9.

Fecho por um instante o livro da bell hooks. É uma tarde que já cheira a primavera. Olho para o encontro do mar e do céu e parece de repente que enxergo o óbvio: a crise do amor não é só um problema da ficção.

  • Escrever esse negócio dá trabalho, como você pode imaginar :) Se você gosta da Nevoeiro, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso aos encontros mensais do Clube Nevoeiro, e também recebem as edições do Caderno Amarelo, focado em escrita criativa.

  • Meu romance Diorama foi lançado esse mês nos Estados Unidos e no Reino Unido (divulgue para seus amigos gringos!). A cereja no bolo é que o livro foi escolhido como a leitura do mês no clube do livro da Dakota Johnson.

  • Segue a agenda de encontros do nosso Clube Nevoeiro, que esse ano está alternando romances e contos.

Dia 19/3, “A fugitiva”, conto de Alice Munro que está no livro A fugitiva.

Dia 14/4, Sonho de trem, Denis Johnson

Dia 12/5,“Sargento Garcia”, conto de Caio Fernando Abreu, que está no livro Morangos mofados

A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza

“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras

O americano tranquilo, Graham Greene

“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile

Por acaso, Ali Smith

“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.

Kairos, Jenny Erpenbeck

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